Entrevistas

Clarissa Wolff estreia na Verus com “Todo mundo merece morrer”

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Esqueça a narrativa padrão que você está acostumado a encontrar na literatura. Clarissa Wolff debuta na Verus e faz do seu “Todo mundo merece morrer”, lançamento desta semana,  uma trama desconstruída sobre a dualidade do ser humano. Clarissa faz parte desta nova geração de autores que vêm para renovar o cenário nacional. Seu primeiro romance é contundente, reflete a sociedade e ainda coloca em xeque as discussões sobre tolerância.

O livro conecta a vida de treze personagens que testemunham uma morta no metrô da linha verde de São Paulo. Além de estarem no vagão na hora do crime, as semelhanças entre os personagens não param por aí: nenhum deles tem possibilidade de salvação. A cada capítulo, Clarissa entrega diferentes formas de narrativa para apresentar um “sobrevivente” do atentado: desde o padre pedófilo, que conta sua versão tal qual um capítulo da Bíblia, passando pelo grupo de jovens traficantes do colégio, em uma narrativa cheia de gírias e dialetos, até a história em terceira pessoa de uma mãe que odeia o filho porque o marido não a deixou abortar.

 

1)      A cada capítulo você apresenta a história de uma testemunha do assassinato e como ela chegou até aquele vagão. A verdade é que esse grupo tão heterogêneo da linha verde do metrô tem mais em comum que o simples fato de presenciar uma morte. Eles estão longe de serem boas pessoas o tempo todo. Cada personagem esconde uma história muito densa. Qual foi a mais difícil de escrever?

A da Marina e a da Graça. A da Graça simplesmente não consigo ler e de verdade chorei muito escrevendo.

2)      “Todo mundo merece morrer” questiona sobre o comportamento humano. E o que me chamou a atenção na leitura é que você não tenta justificar a conduta de ninguém. Eles são o que são. Como foi o seu processo de criação da história, principalmente para abordar essa dualidade do ser humano? Quais foram as suas inspirações?

Preciso falar de um ponto crucial que foi a leitura de “A visita cruel do tempo”, da Jennifer Egan, de 2012. Até ler esse livro, minha visão de romance se sentia muito presa. Encontrar esse livro da Egan foi como a confirmação da existência de algo pelo qual eu já ansiava internamente. Foi como, talvez, uma permissão. A ideia do livro nasceu porque uma vez meu marido foi me buscar na linha verde do metrô depois da minha aula de francês e falou que tinha imaginado um atentado terrorista. O que ele faria? Como ele poderia intervir? Ele até brincou que eu deveria escrever algum conto assim (tudo que ele pensa ele diz que eu deveria escrever, embora ele também escreva e muito bem). Mas é engraçado falar do meu processo criativo porque eu não sinto que esteja tomando decisões de verdade – parece que tudo chega pronto do além, eu só preciso encontrar, como em um jogo de esconde-esconde, qual é a versão “certa” daquela história. Por exemplo: o penúltimo personagem, o médico, me vinha em primeira pessoa todas as vezes, mas por questões práticas eu achava que precisava escrever em terceira pessoa e nunca soava correto. Como eu poderia conciliar determinadas coisas com a voz em primeira pessoa que eu sabia que precisava ser? Sabe? Eu meio que não tenho tanta escolha assim, as peças chegam prontas e eu só preciso montar o quebra-cabeças… Eu pensava, sim, em ter personagens que as pessoas não conseguissem se apegar, ou então que sentissem certo apego e não gostassem nem se sentissem confortáveis com isso, e também sinto um prazer imenso nessa construção de personagem – eu só não vivo isso como criação. É como se eu estivesse fazendo um novo amigo e conhecendo tudo sobre ele. Mas tudo. Absolutamente tudo hahahha.

3)      Você começou a escrever o livro em 2014. O que mudou de lá para cá na história e em você como autora?

Eu acho que essa história foi feita para ser escrita na minha versão durante aqueles anos. Foram anos em que senti muita raiva e muita injustiça, em que a minha luta política interna e externa estavam mais em evidência na minha vida. Acho que hoje não teria a mesma raiva (e nem o mesmo estômago) pra dormir com esses personagens, para abordar esse tipo de tema. Tem uma fala da Dworkin em um texto destinado a homens que se chama “24 horas sem estupro” em que ela diz que os números de violência contra a mulher não são, para ela, estatísticas: ela carrega cada um desses corpos com ela. Naquela época, eu me sentia igual. Me afastei bastante da militância e do movimento feminista principalmente pelo motivo egoísta (mas necessário) da auto preservação. Não dizendo que esse livro seja militante, não vejo assim, mas acho que o estado emocional da militância política foi necessário no processo de escrita. Quando comecei a trabalhar nesse livro, a história que povoava minha cabeça era outra, mas a que nasceu foi essa. Acho que era porque só poderia ser filha desses dois anos, mesmo, e aquelas outras ideias precisam encontrar outro momento do futuro para servir de gestação. Agora eu como autora to mais preguiçosa – ando tão dedicada a outros projetos que to escrevendo menos do que devia. Mas tem uma fecundação rolando que logo, logo vira embrião.

