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O laço oculto – e ocultista – entre Hilda Hilst e Camus

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Por Manuel da Costa Pinto

Em ensaio publicado pelo caderno “Ilustríssima”, da Folha de S. Paulo, no domingo que precedeu a abertura de Flip 2018, Alcir Pécora fez um levantamento da fortuna crítica recente de Hilda Hilst, autora homenageada do evento de Paraty.

Professor da Unicamp e organizador da obra de Hilda Hilst, Pécora especula sobre as razões do boom de teses acadêmicas e artigos sobre a autora nos últimos anos, analisa as perspectivas teóricas dessas abordagens e elenca uma série de autores aos quais Hilda Hilst vem sendo aproximada – muitas vezes, nas palavras de Pécora, numa forma de “amplificação encomiástica da escritora paulista”. O encômio ou louvação embutido nessas aproximações comparativas constituem uma operação que visa, na maioria dos casos, acomodar ao cânone literário brasileiro (e mesmo universal) uma obra que escapou aos parâmetros críticos de feição sociológica, durante muito tempo hegemônicos no Brasil, e que passou a gozar de maior atenção com a emergência dos estudos culturais, de feição não menos sociológica (embora menos universalizante), nos quais as questões de gênero têm uma centralidade que procura, ironicamente, rever o próprio cânone literário – em geral, escorado em critérios de longo curso como o lugar ocupado pelo autor na tradição de uma língua ou cultura e o valor estético autônomo de sua obra.

Os estudos comparatistas de Hilda Hilst, portanto, oscilam entre as tentativas de aproximá-la ao panteão das letras e de dimensionar sua obra no âmbito de uma literatura que expressa o ponto de vista da mulher sobre o mundo (daí as aproximações frequentes a autoras como Clarice Lispector, Adélia Prado ou Sylvia Plath). Nos dois casos, com um evidente intuito de pacificação ou de normalização do caráter perturbador da obra de Hilda Hilst, cuja escrita proliferante se desdobra em diferentes gêneros literários (poesia, ficção, teatro, crônica) de modo pouco assimilável a correntes ou tendências, àqueles recortes generalizadores de que a crítica e o jornalismo lançam mão para fornecer um mínimo de inteligibilidade à singularidade de cada escritor.

Sem entrar na discussão proposta pelo texto de Pécora, adaptado de seu prefácio para o e-book Fortuna Crítica de Hilda Hilst (1949-2018), de Cristiano Diniz (Unicamp/IEL/Cedae), vale notar que ele cita, entre os autores aos quais ela costuma ser aproximada, nomes tão díspares quanto Gregório de Matos, Jean Genet, Sophia de Mello Breyner Andresen e Glauco Mattoso – o que por si só ajuda a indicar o caráter irredutível de Hilda Hilst.

Pode-se incluir nesse rol um autor que, à primeira vista, tem pouquíssimos pontos de confluência com Hilda Hilst, mas que foi objeto de teses que exploram paralelismos temático-filosóficos entre ambos e que é mencionado, de modo um tanto enviesado, pela própria escritora: Albert Camus, cujas obras são publicadas no Brasil pela editora Record.

A escrita cerimoniosa de Camus, que mantém um senso irônico de razoabilidade e equilíbrio mesmo ao abordar temas como o absurdo, o suicídio ou a revolta, contrasta de fio a pavio com a o fluxo incandescente e a retórica desmedida da literatura de Hilda Hilst, mesmo quando ela incorpora insidiosamente o mote solene e as formas da poesia clássica. E se é possível catar aqui e acolá algumas menções a Camus feitas pela escritora, elas chamam a atenção justamente por abordarem obras laterais do autor de O Estrangeiro e A Peste.

No volume Cascos & Carícias & Outras Crônicas, por exemplo, há duas referências explícitas a Camus. Em “Musa Cavendishi”, ela abre a crônica dizendo: “Um dos personagens de Albert Camus diz que, se ganhasse alguma quantia em dinheiro, compraria um barraco, poria um pouco de cola no umbigo e uma bandeira. Assim, ele esperaria para ver de que lado sopra o vento” – o que serve para Hilda Hilst, em seguida, dizer que os ventos mudaram tanto que a escritora antes “apedrejada como uma infeliz rameira lá da Galileia” agora tinha virado santa… A crônica muda subitamente de tom e, com o subtítulo “Baixou o doutor Fritz!”, passa a desfilar em alemão burlesco um discurso escatológico que destroi qualquer imagem de santidade. Mas, auto-iconoclastia à parte, o que interessa aqui é que a citação de Camus diz respeito ao uma passagem de A Morte Feliz, primeira tentativa camusisana de escrever um romance e que foi abandonado, só restando o nome da personagem Patrice Mersault, que reapareceria apenas como Meursault em O Estrangeiro, porém com traços completamente diferentes (além da variante de grafia no sobrenome).

