Entrevistas

“País mal educado”, de Daniel Barros

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Por Omar Salomão

Apesar de as pessoas falarem comumente que um dos maiores problemas do Brasil é a fragilidade da sua educação básica, na maioria das vezes essas conversas apenas arranham a superfície do problema — o que faz com que se criem diversos mitos e suposições.

Em País mal educado, o autor Daniel Barros faz uma preciosa investigação das raízes da baixa qualidade do ensino no Brasil, incluindo um mergulho ao longo do último século e o cruzamento de pesquisas de ponta, políticas públicas de sucesso e diversas entrevistas com especialistas. Seu objetivo era desfazer uma série de mitos enraizados no senso comum e responder ao que considera “a questão central de qualquer sistema educacional: as crianças e adolescentes estão aprendendo?”.

Entre os vários méritos desse trabalho, o principal, como destaca o economista e pensador Eduardo Giannetti na orelha do livro, “é fazer um diagnóstico preciso da crise de aprendizagem e esmiuçar o que funciona — ou não — na obtenção de resultados educacionais.” Seguem abaixo as respostas do autor para algumas questões sobre o livro:

 

Em País mal educado, você desconstrói alguns fortes mitos da educação. Um deles é o de que só não aprende quem não quer. De que forma o professor qualificado pode afetar a curva de aprendizado de um estudante?

 Por um lado, eu trago pesquisas que evidenciam como nenhum outro fator impacta mais o desempenho dentro da escola do que a capacidade do professor. Falo principalmente aqui dos estudos do economista Erik Hanushek, hoje em Stanford. Ele tem uma história fascinante de investigação dos dados para mostrar o impacto do professor no aluno,  e suas conclusões influenciam políticas educacionais no mundo todo. É uma trajetória iniciada nos anos 60, quando as discussões educacionais nos EUA giravam em torno do abismo entre os resultados dos brancos e dos negros. Por outro lado, trago o exemplo de como uma excelente professora de literatura de um dos colégios com o Enem mais alto do país consegue empolgar estudantes desestimulados de uma escola de ensino médio noturno na periferia de São Paulo. Ao fim da aula, eles chegam a dizer que teriam muito mais interesse pela escola se as outras aulas fossem como aquela. São evidências científicas e empíricas de que o professor pode fazer uma tremenda diferença se um aluno aprende muito ou pouco.

Entre especialistas brasileiros, eu vejo um consenso cada vez maior de que nenhuma ação tem mais impacto na aprendizagem do que garantir um professor preparado para ensinar os estudantes. Eu me refiro a um profissional que domina o conteúdo a ser ensinado e está empenhado em motivar seus alunos. Um professor que tenta falar a língua do estudante, que se dedica a atrair o seu interesse, que estuda e se planeja para oferecer uma ótima aula a seus alunos. Isso não requer nenhum talento sobrenatural. O professor não precisa necessariamente ser engraçado ou ter um carisma nato. Ele precisa estudar e se comprometer com os estudantes. Precisa ter tempo e ferramental para planejar sua aula.

É preciso haver políticas públicas que permitam ao professor desenvolver essas habilidades e realizar as tarefas necessárias para oferecer uma boa aula. Por sua vez, o professor precisa ter altas expectativas sobre os alunos mais pobres. Vi frequentemente os profissionais da educação culpando os estudantes pelo seu próprio fracasso, exigindo deles uma motivação intrínseca, justificando o fracasso com a pobreza e o ambiente familiar adverso, como se nada mais pudesse ser feito. Essas explicações frequentemente servem para mascarar o fato de que esses profissionais não estão sendo adequadamente preparados para motivar seus alunos, não estão sendo preparados para dominar o conteúdo que devem ensinar e não estão sendo qualificados para usar as melhores técnicas de didática. A qualificação desses profissionais precisa ser o centro das políticas públicas em educação. Porque, afinal, há muita evidência de que nada tem o potencial de mudar tanto o jogo quanto esses profissionais.

Apesar do lugar comum de se colocar a educação como um dos principais problemas do Brasil, o debate público sobre a qualidade do ensino, como você mesmo apresenta, “com frequência carece de substância”. Como surgiu esse seu interesse em se aprofundar na discussão sobre educação?

