Entrevistas

“A biblioteca elementar”, de Alberto Mussa

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Por Juliana Krapp

Numa noite quente de 1733, uma mulher, oculta num burel de franciscanos, sai às escondidas do cemitério de pretos, no convento de Santo Antônio. Seu destino é a Rua do Egito, viela onde é, hoje, a Rua da Carioca, no Centro do Rio de Janeiro. À margem do traçado oficial da cidade de então, composto por apenas duas dezenas de casas simples, o logradouro era morada de ciganos e cristãos-novos. Ou, pelo menos, é assim na imaginação do escritor Alberto Mussa. No caminho entre o cemitério e a rua, a mulher misteriosa testemunha um crime. Há uma discussão e um tiro. Há segredos e superstições, lendas e traições, numa trama policial que resgata parte da história do Brasil popular para refletir sobre algumas questões mitológicas universais — como a ideia, por exemplo, de que o adultério é fagulha originária de grande parte das guerras.

Com A biblioteca elementar, o carioca Alberto Mussa põe ponto final em seu Compêndio Mítico do Rio de Janeiro, conjunto de cinco romances nos quais investiga, por meio de histórias policiais, a confluência das tradições ameríndias, africanas e do Brasil popular na composição do imaginário e do panorama mitológico da cidade. Com os romances anteriores, Mussa conquistou alguns dos principais prêmios literários da atualidade, como o Casa de Las Américas e o Machado de Assis, além de ser sido traduzido para inúmeros idiomas. A natureza do Mal e as codificações sexuais, temas centrais em sua obra, ganham ainda mais destaque neste novo livro, que ilumina um pressuposto inquietante: a mulher, no fim das contas, parece sempre a culpada.

 

O trecho de um livro, a lembrança de uma lenda familiar, a transcrição de um processo de séculos atrás. São vestígios como esses que fizeram nascer o mote de seus demais romances. O que te levou, desta vez, ao entorno do Morro de Santo Antônio, no ano de 1733? 

Eu planejo meus livros antes, faço praticamente todo o esquema, todo o roteiro antes de escrever. Esse processo tem várias etapas. Como A biblioteca elementar está no ciclo dos romances míticos, o primeiro passo foi escolher um mito de referência. Optei por um conjunto de mitos muito diferentes — uma biblioteca — e ao mesmo tempo iguais — elementar —, porque todas as histórias terminam com a mesma conclusão: a mulher é culpada. Nesse momento surge o título, que define o livro. Depois, vem a escolha do ambiente e da época. No caso do Compêndio Mítico do Rio de Janeiro, faltava o século 18. Duas coisas interessantes acontecem no Rio nesse século: as invasões francesas e uma atuação mais rigorosa da Inquisição. Escolhi o tema da Inquisição porque ele me permitia explorar certos grupos importantes da história da cidade e do Brasil que eu não tinha ainda explorado: ciganos, mouros e cristãos-novos. Escolhi a atual Rua da Carioca, porque ela ficava fora da área urbana oficial e era onde eu podia botar ciganos morando, já que eles eram proibidos de viver nos limites da cidade, só fora dela. Então, feitas essas escolhas, começa o traçado da trama propriamente dita. Como será o crime e como será o processo de elucidação, para o leitor, de forma que, no fim, se possa destacar, enfatizar aquela ideia inicial do livro: o da culpa eterna da mulher, qualquer que seja o livro que se leia. É mais ou menos assim.

 A mulher é sempre a culpada. Fale mais sobre isso, por favor.

O primeiro exemplo, o que está mais perto de nós, é o da Bíblia: a mulher instiga o homem a cometer o Pecado Original. Mas em todas as partes do globo, da África à América do Sul — ou seja, em toda a rota de expansão do Homo sapiens —, o princípio permanece: as mulheres são quase sempre as responsáveis pela primeira queda, ou pelo afastamento da divindade da comunidade humana, pela origem da morte etc. E são culpadas por serem curiosas, não guardarem segredos, terem desejos sexuais excessivos ou adúlteros. A mulher é, na perspectiva desses mitos, um agente elementar do Mal.

A trama se passa, em sua maior parte, na Rua do Egito, atual Rua da Carioca, onde a maioria dos moradores é de ciganos. Você poderia falar um pouco sobre a integração dos ciganos ao panorama do Rio de Janeiro daquele começo do século 18? O que mais lhe chamou atenção ao pesquisar sobre eles para escrever o livro?  

