Entrevistas

“Em nome de quem?”, de Andrea Dip

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Por Claudia Lamego

Em 2014, os brasileiros elegeram o Congresso mais conservador do país desde 1964. Em 2016, a presidente Dilma Rousseff perdeu o mandato, num processo liderado, na Câmara dos Deputados, pelo político evangélico Eduardo Cunha. No mesmo ano, Marcelo Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal, foi eleito no Rio de Janeiro, uma das maiores e mais influentes cidades do país. Para a jornalista Andréa Dip, o fio que liga esses eventos é o projeto de poder da bancada evangélica em Brasília, que ela descreveu na reportagem “Os pastores do Congresso” e agora amplia no livro “Em nome de quem”, lançado pela Civilização Brasileira.

Segundo a autora, esse projeto tem duas vertentes principais: a manutenção e ampliação de privilégios da igreja (como a isenção fiscal dos templos e de produtos culturais ligados a eles) e o controle dos corpos, por meio da aprovação de leis que coíbem avanços nos chamados novos direitos humanos, principalmente das mulheres e da comunidade LGTBQ.

“Avançam nas casas projetos de leis como os que visam proibir o aborto inclusive em caso de estupro – e que aumentam as penas para as mulheres, projetos que querem derrubar o direito ao nome social de pessoas transexuais, os que querem criminalizar a “heterofobia”, os que querem a volta do projeto que ficou conhecido como a “cura gay”, a proibição do casamento civil homoafetivo, o Estatuto da Família que entende por família apenas a composta por mãe, pai e filhos – sendo que o último censo do IBGE mostra outra realidade. A bancada evangélica, apesar de heterogênea, tem se movimentado de forma coesa nestes assuntos e esteve totalmente alinhada com as ideias e partidos de direita e extrema direita”, alerta a autora, em entrevista para o blog da Record.

Por meio de entrevistas e da pesquisa de dados sobre o número de evangélicos no país e dos projetos em pauta e em votação no Congresso Nacional, a autora traça um rico panorama sobre a entrada dos evangélicos na política e disseca seus principais projetos, como o combate ao que esse grupo passou a chamar de “ideologia de gênero”. Para Andréa, o debate sobre as questões de gênero, que tinham por objetivo o combate à homofobia e à violência contra as mulheres, foi totalmente desvirtuado.

Andréa, que publicou a primeira reportagem sobre o tema na Agência Pública, um canal de jornalismo independente, defende que a mídia como um todo acompanhe e fiscalize a atuação dessa bancada. Ela lembra que os políticos evangélicos estão, em sua maioria, no campo da direita e da extrema direita e têm apoiado projetos liberais que prejudicam, inclusive, os fiéis das igrejas – como as reformas trabalhista e da previdência, entre outros. Ela frisa, no livro e na entrevista ao blog, que o livro não é contra os evangélicos. “Ele (o livro) quer alertar a população – inclusive os evangélicos – de um projeto de poder que está se construindo com pautas e motivações nada espirituais”, conclui.

A partir da pesquisa de dados, entrevistas e apuração para o livro, você afirma que o projeto de poder dos evangélicos no país passa pela manutenção e ampliação dos privilégios da igreja (como a isenção fiscal dos templos) e o controle sobre os corpos, por meio da aprovação de leis que coíbem avanços nos chamados novos direitos humanos, principalmente das mulheres e da comunidade LGTBQ. Como você acha que essa pauta conservadora poderá influenciar nos resultados das eleições de 2018 e quais os riscos para os rumos do Brasil se ela sair, de alguma forma, vitoriosa?