Eu conto um pouco de como surgiu a ideia nos agradecimentos do livro. Eu trabalhava como repórter de políticas públicas da Exame e, em 2014, ganhei o Prêmio Esso e outros dois prêmios relevantes por conta de uma grande reportagem sobre educação que fiz. Foi uma apuração muito interessante mesmo, que envolveu algumas viagens e uma pesquisa profunda. Acabei me apaixonando pelo tema e mantendo bastante contato com muitos dos especialistas citados na reportagem. Virei, em suma, um repórter de educação. Na noite do prêmio Esso, durante o jantar no Copacabana Palace, uma amiga que trabalha no mercado editorial sugeriu escrever um livro a partir da reportagem de capa da Exame (intitulada A diferença começa na escola). Pensei um bocado no assunto e decidi fazer. O projeto do livro evoluiu muito ao longo dos três anos entre o momento que fechei o contrato com a primeira editora e o momento em que passei para a Record, no início deste ano. O fato de eu ter escrito muito do livro durante meu mestrado em Columbia ajudou a trazer uma perspectiva mais internacional ao livro, por exemplo. Mas a essência continuou a mesma: discutir a crise de aprendizagem que é um dos maiores problemas que este país enfrenta. Um problema silencioso porque ignorância não dói. Mas que nos custa muito.

Há no Brasil uma grande resistência a mudanças por parte dos educadores e sindicatos, por quê?

Penso que há uma mistura de fatores por trás disso. Primeiro, há uma tradição de os governos locais mudarem tudo que foi feito antes, o que gera descrença na durabilidade das políticas. Também há uma cultura de fazer reformas sem escutar adequadamente os professores. Eles se acostumaram a ver surgir programas da noite para o dia. São políticas novas que vêm de cima para baixo e frequentemente somem com a mesma rapidez que aparecem. Para que a implementação seja bem-sucedida, os professores precisam se sentir parte da formulação. Com esse modus operandi típico, é natural que cerca de 60% dos professores não confiem na secretaria de educação, como mostra pesquisa recente do Todos pela Educação.

Quanto aos sindicatos, é crucial que defendam os interesses dos trabalhadores da educação. Mas é preciso que essa agenda de melhoria das condições de trabalho se compatibilize com a pauta de avanço do aprendizado dos estudantes, que não costuma necessariamente ser a prioridade dos sindicatos. Em alguns casos, essas duas agendas se encontram: quando o sindicato demanda ar condicionado para as salas de aula em cidades extremamente quentes, como Rio de Janeiro e Teresina, isso beneficia professores e estudantes (há até pesquisas nos EUA correlacionando ar condicionado com melhoria no desempenho). Mas o sindicato não é responsável por analisar o custo-benefício de uma medida como essa. É o governo que deve fazer isso e comunicar da forma mais transparente possível a razão para suas decisões. Em outras ocasiões, o sindicato quer garantir que a maioria dos trabalhadores da educação se sinta beneficiado, então ele costuma se opor a medidas que causem insegurança a seus filiados — mesmo que elas tenham bom potencial de melhorar o aprendizado, como é o caso de observação de aulas para dar feedback aos professores. O desafio dos governantes é de comunicação e negociação. É preciso deixar claro que os direitos dos profissionais serão respeitados. Nem sempre as administrações conseguem. Com frequência, os boatos e mitos são mais fáceis de entender e se alastram rapidamente (veja o caso da Reforma do Ensino Médio, por exemplo). E ainda tem as ocasiões em que a atuação do sindicato é meramente política. Vários de seus líderes são filiados a partidos. Isso, inclusive, frequentemente os distanciam da massa de professores. Por isso, há casos em que dialogar diretamente com os trabalhadores pode ser mais eficaz. Independentemente desses fatores, é preciso dialogar sempre com os sindicatos. Eles ocupam um papel legítimo e devem ser respeitados. Os governos só não podem ficar reféns de suas pautas porque elas são frequentemente enviesadas.

Punições ao estudante, sobretudo a repetência de ano, são vistas por muitos como um padrão de orgulho de uma escola. “Eu digo aos meus professores que eles devem reprovar ao máximo para mostrar que essa escola é rigorosa com os alunos”, diz um diretor entrevistado para o seu livro. Qual a eficácia desses métodos? E quais suas contradições?

Isso é uma variante da ideia de que só não aprende quem não quer. Há evidências fartas de que altos graus de repetência custam mais caro ao Estado e resultam em menor aprendizado. A OCDE, quando divulga os resultados do Pisa, costuma enfatizar o quão danosa é essa política tão popular no Brasil e em outros países latino-americanos, como a Colômbia. Um pesquisador da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, descobriu que, entre 138 intervenções estudadas, repetência era a que tinha o maior impacto negativo na aprendizagem. Um aluno deve repetir de ano apenas em último caso, quando o estudante negou completamente reforço e deixou de frequentar a escola, por exemplo. Não pode ser usado como ameaça.