4)      Esse é o seu livro de estreia, mas você já está inserida há muito tempo no meio literário, seja através das suas criticas em jornais e revistas ou através do seu canal no Youtube, como foi a sua experiência em vivenciar esse outro lado da literatura? O que você espera que os leitores absorvam do seu livro?

É engraçado isso porque a pergunta prova que a forma que eu existo pro mundo através da literatura é o caminho contrário de como a literatura existe na minha vida, sabe? Eu escrevo e leio muito antes de pensar em uma indústria literária, e isso é parte da minha identidade de uma forma muito pesada. A primeira coisa que eu “escrevi” foi ditada pra minha mãe porque eu tinha 4 anos, não sabia escrever, e tinha feito um “poema”. Costumava gastar toda a minha mesada com livros. Então essa parte de ler e escrever sempre foi minha verdade, o resto foi consequência. Sempre quis compartilhar sobre o que lia – quando criança, obrigava meu pai a ler meus livros favoritos (ele leu todos os Harry Potter na semana seguinte a mim por pura pressão), depois veio o YouTube e as colaborações em texto. Trabalhei por um pouco mais de um semestre em uma editora, fez freela pra outras, estudei sobre o processo literário com o Daniel Lameira, tudo isso foi consequência do meu amor pela atividade mais simples e básica que move tudo isso: sentar a bunda na cadeira e mergulhar em uma história, seja pela leitura ou pela escrita… Mas respondendo sua pergunta sem devanear demais: eu me sinto muito honrada e humilde, ao mesmo tempo, por saber que essa história vai encontrar leitores. E se eu for pensar numa mensagem, eu queria que o livro trouxesse acima de tudo questionamentos e também discussões sobre tolerância. Acho que sempre evoluímos quando somos mais tolerantes, quando conseguimos perdoar, e quando conseguimos entender e aceitar a evolução do indivíduo e da sociedade. Mas também precisamos ter consciência que existem coisas que devem ser inaceitáveis e nesse caso devemos ser intolerantes. Estamos num momento global e nacional que pede essa consciência – e aqui o ponto é tirar o foco do indivíduo e pensar em instituições e estruturas do poder. Como, quando a fome, a miséria e a opressão humanas se tornaram toleráveis e aceitas como parte da realidade?

5)      A narrativa de “Todo mundo merece morrer” é muito interessante porque foge do lugar-comum. Os capítulos são como pequenas crônicas que desembocam em um mesmo local: o metrô da linha verde. Sinceramente, depois de terminar de ler, não imagino o livro sendo contado de outra forma. Como você chegou à conclusão de que este estilo de narrativa era o mais apropriado para “Todo mundo merece morrer”?

Você escreveu cada personagem de forma cronológica, como está no livro, ou eles vieram à sua mente de forma aleatória? Os personagens me surgiam aleatoriamente, às vezes vários de uma vez, e só depois de tudo escrito é que descobri qual era a ordem. “Descobri” é a palavra certa: não existe uma lógica concreta por trás dessa formação, parece que simplesmente tinha que ser assim. E teve pelo menos uns cinco personagens que foram descartados no processo e eu não sei explicar de forma consciente o motivo hahahaha.

6)      Se você fosse o assassino do vagão e só pudesse deixar uma pessoa viva, quem seria e por quê? Eu salvaria bastante gente, sabe?
Muitas das pessoas fazem coisas que eu pessoalmente considero imperdoáveis, mas acho que talvez metade conseguiria, com desenvolvimento, se tornar uma pessoa melhor? Acho a Eva produto de uma cultura, sinto mais pena do que raiva, acho ela mais vítima que algoz. Também acho a Cora a menos imoral dos imorais, se a gente fosse matar todo mundo que faz o que ela faz pelo menos 60% do mundo acabava agora. E eu genuinamente gosto da Ivana – acho que existe algo de bondade distorcida naquelas ações.

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