Palavra do autor

“Agora que aconteceu, tem muita viúva chorando”

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Por Fabrício Carpinejar

Somos viúvos da Luzia mesmo, querido ministro. Nossas lágrimas são pântanos onde nadam os crocodilos políticos.

O crânio mais antigo do país, com 11 mil anos, teve que falecer duas vezes para ser descoberto pelos brasileiros.

Os museus no país não são museus, são depósitos.

As autoridades fazem questão de esconder as nossas instituições artísticas, de tratá-las como secundárias, como irrelevantes, como desperdício de dinheiro público. Não são mantidas com orgulho, não são alardeadas em projetos de recuperação, não são reconhecidas como vitrines da nossa ciência, não têm brigadas de incêndio, muito menos os sensores mínimos de fumaça, não estimulamos a iniciação científica e a visita das escolas. O último presidente que pôs os pés no Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, foi Juscelino Kubitschek. Faz tempo, né?

Ministro, agora que aconteceu é que as pessoas estão descobrindo o valor do Museu Nacional. Antes do incêndio, quem passava por São Cristóvão devia pensar que era a residência abandonada do imperador. E só.

Em dois séculos, não houve a decência de formar um público admirador e ensinar aos outros a potência histórica daquele patrimônio inestimável.

Antes das chamas destruírem noventa por cento do acervo, grande parte da população nem sabia que desfrutava de um museu com 20 milhões de itens, entre dinossauros, esculturas, objetos indígenas, meteoritos, documentos históricos e a maior coleção egípcia da América Latina.

A desinformação é a nossa primeira morte. Dentro do governo e fora do governo. As outras mortes são meras consequências.

Luzia significa aquela que irradia luz. É um nome que corresponde a protetora dos olhos. Mas a justiça vem sendo cega para a cultura. Unicamente enxergamos as cinzas, tarde demais.

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