Há um mito de que a ameaça da reprovação por si só fará o aluno aprender. As avaliações servem para identificar o que alunos individuais não aprenderam e o que a classe tem mais dificuldade em geral. Essas provas devem disparar um esforço de reforçar o conteúdo que não foi aprendido. Usar a avaliação como punição afasta uma parcela dos estudantes porque eles se desmotivam, entram num círculo vicioso e vão acumulando defasagens até desistirem da escola. E depois dizem que “o aluno não queria nada”. É responsabilidade do poder público fazer de tudo para que aqueles jovens aprendam e não desistam da educação. Posturas como a deste diretor são absurdas. Elas são a raiz do problema de evasão que o Brasil vive. É sinal de falta de compromisso com a população. Governos não deveriam tolerar esse tipo de postura excludente de jeito nenhum.

O avanço na educação brasileira pode ser constatado por meio de um parâmetro interno, relativo a própria história do país. Externamente, quando comparamos esse percurso com a de outros países, as medidas muitas vezes são outras e apontam para um atraso histórico. Entre avanços e retrocessos, em que ponto estamos nesse momento?

O Brasil avançou muito em acesso à escola. Também desenvolvemos um sistema adequado de distribuição de recursos (primeiro com o Fundef e depois o Fundeb) e um bom sistema de avaliação de aprendizado (Saeb/Prova Brasil). As avaliações, inclusive, nos permitiram notar algumas melhorias de aprendizagem no 5º ano, sobretudo em língua portuguesa. Mas conforme as crianças vão ficando mais velhas, os resultados se deterioram. O desempenho no 9º ano do ensino fundamental e no fim do Ensino Médio parece estar estagnado. As notas são ainda mais alarmantes em matemática, onde o percentual de estudantes com aprendizado adequado é muito baixo. E ainda tem a evasão. Mais de 40% dos adolescentes não terminam a educação básica aos 19 anos.

No Pisa, que avalia adolescentes de 15 anos em 70 países, o Brasil até cresceu durante as primeiras edições de que participou, mas nos últimos anos temos visto estagnação. E o pior é que paramos de melhorar antes de sequer sair do último pelotão de nações. Portanto, existe claramente uma crise de aprendizagem no Brasil hoje — seja comparando internamente, seja comparando com outros países. Parece que estamos próximos de um teto no desempenho escolar. É preciso fazer mudanças mais estruturais para destravar nosso potencial.

A notícia boa é que há diversos estados como Pernambuco, Ceará, Goiás e municípios como Sobral (CE), Rio de Janeiro (RJ) e Seabra (BA) que avançaram bastante e se tornaram exemplos para o restante do país. Se muito do que foi feito nessas redes públicas se difundir, o país já dá um salto no aprendizado. Por outro lado, há também questões de fundo, mais profundas, que precisam de uma solução nacional, como a seleção, qualificação e valorização dos professores. Só assim elevamos o nosso “teto” de desempenho escolar. Este livro tenta mostrar que o caminho para o Brasil resolver sua crise de aprendizagem passa por reproduzir em escala nacional ações bem-sucedidas de alguns estados e municípios e destravar gargalos mais sistêmicos, a exemplo do que outros países fizeram.

País mal educado traz um cuidadoso mapeamento dos desafios do ensino público de qualidade (ou seja, que de fato ensina) nas últimas décadas, com alguns casos surpreendentemente bem-sucedidos, como a cidade de Sobral, no interior do Ceará. O que há de diferente nesse projeto? 

Sobral é um caso notável entre observadores atentos das discussões de política pública em educação. A cidade começou suas transformações educacionais em 2000. De lá para cá, promoveu políticas que ofereceram formação de professores voltada aos desafios práticos desses profissionais, seleção técnica e criteriosa de diretores, autonomia para eles substituírem professores faltosos, ampla coleta de dados por meio de avaliações sistemáticas da aprendizagem (não para punir, mas para acompanhar o aprendizado dos estudantes), reforço escolar para garantir que os alunos se recuperem nos conteúdos que eles não aprenderam, altas expectativas sobre o potencial dos estudantes etc. Sobral tem um conjunto impressionante de políticas públicas focadas exclusivamente em melhorar o aprendizado. Mas elas não surgiram da noite para o dia. Foram construídas ao longo do tempo, pouco a pouco, mas com determinação para colher resultados de excelência. Em termos políticos, certamente ajudou ter continuidade do mesmo grupo desde 2000. Não houve ruptura nas políticas públicas. Mas, com um pouco de grandeza e prioridade para educação, é possível não ter rupturas bruscas sem prescindir da alternância de poder inerente à democracia. Isso aconteceu em Pernambuco, na Chapada Diamantina, no Chile etc.