 Em 2014 nós elegemos o Congresso mais conservador desde 1964 e tivemos uma pequena amostra do que isso significa. Não apenas com impeachment da presidenta Dilma Rousseff, totalmente negociado pelos parlamentares com Eduardo Cunha no comando, mas com a manutenção de Michel Temer no poder mesmo após denúncias gravíssimas, assim como mandatos intocados de deputados e senadores envolvidos em graves escândalos de corrupção. Para além disso, temos visto avançar projetos como a Reforma Trabalhista, a PEC do Teto de Gastos que congelou os investimentos em educação e saúde entre outros tantos, e uma justiça no mínimo seletiva. No que toca os direitos das mulheres e LGBTQ, avançam nas casas projetos de leis como os que visam proibir o aborto inclusive em caso de estupro – e que aumentam as penas para as mulheres, projetos que querem derrubar o direito ao nome social de pessoas transexuais, os que querem criminalizar a “heterofobia”, os que querem a volta do projeto que ficou conhecido como a “cura gay”, a proibição do casamento civil homoafetivo, o Estatuto da Família que entende por família apenas a composta por mãe, pai e filhos – sendo que o último censo do IBGE mostra outra realidade. A bancada evangélica, apesar de heterogênea, tem se movimentado de forma coesa nestes assuntos e esteve totalmente alinhada com as ideias e partidos de direita e extrema direita. Isso sem mencionar todos os projetos de leis que pretendem acabar de vez com taxas e impostos para igrejas e seus líderes, inclusive sobre produtos do segmento Gospel. Acredito que se em 2018 seguirmos nessa toada, esses projetos que retrocedem imensamente nos direitos de toda a população avançarão e puxarão outros ainda piores, mais violentos. Só como exemplo, ouvi de um deputado pastor muito importante na casa, que pra ele a redução da maioridade penal deveria ser ainda maior, não para 16, mas para 13 anos.

No livro, você mostra que a narrativa sobre a “ideologia de gênero” foi forjada por militantes pró-vida, membros da igreja católica e também pelos evangélicos. Esses últimos ajudaram, com seus canais de rádio e TV e perfis nas redes sociais, a disseminá-la de forma mais ruidosa, dando a sensação de que são, sozinhos, os criadores desse discurso. Políticos como Jair Bolsonaro têm se beneficiado desse tema, que seguramente deverá ser um dos importantes nas campanhas políticas a partir de julho. Como fazer frente a esse movimento?

A grande questão é que a “ideologia de gênero em si e tudo que se criou nesse sentido é um grande delírio, uma teoria da conspiração gigantesca que não se conecta com a realidade. Foi criada a partir de informações falsas e no Brasil, disseminada a partir de informações e cartilhas falsas, para assustar pais e mães e através do medo conseguir apoio da população. Quando na realidade o que se pretendia com a inclusão das pautas de gênero nos planos de educação era falar de homofobia (que mata tantas pessoas no país), misoginia (que mata tantas mulheres todos os dias no país) etc. Então, creio que o primeiro passo seria desmistificar essa questão, em uma conversa franca com a população, explicar as diferenças entre esses olhares. Mas para isso seria necessária uma disponibilidade ao diálogo, que não me parece possível nos tempos atuais. Temos vivido um momento de achatamento das ideias muito propício para a disseminação de informações falsas.

 Temos visto não só aqui, como no mundo inteiro, uma onda conservadora reagir a anos de governos de esquerda ou com pautas mais progressistas. No Brasil, após os protestos de 2013 o povo elegeu um dos congressos mais conservadores de sua história. Você acha que a crise econômica, a perda de direitos trabalhistas e o agravamento da violência nas grandes cidades podem ser itens que sirvam como uma ponte para o diálogo entre os políticos mais à esquerda com essa massa de evangélicos que hoje está alinhada mais à direita no país?

Não tenho certeza se tudo isso serve como ponte para o diálogo entre a esquerda e a população, até porque de uma forma enviesada a direita se apropriou justamente destes elementos para se aproximar dos evangélicos. Acho que houve, como trazem alguns entrevistados no livro, um abandono do trabalho de base por parte da esquerda desde o governo Lula. A reflexão que fazem é a de que a esquerda passou a mirar a disputa institucional e a disputa de poder dentro das casas legislativas, o que me parece necessário e legítimo, mas acabou abandonando o trabalho de resistência e o trabalho de base nas periferias e comunidades mais pobres do país. Essa lacuna acabou sendo preenchida em grande parte pelas igrejas evangélicas e os partidos mais a direita viram nessa potencia uma grande oportunidade de se aproximar às camadas mais pobres da população, principalmente através de pautas conservadoras no campo moral. A direita encampou a luta contra a descriminalização do aborto e da maconha, por exemplo, se colocou como representante do projeto da Escola Sem Partido e contra direitos da população LGBT. É um fato que no Congresso, a imensa maioria dos deputados e senadores da bancada evangélica estão em partidos de direita ou extrema-direita, então essas pautas foram se misturando o que, no campo político não faz exatamente sentido já que a direita historicamente nunca defendeu os direitos dos mais pobres no Brasil. Ao mesmo tempo, a base do MTST, por exemplo, que é um movimento popular que se identifica com as pautas da esquerda, é composta por evangélicos. No livro o pastor Ariovaldo Ramos, que é o fundador da Frente Evangélica pelo Estado de Direito, diz: “Tudo o que a direita precisou fazer foi entregar para os pastores quem era o culpado, qual era o foco da perda de moral do Estado. E foram bem-sucedidos em caracterizar o PT como o grande vilão da imoralidade, da promiscuidade. Esse foi o mote, porque os pastores não teriam nenhum interesse na perda do Bolsa Família, na Reforma da Previdência e na Reforma Trabalhista [medidas-base do governo Temer]. O seu povo é basicamente constituído de gente que usufrui esses direitos. O problema é que eles foram engodados, porque acreditavam que o PT era o partido por trás da corrupção e por trás do esgarçamento do tecido social pela perda da família nuclear. Eles foram enganados e agora serão os prejudicados, porque a Igreja é, em sua maioria, feminina, pobre e preta. É um grupo que foi usado, abusado, botou o povo na rua com o pessoal da direita e da extrema direita e agora serão os maiores lesados pelo Golpe em curso e pela estupidez da elite branca brasileira.” Me parece que o caminho para a esquerda se aproximar dos evangélicos seria, através do trabalho de base, se aproximar das pessoas e apontar essas contradições.

