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O mito e a morte da beleza

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Por Mirian Goldenberg

“Por que você não faz uma cirurgia para corrigir as pálpebras caídas? Por que não aproveita também para dar uma rejuvenescida no contorno do rosto e tirar a papada do pescoço? E preenchimento ao redor dos lábios para tirar o bigode chinês?”.

Tenho sofrido um verdadeiro bombardeio de perguntas perturbadoras como estas, especialmente por parte de algumas amigas e, também, de certos “especialistas em beleza”. Eles insistem que eu preciso, urgentemente, fazer algumas “correções” nas pálpebras, pescoço e seios, além de lipoaspiração e aplicação de botox, lifting facial e outros procedimentos disponíveis no mercado da beleza.

Até recentemente as perguntas para quem pensava em fazer uma cirurgia plástica eram: “Por que você quer fazer? Você acha que vale a pena correr o risco de ficar deformada e até mesmo de morrer?”.

Hoje, as perguntas mudaram e sou testemunha de um massacre sobre as mulheres: “Por que você não faz uma plástica? Você não quer parecer mais jovem e ficar mais bonita?”.

A resposta mais óbvia é que eu tenho medo de ficar com a “cara plastificada” e com o corpo artificial. Mas dizem: “Ninguém vai perceber, fica muito natural”. Digo que receio as complicações pós-operatórias. São ainda mais contundentes: “É só fazer com um excelente cirurgião, não tem riscos”. Falo que não sou muito vaidosa, que só uso filtro solar e nem sei como fazer uma maquiagem básica. Recebo reações furiosas: “Você não quer ficar mais bonita e parecer mais jovem? Você é culpada por estar ficando uma velha!”.

Uma professora de 60 anos mostra que as próprias mulheres podem ser uma fonte de pressão e de preconceito com relação ao envelhecimento feminino.

“Todas as minhas amigas já fizeram plástica ou colocaram botox. Minha melhor amiga fez correção nos olhos, colocou botox, preenchimento ao redor dos lábios e ainda operou o nariz. Virou outra pessoa. Cada vez que ela me encontra insiste que eu tenho que fazer plástica, que estou com as pálpebras muito caídas, que vou ficar muito mais jovem. Ver o rosto dela tão plastificado me fez decidir não mexer em nada. Sinceramente, eu me acho mais bonita e mais jovem do que ela”.

Muitas não resistem à pressão e acabam fazendo um dos “tratamentos mágicos”, como uma advogada de 47 anos: “Tenho uma amiga que faz de tudo para parecer mais jovem. Ela me convenceu a fazer um tratamento mágico que prometia rejuvenescer minha pele. Gastei uma fortuna e não teve qualquer resultado. Tem tanta promessa no mercado do tipo “pareça dez anos mais jovem” que nós acabamos fazendo loucuras. Muitas mulheres ficam deformadas”.

Uma professora de 45 anos acredita que algumas mulheres são viciadas em plásticas e fazem qualquer loucura para emagrecer: fumam, comem papinha de bebê, tomam laxantes etc. Ela disse que existe uma espécie de “gordofobia” e “velhofobia” ao seu redor.

Ela mostra a mesma angústia de inúmeras brasileiras: “Como posso me sentir tão velha e acabada se só tenho 45 anos? Por que tanto sacrifício para conquistar um corpo que eu sei que é impossível? Como posso lutar tanto por liberdade e ser prisioneira da insatisfação com o meu próprio corpo?”. E questiona: “Será que não está na hora de parar com essa obsessão pela aparência jovem e aceitar a beleza de todas as fases da vida? Dá vontade de gritar: ‘Por favor, me deixa em paz, basta de tantas cobranças e loucuras. Me deixa ficar velha!'”.

Naomi Wolf, em O mito da beleza, baseada em inúmeras pesquisas e dados estatísticos, apresenta questões cruciais para as mulheres. Como podemos ser livres se somos prisioneiras de um ideal de corpo perfeito? Como podemos ser felizes se estamos permanentemente exaustas, inseguras e insatisfeitas com nosso corpo? Como podemos ter prazer se nos mutilamos e nos sacrificamos para ter um corpo magro, jovem e sexy? Naomi Wolf defende que cada mulher deve ter o direito de escolher a aparência que quer ter e o que deseja ser, em vez de obedecer ao que as forças do mercado e a indústria multibilionária da propaganda impõem.