Recentemente foi aprovada a nova Base Nacional Comum Curricular. Qual a importância desse projeto? Como ele pode afetar a qualidade do ensino?

A BNCC é fundamental para o Brasil. Com ela, haverá mais clareza sobre o que o professor deve ensinar e quando. Portanto, também ficará mais fácil de determinar os conteúdos de formações continuadas mais eficazes. Ela também vai servir para alinhar os livros didáticos e já está gerando uma profusão de materiais de apoio aos professores, que vão facilitar a preparação das aulas. Com a Base, o país passou a discutir de fato o que deve ser ensinado nas escolas brasileiras. Isso é um avanço.

Além disso, a BNCC é uma política indutora de outras. Por meio dela, estados e municípios estão trabalhando com mais proximidade, visto que muitas cidades devem adotar o currículo que está sendo elaborado pelo estado. É o chamado regime de colaboração, que funciona tão bem no Ceará. A Base também pode ajudar a melhorar a formação dos professores estruturalmente, já que agora há mais clareza sobre os conteúdos que eles deveriam dominar. E, por fim, há uma grande chance de as escolas passarem a priorizar o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, que estão embutidas nas 10 competências gerais que guiam a BNCC, como pensamento científico e criativo, capacidade de argumentação, autonomia para elaborar seu próprio projeto de vida etc.

Existem alguns casos de reformas educacionais pelo mundo muito bem-sucedidas. Quais desses projetos poderiam ser aplicados no Brasil?

Muitos elementos de reformas educacionais internacionais aparecem no livro. Mas a mensagem que quis passar é de que precisamos de um modelo tropical, nosso, que respeita as particularidades do Brasil. Afinal, este é um país sui generis. Só para dar alguns exemplos: o Brasil é federalista, diferentemente do Chile, e seus 5570 municípios e 27 unidades da federação têm relativa autonomia sobre o que fazer no campo educacional. Mas, ao contrário dos Estados Unidos, que também é uma federação, o Brasil concentra boa parte dos recursos de educação na União. Aqui, como demoramos a universalizar o acesso à educação, a maior parte dos pais tem pouco estudo e não dá o devido valor a isso. E esses são somente alguns aspectos muito próprios do Brasil. Portanto, precisamos combinar boas práticas nacionais com inspiração nas transformações de outros países.

Dito isto, o Brasil pode se inspirar no Chile sobre como focar na melhoria da atração e na qualificação dos professores — um processo que está em curso por lá agora. Pode também pegar o México como exemplo de avaliação do impacto das políticas públicas. Pode se inspirar nos programas de tutoria pedagógica do Reino Unido, nas práticas de formação em serviço da província de Ontário, no Canadá, e no jeito como a Califórnia está implementando a base curricular americana (o Common Core).  Mas não se pode esquecer que esses exemplos são inspirações. Servem apenas para ter ideias sobre o desenho de políticas locais e para ajudar a antecipar problemas de implementação. Eles devem ser vistos com moderação.

O que impede o Brasil hoje de chegar ao patamar de Singapura, Finlândia, ou até mesmo do Chile?

Como expliquei um pouco acima, o Brasil teve um atraso gigantesco de acesso que precisa ser compensado — universalizamos o ensino fundamental cem anos depois dos EUA. Temos tremenda dificuldade de dar continuidade às políticas, principalmente no nível local. E também não colocamos educação como prioridade política ao longo dos anos, como mostro no capítulo II — ao contrário do Chile, como se pode ver ao acompanhar o papel que o tema ocupa nas discussões eleitorais. Os políticos normalmente não estão tão dispostos a usar seu capital político para passar reformas fundamentais para a educação. Acho que vários deles sequer entendem que vivemos uma crise de aprendizagem. Pensam que, com a escola pintada, as crianças uniformizadas e a merenda na mesa está tudo resolvido.

Além disso, o Brasil é um país muito diferente de Singapura, Finlândia e Chile. Certamente não podemos ter trajetórias parecidas. Singapura é uma ditadura e um país minúsculo. A Finlândia tem uma tradição histórica de valorizar os professores. O Chile é um Estado unitário e que tem tido políticas educacionais que atravessam administrações distintas, inclusive de lados opostos no espectro ideológico. Não deveríamos nos comparar demais a esses países. Deveríamos olhar políticas públicas interessantes que existem por lá e avaliar se fazem sentido no contexto brasileiro. Com prioridade e continuidade, o Brasil avança na educação!

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