Entrevistas

“O delator”, de Allan de Abreu e Carlos Petrocilo

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Gol da Alemanha virou clichê, expressão popular diante das adversidades do brasileiro, após aquele vexame da Seleção na Copa do Mundo de 2014. No entanto, se havia um “7 a 1” que, nas três últimas décadas, carcomia o futebol nas Américas do Sul, do Norte e Central, ele veio à tona no dia 27 de maio de 2015. Naquela manhã, agentes do FBI e policiais suíços prenderam sete cartolas, entre eles, José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol, no hotel Baur au Lac, o mais luxuoso de Zurique e com diárias de até R$ 11 mil. José Hawilla, de radialista do interior a principal empresário de marketing esportivo do Brasil, acompanhava tudo pela tevê e dos Estados Unidos. Sabia que muitos daqueles cartolas e empresários de marketing só estavam presos por causa dele. “O delator – A história de J. Hawilla, o corruptor devorado pela corrupção no futebol”, dos jornalistas Allan de Abreu e Carlos Petrocilo, é um gol de letra. É a mazela do futebol narrada como um thriller.

Para evitar uma pena de até 80 anos de prisão, Hawilla confessou seus crimes de formação de quadrilha, obstrução de Justiça, lavagem de dinheiro e fraude bancária de milhões de dólares em contratos de marketing. Preso por algumas horas em 2013, o empresário, combalido após um câncer na garganta e com sérios problemas pulmonares, aos 71 anos, temia viver seus últimos dias em um cadeia nos Estado Unidos. Resolveu, então, pagar multa de 151 milhões de dólares e tornou-se um espião do governo norte-americano. A mando do FBI, Hawilla, agora um grampeador ambulante, continuou com seus negócios ilícitos, uma espécie de arapuca que incriminou Ricardo Teixeira, Marco Polo Del Nero, além de Marin – os três últimos presidentes da CBF. Quando não agendou almoços, e compareceu sempre acompanhado de um gravador e agentes do FBI à paisana, fez ligações com seu telefone grampeado. Em “O delator”, livro-reportagem, biografia não autorizada e, o pior, censurada na cidade natal de J.Hawilla, Abreu e Petrocilo desnudam nossos piores adversários da bola. “Às vezes uma reportagem bem feita serve mais à sociedade do que uma condenação pela Justiça. É o caso de “O delator”, que esmiúça em linguagem que todos entendem aquilo que o juridiquês faz incompreensível”, afirma Juca Kfouri, no prefácio da obra.

 

Quando e como surgiu a ideia de contar a história de J.Hawilla e, consequentemente, dos meandros do marketing esportivo?

Petrocilo: Na manhã do dia 27 de maio de 2015 quando o mundo foi despertado com a prisão de sete cartolas, no luxuoso hotel Baur au Lac, em Zurique, após uma ação conjunta do FBI com  a polícia da Suíça, o protagonismo de Hawilla nos bastidores do futebol veio à tona. Eu e o Allan, assim como boa parte das pessoas de São José do Rio Preto, a terra natal de Hawilla, já convivíamos com boatos de corrupção em seus negócios, sobretudo a sociedade oculta com Ricardo Teixeira. Uma má fama que começou a ecoar principalmente depois de Hawilla ter sido intimado pela CPI da Nike em 1999. Em seu depoimento, Hawilla teve que explicar como o seu patrimônio saltou de R$ 3,7 milhões em 1995 para R$ 76 milhões em 1999, oficialmente declarado à Receita Federal. Ele, que havia escapado ileso pela CPI da Nike, cairia nas garras nas garras do FBI em maio de 2013 e, no dia 27 de maio de 2015, seria apresentado como um dos principais delatores do esquema Fifagate, maior escândalo da história do futebol. Assim que a operação foi deflagrada, eu e o Allan assinamos um robusto perfil, no Diário da Região (Rio Preto), com o título “J. Hawilla, do império ao cachorro quente”. Entusiasmado pela complexidade do personagem e repercussão daquela reportagem, o Allan me convidou para começarmos ali a construção de “O delator”.