Como tenho mostrado nas minhas pesquisas, o corpo é um capital na cultura brasileira. O corpo jovem, bonito e sexy se tornou um investimento fundamental para garantir o sucesso feminino nas relações afetivas e sexuais e também no mercado de trabalho.

É verdade que a mulher brasileira se emancipou amplamente de antigas servidões sexuais, procriadoras e indumentárias. No entanto, seu corpo encontra-se hoje submetido a coerções estéticas cada vez mais imperativas e geradoras de ansiedade. A brasileira vive uma verdadeira crise de identidade: um dos momentos de maior independência e liberdade é também aquele em que há um alto grau de controle sobre o corpo feminino.

O corpo sem marcas indesejáveis (rugas, estrias, celulites) e sem excessos (gordura, flacidez) é o único que, mesmo sem roupa, pode ser considerado decentemente vestido.

Não é por acaso que o Brasil tem o maior consumo mundial per capita de remédios para emagrecer: 40% das brasileiras dizem estar sempre de dieta.

Nas últimas décadas, o Brasil sofreu uma verdadeira explosão da indústria da beleza. A brasileira se tornou a campeã mundial em cirurgias plásticas estéticas, especialmente lipoaspiração e implante de silicone nos seios.

Pesquisa realizada em dez países mostrou que 63% das brasileiras querem fazer cirurgia plástica (o maior índice da pesquisa). Sete em cada dez brasileiras deixam de fazer alguma atividade quando se sentem feias ou gordas: elas deixam de ir à praia, a festas e até ao trabalho. Elas são as mais preocupadas em ter um rosto bonito, uma pele bem cuidada, um corpo em forma e uma imagem sexy.

Outro número impressiona: 58% das brasileiras disseram que, caso a cirurgia plástica fosse gratuita, recorreriam imediatamente ao bisturi.

Em uma pesquisa no Rio de Janeiro perguntei: “O que mais te atrai sexualmente em uma mulher?”. A resposta mais citada pelos homens foi a bunda. Não é à toa que, nos últimos anos, o número de implantes de silicone nos glúteos aumentou 547%.

Quando pergunto o que as mulheres mais invejam nos homens, elas respondem, categoricamente, liberdade, especialmente liberdade com o próprio corpo.

Quando pergunto o que mais invejam nas mulheres, elas dizem beleza, corpo, magreza, juventude e inúmeros aspectos relacionados à aparência.
O que mais me preocupa neste culto ao corpo é o enorme sofrimento que ele provoca nas mulheres, inclusive nas que são consideradas belas, jovens, magras e atraentes.

Vivemos em uma cultura que cobra das mulheres determinados modelos de corpo, beleza, juventude e sensualidade. Não é à toa que as brasileiras são as maiores consumidoras mundiais de cirurgias plásticas estéticas, medicamentos para emagrecer, ansiolíticos, remédios para dormir etc.

Devemos ser magras, jovens, excelentes mães, esposas, profissionais etc. As pressões sociais são imensas, mas, por serem invisíveis, acreditamos que somos um verdadeiro fracasso quando não conseguimos corresponder aos modelos mais legítimos de “ser mulher”.

Como escrevi na orelha do livro O mito da beleza, Naomi Wolf demonstra que a verdadeira luta feminista acontece entre o prazer e a dor, a liberdade e a obrigação, a felicidade e o sofrimento. O livro revela que está mais do que na hora de perder a culpa, a vergonha e o medo de gritar. Basta! Não vamos mais nos odiar, nos mutilar e nos esconder! Não vamos permitir que as indústrias da beleza, do emagrecimento e do rejuvenescimento aprisionem e destruam nosso corpo e nossa mente! Nosso corpo nos pertence!

Mirian Goldenberg, antropóloga, Professora Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora dos livros “A bela velhice”, “Coroas” e “Por que os homens preferem as mulheres mais velhas?” entre outros.

 

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