 Os pastores evangélicos sempre foram cortejados pelos políticos tradicionais em busca de votos. Hoje, eles têm seus próprios representantes nos Parlamentos, prefeituras e governos e se comunicam com seus eleitores por meio de seus canais oficiais, concessões de rádio e TV, horas de programação compradas em canais abertos de TV. No Rio, o prefeito Marcelo Crivella, em vez de usar a mídia para responder a questões de crise, como enchentes, violência, etc., prefere gravar vídeos e divulgar em suas redes sociais, falando diretamente com quem o elegeu, sem mediação. Qual é o papel da grande imprensa e da imprensa independente na cobertura desses mandatos e administrações e também das próximas eleições?

Ter um canal direto com o eleitor, que também é muitas vezes o rebanho da igreja daquele candidato pastor é muito poderoso. Ter representantes de “deus” em uma campanha constante não tem competição. A palavra de “deus” não pode ser questionada. Então só aí já temos um jogo ganho. O candidato pastor ou quem aquele pastor apoia chega nos lares das pessoas todos os dias, a coisa vai se construindo ao longo do tempo e não apenas em época de campanha. A grande imprensa se divide entre demonizar os evangélicos e apoiar alguns de seus representantes mas mesmo quando demonizam, é material para que os pastores nos cultos e em seus programas digam como são perseguidos e que isso tudo está previsto na Bíblia. Creio que o papel da mídia independente, do jornalismo bem feito, é jogar luz nas pautas desses candidatos e também nos processos que enfrentam na justiça e nos escândalos de corrupção em que estão metidos. Porque grande parte da bancada evangélica que temos hoje tem processos no STF como eu mostro no livro.

 Por fim, você diz, nos agradecimentos, que seus pais não se curvaram à corrupção dentro da igreja evangélica. Você tem então uma experiência pessoal de convívio com evangélicos. Pode contar um pouco como essa experiência a tocou, influenciou e a ajudou para fazer a primeira reportagem sobre o tema e, em seguida, esse livro?

Eu fui criada em uma família evangélica. Meus pais tiveram cargos importantes dentro de igrejas e eu acompanhava as contradições e perseguições que eles sofriam por não se curvar ao sistema corrupto e não compactuarem com tudo aquilo. Eles saíram da igreja depois de um tempo e hoje não frequentam mais porém carregam sua fé e amigos que fizeram ao longo desse caminho. Eu costumo dizer que vi a coisa acontecer por dentro, pois estava lá, porém ver a postura dos meus pais diante daquilo me fez entender que existem pessoas que estão ali com seus corações e sua fé de um modo bem verdadeiro. Isso me fez respeitar as crenças das pessoas e me deu uma visão não achatada ou simplista do tipo “todo evangélico é isso ou aquilo”. Me ajudou muito durante as pesquisas para o livro. Me ajudou muito também porque os termos usados, a linguagem, a teologia da prosperidade e do domínio não me eram estranhos, então a experiência me coloca em vantagem. Mas eu escrevi o livro como jornalista, com a metodologia e o cuidado jornalísticos, com a busca de fontes, com uma pesquisa séria, como qualquer outro assunto sobre o qual escrevo. O livro não é “contra os evangélicos”. Ele quer alertar a população – inclusive os evangélicos – de um projeto de poder que está se construindo com pautas e motivações nada espirituais.

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