Entrevistas

“LYdereZ”, de Pedro Salomão

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Eles são frequentemente tachados de impacientes, ambiciosos e distraídos. Mas também são conhecidos pela agilidade e por serem multitarefas. O fato é que não se pode ignorar a revolução que as gerações Y e Z têm causado no mercado de trabalho. E disso o empresário e palestrante Pedro Salomão sabe bem. Ele é fundador da Rádio Ibiza, coletivo que criou o conceito de identidade musical, cuja idade média dos colaboradores não chega aos 30 anos.

Depois de lançar “Empreendendo felicidade”, seu livro em tom mais autobiográfico, Pedro sentiu a necessidade de falar sobre como os jovens com quem trabalha fizeram com que ele desenvolvesse um novo olhar sobre a liderança. Em “Lyderez”, ele aborda o exercício da empatia para mostrar como aproveitar o potencial de quem é recém-chegado ao mercado.

“Lyderez” lança um olhar aguçado sobre as diferenças geracionais. Como sua experiência na Rádio Ibiza contribuiu para este projeto? O que te motivou a escrever?

A Rádio Ibiza foi meu grande laboratório porque foi onde eu pude validar as crenças que eu tinha e que me fizeram, inclusive, abrir um negócio. Eu não tinha nenhum problema com o mundo corporativo. Muito pelo contrário, eu gostava muito.  Eu aprendi muita coisa no Bradesco, onde trabalhei, mas eu saí por acreditar nessa história da felicidade como mola propulsora de um negócio. Sem ser a felicidade de forma piegas, mas a estratégia, entender como a gente vai trabalhar os indivíduos. A minha primeira empresa “Tá surdo?” era formada apenas por mim e mais duas pessoas.  A Rádio Ibiza foi a empresa que me deu a possibilidade de trabalhar com muita gente. A gente chegou a ter 60 funcionários. E aí foi onde eu validei esses conceitos todos sobre o quanto é importante tirar o que efetivamente existe de melhor de cada geração.

O que te motivou a escrever?

Primeiro foi saber que todo mundo falava mal sobre as gerações Y e Z. Meu primeiro livro, o “Empreendendo felicidade”, fala sobre a felicidade como estratégia de negócio. E eu digo no livro que quem trouxe essa demanda da felicidade foram as gerações Y e Z, que de complicadas não tinham nada porque, na verdade, elas disseram pra gente que a felicidade não era algo material a ser conquistado no fim da vida. Então,  ela não está ligada ao carro que você tem, à poupança, ao apartamento que você compra.Essa geração não quer ter carro. Eu comecei a perceber isso muito cedo. Não quer ter apartamento, não quer ter cargo. A única coisa que eles disseram pra gente é que eles querem pintar o cabelo da cor que eles quiserem, querem ter a opção sexual que eles quiserem, casar com quantas pessoas quiserem, quantas vezes eles quiserem, então, resumindo, eles só querem ser felizes. E aí quando eu percebi isso e vi que eles estavam trazendo essa dinâmica, que a felicidade deixava de ser algo material para ser algo experimental e que a valorização do momento presente fazia mais sentido, isso começou a reverberar, fazer muito sucesso. Eu encontrei muito respaldo nos jovens. Que diziam: “Ah, que bom que você entende a gente”. Então, eu me senti na obrigação de falar sobre o exercício da liderança, mas essa proposta da liderança com a qual eles estão mudando o mundo. Claro que, como em todas as gerações, eles precisam completados e complementados com uma série de coisas, mas eu achei que eu devia fazer esse manifesto. E aí, essa motivação se consolida com uma coisa que eu vejo acontecer no mundo hoje. Eu sou pai do Bento e da Maria. Se meu primeiro livro é um pouco biográfico, meu segundo livro é quase um compromisso porque toda vez que eu olho para os meus filhos, eu penso que  santo de casa não faz milagre. Eu sei que meus filhos vão procurar essa informação com esses novos líderes que vão estar mais próximos deles de geração. Então, se eu puder deixar um legado, se eu puder influenciar esses jovens para que depois os meus filhos sejam influenciados por eles, e aí fazer minha contribuição para mudar um pouco desse mundo com relação à liderança, eu acho que eu vou ter atingido uma felicidade, vou ter contribuído para melhorar de alguma forma o que está por aí.

Os jovens das gerações Y e Z são alvos de muitas críticas, frequentemente tachados de impacientes, ansiosos e até mesmo arrogantes. Você, por outro lado, destaca no livro uma série de qualidades deles. Fale um pouco sobre essa interferência positiva desses profissionais nas relações de trabalho.

 Tudo que é novo causa estranheza. Eu não acho que tem impaciência. Ansiedade tem, mas é uma ansiedade sobre a qual eu até falo no livro. Porque a gente deixou de aprender a ter fé, que é um exercício como qualquer outro. Para quem acha que fé é uma palavra religiosa, substitua pela palavra “intuição”. Fé e intuição são a mesma coisa. É acreditar numa coisa que você não pode ver e basicamente esperar. É o exercício da espera. E essa juventude de hoje não consegue esperar. Ansiosos eles são, mas o que eu acho que eles trouxeram de mais incrível é a felicidade como a única coisa que eles não negociam. E uma outra coisa que tem a ver com isso é a desassociação da liderança com a hierarquia. A gente acreditou durante muito tempo que a gente precisava ocupar um cargo para ser líder. E o que eles estão dizendo é que eles não estão nem aí para os cargos. ‘Eu vou liderar a minha própria vida. Eu vou liderar meus amigos no Instagram. Eu vou liderar o meu grupo’. Todos nós somos líderes e liderados o tempo inteiro e a gente pode liderar para o bem ou para o mal. Então, desassociar isso da hierarquia é o primeiro ponto, pra gente escoar, para criar líderes capazes de mudar o mundo. Vários líderes, de várias formas diferentes.