A corrupção no futebol  é um assunto recorrente há décadas. Qual principal desafio em viabilizar “O delator – A história de J.Hawilla, o corruptor devorado pela corrupção do futebol”?

Abreu: Foram vários os desafios. A reticência do Departamento de Justiça dos Estados Unidos e do FBI em abrir detalhes da investigação, o alcance internacional dos esquemas da Traffic e de J. Hawilla, o temor que ele ainda desperta em muita gente ligada ao futebol. Por outro lado, o Fifagate possibilitou o esclarecimento de muitos episódios nebulosos do passado da CBF e da Conmebol.

Embora a corrupção não seja novidade no futebol, os autores se surpreenderam com um ou outro modus operandi dos vilões da bola?

Petrocilo: Entre tantos episódios podemos citar um que de tão vulgar é cômico. Em entrevista bombástica publicada por Juca Kfouri na Playboy em 1993, Pelé afirma haver corrupção na CBF e os seus negócios intermediados pela Traffic, de J.Hawilla. Durante a concorrência por direitos exclusivos de tevê, Pelé diz que soube, através de um sócio da Pelé Sports & Marketing na época, que dirigentes da CBF pediram US$ 1 milhão por fora pelo contrato e que a Traffic apresentou a proposta só depois de saber a oferta da concorrente. Em meio à guerra, vazou um áudio em que Kléber Leite, parceiro de Hawilla, sugere contratar uma prostituta para desmoralizar a imagem de Pelé; para afirmar, em rede nacional, que o então rei do Futebol era brocha.

Como foi processo de apuração e quanto tempo levaram para escrever “O delator”?

Petrocilo: Desde maio de 2015  começamos a acompanhar esse caso diariamente. Ao longo de dois anos, realizamos mais de 70 entrevistas, viajamos para Paraguai, na sede da Conmebol, e, depois, para a Argentina. Coletamos 26,5 mil páginas de documentos de nove países. Parte deles inéditos, tanto em arquivos do Congresso Nacional e órgãos de fiscalização do mercado, como no Conselho Administrativo de Defesa Econômica, quanto em juntas comerciais e cartórios pelo Brasil, sem contar papéis dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário dos Estados Unidos, Argentina, Paraguai, Uruguai e Portugal, além de juntas comerciais da Flórida (EUA), Curaçao, Ilhas Cayman e Ilhas Virgens Britânicas.

Por ser uma biografia não autorizada e envolver poderosos do esporte, da mídia e da política, houve alguma tentativa de censura?

Abreu: Até agora, não houve censura direta, mas ficaram claras algumas tentativas de retaliação por parte da família do personagem. Os dois maiores shoppings de São José do Rio Preto (SP), terra natal de J. Hawilla, se recusaram a sediar a noite de autógrafos do livro. Como as três livrarias da cidade ficam nesses shoppings, isso inviabilizou o evento na cidade, ao menos por ora. Paralelamente, a família buscou influenciar donos de jornais da região de Rio Preto para emplacar narrativas favoráveis a Hawilla, por ocasião da morte dele – um deles se negou a autorizar o uso de uma foto de arquivo do personagem.

Os autores não conseguiram convencer J.Hawilla a contar sua versão?

Abreu: Em um primeiro contato, no início de 2016, Hawilla se mostrou disposto a colaborar, desde que após encerrado o seu processo de delação nos Estados Unidos. Mas, poucos meses depois, ficou descontente com o teor das perguntas enviadas a uma ex-funcionária da Traffic, e recuou. Mesmo assim, até o fim daquele ano, procurou monitorar os nossos passos por meio de um amigo em Rio Preto, um promotor aposentado. Só quando reclamamos a ele desse cerco é que o tal amigo deixou de nos procurar.

Embora J.Hawilla seja um personagem conhecido aos autores, por quais razões ele despertaria a curiosidade e atenção dos leitores?

