Entrevistas

“É proibido calar”, de Mílton Jung

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Por Olga de Mello

Diante de um cenário econômico, social e político conturbado, pais e mães precisam trazer a discussão sobre valores para o âmbito do lar, acredita o jornalista Mílton Jung, autor de  “É proibido calar – Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos”. A base para esse primeiro de seus livros a não tratar de jornalismo ou de comunicação veio de duas missões pessoais: ser pai e ser cidadão, diz Milton, que tem dois filhos.  A preocupação com o crescimento de intenções de anulação de votos pelo desalento dos eleitores, que buscam se distanciar da política, o motivou a propor que se desenvolvam ações para a construção de uma sociedade justa e generosa. A principal dessas ações se fundamenta no diálogo – e no exemplo – entre os membros da família, como explica Mílton Jung nesta entrevista.

Ética se ensina ou se pratica?

A ética não é o que eu digo — ou apenas o que eu digo — é o que eu faço — especialmente o que eu faço. E é fazendo,  a melhor maneira de ensinarmos os outros. Nosso comportamento está sendo observado em casa, no trabalho, na escola e em todos os grupos sociais — inclusive digitais — dos quais participamos. E nos transformamos em referência. A ideia do faça o que eu digo, não faça o que eu faço, faliu. Por isso, os pais têm de estar muito atento às decisões que tomam diante das diferentes situações que encaramos no cotidiano. Posso pedir para meu filho respeitar os professores ou seus colegas, mas se no trânsito jogo o carro sobre os pedestres, faço qualquer manobra para levar vantagem, meu pedido perde valor — ele precisa ser validado pelas minhas atitudes. Não existe esta história de ter um comportamento ético com meu filho, meio-ético com os amigos e ser um crápula nos negócios. Falar é preciso, fazer é essencial.

 Transgredir é uma característica da adolescência. Como estabelecer o limite entre a transgressão “natural” e a que pode configurar um delito?

Educar seus filhos sob valores e princípios éticos muito bem estabelecidos, desenvolver nas crianças o senso de dever e de responsabilidade a partir de ensinamentos, conversas e tomadas de atitudes diante das mais diversas situações que enfrentamos no cotidiano, certamente oferecerá a eles um repertório mais sofisticado de escolhas — o que os fará tomar a decisão certa e compreender seus limites. Os pais , porém, não têm controle — nem devem se iludir nesse sentido — sobre o que acontecerá com seus filhos. O que está sob nosso controle são as ações que adotamos com determinadas finalidades. No caso da ética, a finalidade de alcançar o bem. No caso de sermos pais, a de oferecermos aos nossos filhos a educação que lhes permitirá fazerem as melhores escolhas.

 Excesso de trabalho, cansaço e um certo comodismo têm sido apontados como causas para alguns pais em estabelecer limites para os filhos. A educação é uma tarefa/compromisso que se torna cada vez mais árdua?  

Educar para a vida é o nosso desafio de pai — que assumimos no instante em que aceitamos ser o responsável pela criação de um filho. É um compromisso ético que temos com ele, com a família e com a própria sociedade. O distanciamento dos pais na formação dos filhos pelos mais diversos motivos tem levado muitos de nós a não contrariar as crianças. Assim, ensinamos que os filhos tudo podem e nada devem. E podem muito mesmo, cada vez mais. Porém, da mesma maneira têm de ter consciência de que seus deveres crescem na mesma proporção. Por mais restrito que seja o tempo que conseguimos ficar ao lado deles, é fundamental que se crie um ambiente baseado na ética e na confiança, no qual se entenda que o ‘não’ faz parte desta convivência.

Campanhas governamentais ajudam a modificar comportamentos, inibindo práticas como o bullying, a homofobia e o racismo? Qual é o papel da família diante dessas questões – lembrando que boa parte dos brasileiros vê na aceitação de diferenças um ataque às tradições?

Uma família intolerante e preconceituosa tende a formar filhos intolerantes e preconceituosos. Porém, apesar de casos de racismo, homofobia e sexismo que surgem, tenho uma visão otimista em relação a mudança de comportamento da sociedade. Nossos filhos nasceram em um novo mundo e o debate intenso sobre essas práticas ajuda na transformação de nossas atitudes. Creio que muitas famílias já são impactadas de maneira positiva pelo comportamento de seus jovens que enxergam as diferenças de maneira saudável. Em relação ao bullying, cito no livro estudo que mostra que crianças que presenciam atos de violência na escola costumam ser o principal antídoto para essa prática ao intervir e convencer colegas a mudarem de comportamento — são mais efetivos que pais e professores. O mesmo estudo mostra que para essa intervenção ocorrer, as crianças devem ser estimuladas pelos pais.

 Há momentos em que os pais devem ser autoritários, sem qualquer explicação?

Entre o autoritarismo e a permissividade, existe a autoridade. Com autoritarismo se impõe o medo e se inspira a rebelião. Com autoridade se dialoga, se ensina e se convence. Não fazer, não deixar ou não aceitar — é parte da educação para a vida. Porém, não se engane: seu filho vai querer saber “por que não”. Esteja preparado para argumentar e contra-argumentar.

 Como é a família nos dias de hoje? Instituição falida, o pilar da sociedade, um refúgio, a fonte de todas as neuroses? 

A família não está perdida, sem rumo e sem regra — como muitos costumam falar. Entendo que está apenas diferente. Muito diferente. As relações evoluíram, novos direitos foram conquistados e oportunidades surgiram, há uma exigência maior de se viver em condições de igualdade — ainda bem.

 

 

 

 

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