No livro, você se pergunta como uma pessoa poderá se comportar como um profissional maduro, se ainda é tratado pelo chefe como se estivesse na escola, com horário pra entrar e sair, uma hora de almoço, internet bloqueada e relatórios de produtividade. Neste contexto, você aborda valores como confiança, admiração, incentivo, conversa e tolerância. Como é possível aliar comprometimento e eficiência a esses conceitos? Você acredita que as empresas no geral ainda têm uma gestão muito atrasada e conservadora?

Eu costumo dizer que o maior controle que existe no mundo é a liberdade. Eu fui criado assim. Eu sou um cara que, diferentemente da maioria dos meus amigos, nunca fumei, nunca usei nenhum tipo de droga, nunca bebi nenhum tipo de álcool e eu tinha liberdade de fazer isso tudo se eu quisesse. Minhas irmãs idem. Eu acho que quando você tem uma liberdade que está relacionada a confiança, ao depositarem em você uma confiança, e principalmente, um senso de pertencimento, em que você é empoderado das suas atitudes e das consequências delas, você está na verdade sofrendo o maior controle de todos, que é o controle da consciência. Quando a gente fala essas questões no livro, não é para que as empresas rompam com o ponto eletrônico, vire uma grande zona, um movimento anárquico de liderança. Eu não costumo dizer que uma empresa é atrasada. Eu costumo dizer que a gente tem uma síndrome do colonizado, principalmente aqui no Brasil. A gente fica importando conceitos de gestão de fora e esquece às vezes de olhar para as pessoas. A gente na Rádio Ibiza entendeu que pode dar uma hora para as pessoas de benefício. Em vez de entrarem 9 horas, que seria o da carteira, a gente pede para chegar até 10h. E usar essa uma hora pra cuidar de si. São iniciativas simples que mostram para o funcionário que ele faz parte de algo maior.

Em tempo de eleições e discussões acaloradas nas redes sociais, a intolerância fica ainda mais evidente. Pra você, esse é um dos pontos negativos das novas gerações. De que forma você observa isso no dia a dia de trabalho? E falando especificamente da crise econômica  e política do país, você acredita que o Brasil passa por uma crise de liderança?

O grande toque que eu dou é que a gente pare um pouquinho e pense. Talvez a maior bandeira que eu veja hoje os jovens levantando é a da tolerância. E eu vejo o contrário. Não vejo isso. Pra mim, a gente está vivendo a pior das ditaduras. A ditadura ideológica, em que quem não pensa igual a mim é descartado da minha vida. E a gente começou a confundir preferência com preconceito. Excluir uma pessoa que pensa diferente da gente e achar que vai aprender com um igual é o maior erro que a gente pode ter na vida porque quem ensina pra gente é quem pensa diferente.A gente está numa crise de liderança porque a gente se acostumou a depositar no outro a responsabilidade de mudar o nosso mundo, o nosso país. Eu acho que a gente ainda está com essa cabeça de achar que a liderança tem a ver com hierarquia. E achar que a gente não tem que fazer parte do negócio. E eu me ponho nessa. Quantos convites eu recebi pra entrar na política e eu digo que é a última coisa que eu vou fazer na minha vida. De certa forma, eu estou fugindo da responsabilidade de mudar meu país porque eu não acredito na política. Então, até eu que estou escrevendo um livro desse passo por esse problema. A única coisa que a gente precisa é ter a capacidade de entender que a liderança é um exercício. Não é uma função. Não é um cargo.

Quais líderes das gerações anteriores te influenciaram? E com os novos líderes, o que você tem aprendido?

 Jesus é o cara mais avant-garde que eu conheço na vida. Enquanto vocês estão discutindo agora sobre homofobia, feminismo, sobre Direitos Humanos, sobre tudo isso, o cara há mais de 2.000 anos levantou essa bandeira. Maria era mãe solteira, então ele não tinha uma família convencional. Ele ficou amigo da prostituta e protegeu ela do apedrejamento. Eu me inspiro muito nesse lado da história. No lado humano. Tem outros líderes que me inspiram muito . Um deles é o José Luiz Alqueres, que está escrevendo a quarta capa do livro. Um baita gestor. Um cara que fala de felicidade e equipe há 50 anos. O próprio Ronie Vaz Moreira, que escreveu a orelha do livro. Meu pai me inspirou muito no lado humano. E eu sou criado numa família de mulheres e essas mulheres foram minha referência. Eu sou fã dos meninos da Dotz. O Lucas e o Arthur. Esses meninos são incríveis. Eu tenho uma admiração pela forma como eles empreendem. Os meninos da Leve, o Michel do Koni, o Roni da Reserva. Esses são líderes mais novos que me inspiram.

E sobre sua experiência em dar palestras, o que é mais gratificante?

A palestra é a maior paixão da minha vida. Depois de ficar com meus filhos, eu amo porque é uma forma de saber que você está contribuindo em escala com o mundo. Você está fazendo sua palestra, está compartilhando seu conhecimento. É um negócio incrível que me renova o tempo inteiro e mais do que isso, o mais gratificante é aprender muito. Primeiro porque eu aprendo o tamanho desse Brasil. Porque é bom viajar esse país inteiro para entender a organização, pra entender governo, formação social. Porque faço palestra em tudo o que é empresa, órgão, clube. Ver como as empresas se comportam. Poder saber um pouco dessas histórias e ajudar a mudar alguma coisa dentro delas é mais gratificante que ganhar um Prêmio Nobel.

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