E na crônica, “Escritor? Fora! Fora!”, Hilda Hilst encerra seu lamento raivoso sobre a penúria do escritor em tempos de inflação de celebridades com um trecho de Camus extraído de O primeiro homem: “Só os ricos podem reencontrar o tempo perdido! Para os pobres, o tempo marca apenas os vagos vestígios da morte”. À parte o fato de a citação estar ligeiramente adulterada e truncada (não há ponto de interrogação no original e HH omite um trecho na frase final “o tempo marca apenas os vagos vestígios do caminho da morte”), é de se notar que a cronista vai buscar uma frase de Camus justamente nesse romance publicado mais de 30 anos após sua morte, com base em manuscritos incompletos.

Ou seja, o Camus de Hilda Hilst não corresponde aos livros que celebrizaram o escritor francês, e que ela certamente leu, mas a um romance renegado e a um romance inacabado – o que talvez dê uma boa ideia da forma como a autora se relacionava, pelas bordas, pelos vestígios, com a própria tradição literária e com o cânone no qual a crítica tenta absorvê-la.

Uma aproximação mais produtiva entre Camus e Hilda Hilst, assim, teria de ser feita não a partir de indícios objetivos (citações, referências), mas a partir de uma sondagem de certos campos temáticos, que por sua vez são também filosóficos. É o caso de teses que partem das reflexões camusianas sobre o absurdo, em O Mito de Sísifo, e sobre a insurreição metafísica e histórica, em O Homem Revoltado, para flagrar suas reverberações na obra de Hilda Hilst – como o fazem “O verdugo e a revolta como princípio ético”, de Rubens da Cunha (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), “Paraísos do gozo: o corpo e a persistência do desejo na poética de Hilda Hilst”, de Sílvia Michelle de Avelar Bastos Barbosa (PUC-MG), “A impossibilidade de se dizer o indizível: reflexões sobre o duplo na novela O unicórnio, de Hilda Hilst”, de  Willian André (Universidade Estadual de Londrina) e “A personagem ensimesmada em Tu Não Te Moves de Ti”, de Maria Luiza Assunção Chacon (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). Todos esses estudos estão disponíveis em plataformas universitárias e podem facilmente ser acessados cruzando os títulos, os nomes dos pesquisadores e das respectivas instituições nas ferramentas de busca da internet.

Há, além disso, um campo aberto de reflexões na análise conjunta da obra dramatúrgica dos dois autores: em ambos, o teatro corresponde à parte mais negligenciada de suas obras, quando é a partir de peças como Calígula e O estado de sítio que podemos ver o sentido alegórico da ficção de Camus em geral, da mesma maneira que o teatro (também alegórico) de Hilda Hilst permite iluminar a “forma dialógica de fluxo de consciência” de sua prosa, como assinalado por Alcir Pécora em seus textos de apresentação das obras completas de escritora.

Nada evidente, et pour cause, é a maneira  pela qual Hilda Hilst procurou entrar em contato com Camus durante sessões ocultistas. Entre os anos 1974 e 1978, na Casa do Sol na qual viveu seus últimos anos, Hilda Hilst se empenhou em fazer contato com “o povo cósmico”, na trilha de experimentos relatados no livro Telefone para o além (1964), do sueco Friedrich Jurgenson, que teria inadvertidamente registrado vozes do além ao realizar gravações do canto dos pássaros em sua casa de campo, passando então a sistematizar a prática.

A experiência de Hilda Hilst foi reconstituída pela pesquisadora e diretora Gabriela Greeb no filme Hilda Hilst pede contato, que estreia em agosto de 2018, e no livro homônimo que será lançado na Flip, cuja programação terá presença da cineasta. O livro, publicado pela Sesi-SP Editora,  traz a storyboard do filme, com desenhos e trechos do roteiro, entrevistas com amigos e estudiosos de Hilda Hilst e transcrições das fitas magnéticas em que a escritora tentou gravar vozes de espíritos. Numa das gravações, ela diz textualmente: “Então nós pedindo outra vez contato para os operadores do espaço, pedindo por favor um sinal mais claro, uma palavra, uma música, uma sílaba até, mas que seja perfeitamente audível. Queria falar com Franz Kafka, com Pär Lagerkvist, com Camus, com Nikos Kazantizáks, quem mais? Com esses amadíssimos assim,  mais amados.”

E, num dos depoimentos do livro, o escritor Mora Fuentes conta (em e-mail enviado a Gabriela Greeb) que, na Casa do Sol, “seus autores mais amados estão sempre ao seu redor: Kazantzákis, Joyce, Kafka, Simone e Sartre, Camus, Freud, Jung, O visível e o invisível, de Merleau-Ponty”.

Não deixa de ser curioso que Camus – o ateu que, em O mito de Sísifo, descreveu o absurdo como “pecado sem Deus”; que, parafraseando a Bíblia, afirmou que “todo o meu reino é desse mundo”; que celebrou na pintura dos mestres toscanos do Renascimento o “protesto lúcido do homem lançado sobre uma terra cujo esplendor e cuja luz lhe falam sem trégua de um Deus que não existe” – enfim, não deixa de ser curioso que esse ateu trágico, criador de uma personagem (Tarrou, de A Peste) para quem o único problema concreto é “ser santo sem Deus”, tenha inspirado a pecadora Hilda Hilst num momento de misticismo cósmico.

 

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