Petrocilo: J. Hawilla implodiu um esquema de corrupção que perdurou, pelo menos, por 20 anos e contaminou o futebol das Américas do Sul, do Norte e Central. Para não ser preso passou a colaborar com o FBI. Vemos, então, o maior empresário de marketing esportivo do Brasil, dono de uma fortuna de R$ 1,6 bilhão, tornar-se um espião do governo norte-americano. Hawilla grampeou, entre outros, José Maria Marin, Ricardo Teixeira, Kleber Leite, além de empresários do marketing esportivo. É o pivô principal na maior investigação da história do futebol que tem mais de 40 réus, entre eles, os três últimos presidentes da CBF, Marco Polo Del Nero, Marin e Teixeira. Escrutinar a vida e obra de Hawilla, a sua sociedade com Ricardo Teixeira, as negociatas da Traffic com Conmebol e CBF é a oportunidade de apresentar ao leitor os bastidores, embora sujos, de um esporte tão apaixonante.

Vocês detalham o jogo sujo de Hawilla, relatado em depoimento ao FBI. Nos Estados Unidos, ele foi acusado de acusado de formação de quadrilha, obstrução de justiça, lavagem de dinheiro e fraude bancária. Para escapar da prisão, ele se comprometeu em pagar multa milionária e virou delator. Mas tudo isso sem nunca ter sido nem ao menos indiciado em seu país natal. Quais as razões?

Abreu: A dupla Hawilla-Teixeira sempre contou com proteção no Judiciário, sobretudo no Rio de Janeiro, sede da CBF; em 1994 e 1998, Teixeira bancou a ida de desembargadores cariocas para acompanhar jogos das Copas nos Estados Unidos e na França. Também contaram com os benefícios da legislação brasileira, que não considera crimes atos de corrupção envolvendo entidades e empresas privadas, diferentemente dos Estados Unidos. Quem mais chegou perto de quebrar essa sociedade oculta foram as CPIs na Câmara e no Senado Federal em 2001, mas a atuação da “bancada da bola”, parlamentares ligados à CBF, impediu a efetiva descoberta e punição desses malfeitos.

Ao mergulharem na investigação de um personagem tão complexo e rico como J.Hawilla, os autores colheram depoimentos de  familiares e amigos – pessoas que, naturalmente, ‘endeusaram’ o personagem. Houve nesse momento o risco dos autores se ‘encantarem’ com J.Hawilla? Como lidaram com essa sensação?

Petrocilo: São depoimentos necessários para cumprirmos com princípios básicos do jornalismo e compreender um personagem tão completo. Com senso crítico e o compromisso ético, conseguimos separar o joio do trigo.

Depois de tudo que vocês apuraram e escreveram sobre futebol, a visão de vocês sobre o esporte mudou?

Abreu: Sim. Ainda que inconscientemente, você se desencanta um pouco com o futebol no Brasil, sobretudo em sua administração. Não dá para ficar indiferente depois de tantas descobertas podres no esporte.

Petrocilo: Há um desencanto natural. Ainda mais agora que, após todo esse estardalhaço do Fifagate, vimos Marco Polo Del Nero, banido pela Fifa por conta inclusive das delações de Hawilla, agir com seus pares para eleger seu sucessor na CBF, Rogério Cabloco.

Qual a imagem que fica pra vocês de J.Hawilla?

Abreu: Um ser humano complexo. Educado, inteligente, com visão empreendedora, um radialista de voz marcante que se aproveitou da desorganização e da corrupção que sempre permeou o futebol brasileiro e sul-americano para ganhar muito dinheiro, inescrupulosamente. Quando a máscara caiu e a imagem de empresário honesto e bem-sucedido foi abaixo, mergulhou em uma espiral depressiva que culminou com a sua morte.

Petrocilo: Um homem vaidoso e ambicioso, generoso para os seus amigos e familiares, e que creditou sua falta de caráter às mazelas do futebol para acumular riquezas.

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