Se eu disser que só li três livros, parecerá mentira. Dois de Melo Morais Filho (Os ciganos no Brasil e Cancioneiro cigano, que têm uma edição conjunta) e Ciganos no Brasil, de Rodrigo Correa Teixeira. A maior parte do meu imaginário veio, na verdade, da Umbanda, que representa uma religiosidade muito carioca, onde entram todas as chamadas minorias etno-espirituais. Os ciganos são um dos povos formadores da cidade. Não estariam presentes nos terreiros, se não fossem fundamentais, como os índios, os africanos, o povo da rua em geral. Como estão muito associados à alegria e à adivinhação, no meu Compêndio têm como papel representarem uma espécie de metafísica da sorte (ou do azar), um aspecto filosófico particular que eu percebo ser típico do Rio de Janeiro. O romance toca explicitamente nesse ponto.

O que você chama de metafísica da sorte?

 É uma brincadeira literária, um dos traços míticos que percebo no Rio de Janeiro, baseado na filosofia do jogo do bicho; ou melhor, nos jogadores do jogo do bicho: a sorte é uma qualidade pessoal, não um processo aleatório. Existem pessoas que têm sorte, outras não. Da mesmo forma que tem gente que sabe cantar e outras não e assim por diante. E a sorte precisa ser treinada, exercitada. Não se deve desprezar a sorte. É preciso se tornar capaz de dominá-la. Como o Compêndio trata da fundação desses traços, achei que deveria atribuí-lo à contribuição cigana; aos ciganos do Rio de Janeiro, moradores da Rua do Egito.

Sua obra literária atua na imbricação entre o histórico e o ficcional. Não raro, seus livros descrevem uma característica cultural ou um fato supostamente real, do passado, que parece perfeitamente verossímil, mas que é pura fantasia. Poderia citar alguns desses exemplos em A biblioteca elementar?

Na verdade, o que é real é apenas o cenário: me preocupo com o nome real das ruas, com o perfil da população e das profissões das pessoas, com fatos históricos mais relevantes e conhecidos, com a história arquitetônica, com os procedimentos legais e policiais, enfim, com os elementos que justamente conferem verossimilhança à narrativa, que vão dar aquela sensação de que a história é real. Mas o resto, a trama em si, é ficção. Para ter liberdade, não uso personagens históricos reais. Tudo é apenas revestido de verossimilhança, Às vezes cito fontes inexistentes, para parecer mais histórico ainda. No caso de A biblioteca elementar, talvez a maior fantasia seja minha explicação para o nome Rua do Egito: parece uma tese, mas é pura invenção da minha cabeça; nem sei se ciganos moraram mesmo ali. Mas faria sentido, se tivessem morado. Isso é que importa.

Como de praxe em sua obra, não há um protagonista neste novo romance. Ou melhor, talvez o único protagonista possível seja a própria cidade, como você sugere às vezes. Mas qual é o seu personagem favorito? Seria Leonor Rabelo? Por quê? 

Declarei isso no romance, que prefiro Leonor às outras. Mas no fim do livro acabo me traindo e divido essa paixão entre outras três: Bernarda, Ângela e Páscoa. Cada uma delas tem um encanto diferente. Mas em Leonor há algo um tanto sutil: em tese, ela não pertence a nenhum lugar, com precisão, porque a mãe não era cigana, mas mameluca. Leonor é a brasileira essencial, ou um símbolo da brasilidade, que é o não pertencimento. A construção de sua identidade se faz posteriormente, por decisão e esforço pessoais. Não é completamente herdado. É construído. Me identifico muito com essa maneira de ser.

A história se passa quando a Inquisição ainda é muito marcante na cidade, efetuando condenações violentas a partir de suposições e de vestígios que nem sempre poderiam ser tomados como prova. Para as autoridades da época, as pessoas eram explicitamente categorizadas por aspectos como raça, riqueza e tipo de trabalho. Mas, quase três séculos depois, a situação não é muito diferente. O quanto a Rua do Egito de 1733 espelha o Rio de Janeiro de 2018?

Por isso a série dos romances se chama Compêndio Mítico do Rio de Janeiro: os mitos são fundadores de características perenes. Pode parecer soberbo, mas é apenas para situar o âmbito real das histórias: apesar de se situarem num momento específico do tempo (1733, 1626, 1913, 1854 ou 1657), elas são atemporais, pertencem à essência da cidade.

Quantas bibliotecas elementares há dentro deste A biblioteca elementar?

Talvez muitas. Lembro algumas: a palma da mão de Gaspar; o livro árabe da Moura; os pasquins dos três cegos; e todas as histórias que contam sobre Páscoa Muniz — que têm sempre o mesmo fim.

As chamadas ciências ocultas aparecem bastante em sua obra, seja nas práticas de personagens, seja na forma de justificar certos eventos. Em A biblioteca elementar há até uma reprodução do trânsito astral do momento em que foi fundado o Rio de Janeiro e em que ocorreu o crime que abre o livro. Você, como escritor, adota algum tipo de superstição? Já usou recursos como mapa astral ou tarô para definir o rumo da trama?

Infelizmente, sou uma pessoa muito racional. Meus livros são trabalhos bastante cerebrais. Mas vejo beleza no pensamento. Lembro de um dos mais fortes impactos estéticos da minha vida, quando vi a demonstração geométrica do teorema de Pitágoras, na Faculdade de Matemática (a que a gente aprende, a da fórmula a² = b² + c², é a demonstração algébrica). A linguagem dos oráculos também me encanta muito, porque também são sistemas lógicos, sistemas de pensamento. Estudei astrologia, por exemplo, na mesma época em que estudava matemática, mesmo sem acreditar, sem querer fazer uso dela. Estudava porque a astrologia tem uma grande beleza. Isso explica tudo.

Com este volume você encerra seu Compêndio Mítico sobre o Rio de Janeiro, a pentalogia de livros policiais que começou com O trono da rainha jinga, de 1999. O que te dá mais satisfação ao olhar esse conjunto de livros, hoje? 

Perceber que eles terminaram, que eu consegui cumprir a promessa. Ter consciência de que foi por meio deles que fui conquistando uma linguagem mais simples, mais solta, menos colada à linguagem mais borgiana, mais intelectual e artificial dos meus primeiros livros. Saber também que é um ciclo fechado, que eu não vou mais precisar estudar a história do Rio de Janeiro. Não que eu não tenha gostado, mas quero aprender outras coisas, quero conhecer melhor a história do Brasil como um todo, por exemplo. Enfim, é uma sensação de libertação. Ou de alívio.

Seria o adultério o crime primordial que sustenta tanto o seu Compêndio quanto a história do Rio de Janeiro? 

Exato. Você foi na mosca. É uma ideia central, para mim. É o fundamento, por exemplo, de um livro meu que não teve muitos leitores: O movimento pendular. Esse título alude a uma teoria literária, entre aspas, proposta pelo narrador, segundo a qual cada pessoa oscila entre o impulso de trair e o medo de ser traído. Mesmo que já não seja um crime, legalmente falando, na nossa sociedade, continua com um pesado estigma moral. É o tema mais constante da história das literaturas. Está na origem de muitas guerras; e na opressão contra a mulher. Sempre tive curiosidade de entender esse fenômeno, por que se trata de um sentimento tão universal. Afinal, é apenas sexo, apenas diversão. Por que tanto drama envolvido nisso? Meus livros acabam refletindo esse interesse e essa discussão.

Ao fim do livro, você agradece a um amigo o estímulo para se reconciliar com “o infinito imaginário da cultura árabe”. A biblioteca elementar é, para você, uma espécie de reconciliação?

Nesse sentido, o de ter podido me apropriar de certa noção estética da cultura árabe, e inseri-la numa trama passada no Rio de Janeiro, sim. Quando escrevi O enigma de Qaf, comecei a ser rotulado como um autor árabe, um representante árabe na cultura brasileira. Jornalistas queriam me entrevistar sobre os conflitos na faixa de Gaza, sobre a política da Síria, sobre a perseguição aos muçulmanos na Índia etc. E eu não sou árabe, nem muçulmano: sou neto de libaneses e palestinos, e que eram cristãos ortodoxos, apenas isso. Nunca aprendi árabe quando criança; meu pai não falava árabe, por exemplo. Fui estudar mais tarde, quando todos os velhos já estavam mortos, depois de um deslumbramento que tive quando conheci a poesia pré-islâmica, dos beduínos do deserto. Essa mitologia árabe pré-islâmica se somou às outras duas que costumam me inspirar: a ameríndia e a afrobrasileira. Mas o rótulo de árabe me intimidou; e eu passei a evitar tudo que fosse árabe, na minha literatura. Daí a importância dessa reconciliação.

Você já trabalha em algum novo livro? Quais seus projetos atuais? 

Sim, escrever se torna um vício. E eu tenho muitos projetos, meio rascunhados. Na ficção, vou escrever um romance chamado Fantástico desfile da escola de samba Floresta do Andaraí em 1961. É o romance da minha Zona Norte: Andaraí, Grajaú, Tijuca, Vila Isabel, Engenho Novo, Méier, Encantado, Todos os Santos, Cachambi. Vou escrever ainda Análise do mapa de Lourenço Cão, um romance sobre as bandeiras, ou a partir das bandeiras. Tenho mais um romance sem título, uma aventura de piratas por diversos mares.

Mas o livro que já comecei a escrever é um ensaio sobre os mitos do roubo do fogo: A origem da espécie. Afirmo que é a história mais antiga que ainda se conta sobre a face da terra. E a partir dessa constatação inicial surgem outras questões: origem da noção de humanidade; origem das instituições sociais; a emergência do adultério como grande conflito humano; a origem da opressão contra a mulher; a vocação etnocêntrica da espécie humana; a tragédia da civilização; o equívoco da ideia de “progresso”. O tema mais polêmico, me parece, é sobre a origem da própria linguagem, que me parece já existir desde o Homo erectus.

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