Entrevistas

“A perdição do barão”, de Lucy Vargas

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Quem diria que uma novela ruim poderia despertar o hábito da escrita em uma criança! Foi assim com Lucy Vargas. Ela tinha dez anos quando assistiu a uma novela com a mãe. Como não gostou da história, decidiu reescrever tudo do seu próprio jeito. A partir daí, começou a criar as próprias obras de ficção – e as amigas do colégio foram as primeiras leitoras.

Hoje, além de escrever, Lucy estuda. E muito. Inspirada por suas autoras favoritas de romances de época, como Jane Austen, Lucy pesquisa sobre os diversos períodos da história, principalmente o da regência, para compor os seus livros. Vinda da geração da autopublicação e com a presença maciça nas redes sociais, ferramentas preciosas para ter contato direto com o público, a autora está agora no segundo lançamento na Bertrand Brasil.

Com A perdição do barão nas livrarias e prestes a sair pelo Brasil apresentando a segunda edição do “Chá de época da Record”, Lucy conta nesta entrevista sobre suas inspirações, sobre o livro novo e seus próximos passos.

1. A perdição do barão coloca como protagonista um homem apaixonado que acredita que nunca será correspondido. Como foi escrever sob o ponto de vista de um romântico incorrigível tendo saído de um nobre bem sagaz, confiante e provocador?

Acredito que foi uma combinação. Patrick, o barão, é cético quanto ao amor devido a tudo que viu na família e no momento em que vive. Mas acabou se apaixonando por alguém que não estava disponível. Apesar de querer fugir do que era o “mal do amor”, ele é mesmo um romântico. Na questão de escrever como ele, até que fluiu mais fácil do que esperava. Fiz uma base de pesquisa para criá-lo, pensei em que ano ele nasceu, em que ambiente cresceu, onde foi educado, o que leu, o que viu, o que acontecia naqueles anos. Tudo para tê-lo completo na minha mente e não ter que ficar parando. Ele não saiu da minha mente, era como escutá-lo até completar sua história. E eu gostei muito que ele saiu sagaz, confiante (não sei se ele concordaria com isso) e provocador

2. Tanto Um acordo de cavalheiros quanto A perdição do barão falam, entre outros temas, sobre a liberdade feminina. Além disso, enquanto autora, você tem o cuidado de fazer um contraponto ao machismo, que era uma característica da sociedade da época, com personagens mais abertos ao diálogo. Como trazer da melhor forma discussões atuais para livros ambientados no século retrasado?

É um tema que você sempre verá nos meus livros, em alguns sutilmente, em outros como algo que influi nos acontecimentos da história. Escrever romance de época sendo uma mulher contemporânea, expande a minha plataforma. Quanto mais eu pesquiso sobre a cultura, regras e a vida das pessoas daqueles séculos, mais eu vejo o quanto as coisas mudaram e, ao mesmo tempo, as semelhanças. São cerca de 200 anos de diferença entre algumas histórias dos meus livros e o momento atual. Eu quero mostrar isso e fico feliz quando é fácil notar. Meu público é predominantemente feminino, e acho importante expor esses cenários usando meus personagens. Como baseio esses contrapontos em pesquisas e fatos, procuro trazer a realidade da época para as leitoras verem e poderem comparar com nossa realidade atual. E conseguirem assim se conectar e se identificar com a história.

3. Você estuda bastante sobre os períodos históricos e isso é nítido no seu cuidado com as descrições e com os detalhes em seus livros. Como surgiu o seu amor por romances de época e quando decidiu fazer deles o seu gênero de escrita?

Adoro pesquisar, é uma das partes mais divertidas. Tem aquela excitação de caçar uma informação e ir atrás dela, para o barão até me envolvi em uma trama internacional de enganação para conseguir completar a pesquisa (contei na nota da autora no fim do livro). Eu li alguns clássicos que se passavam em outras épocas e me encantei. Mas eu me apaixonei mesmo e descobri que era possível escrever aquele gênero quando tinha uns 15 anos. Levei 3 anos lendo e pesquisando antes de ter coragem de começar a escrever o primeiro romance de época. Nesse período eu descobri a comunidade Adoro Romances, onde conheci muitas leitoras e elas me apresentaram autoras maravilhosas. Lembro que um dos livros foi Lábios de Deusa da Deborah Simmons. Fiquei impressionada com tudo. Eu lia e pensava: É maravilhoso! Eu quero criar isso! Preciso fazer isso também! Quanto mais me apaixonava pelos romances, mais eu queria contar as coisas de outro jeito, então, concluí: Vou criar e escrever as minhas histórias. Eu já sabia que queria ser uma escritora, mas ali descobri o que eu queria criar. Quando a Amazon, Kobo, iTunes e Play Store apareceram, as primeiras histórias que tive coragem de publicar e “entregar ao mundo” foram romances de época.

4. Hannah e Patrick são os condutores da história, mas você também criou outros personagens interessantes, como a duquesa, Grace, a irmã de Patrick, e o pai do duque com a sua outra família. Qual foi o seu processo para criar esses personagens?

Vou falar disso nos eventos! A história é toda narrada pelo Patrick, nós vivemos com ele, seu amor, sua dor e felicidade. Porém, a trama é construída pelas mulheres. Ele conta tudo por causa de seu amor por Hannah que passa a ser o motor que guia inúmeros acontecimentos. Ele foi criado e inspirado pela avó, pela tia, irmã e até pela mãe quando partiu. Elas fazem as rodas girarem e continuarem em volta das decisões e dos caminhos que ele decide tomar. Grace é sua parceira eterna, sua cúmplice e responsável por diversos momentos da trama. Assim como a duquesa e a Esther que tem suas próprias tramas e também causam momentos imprescindíveis na vida do Patrick. Todas são mais do que apoio, mas também protagonistas dentro da vida dele. Esse é o segredo da criação do livro. E ele reconhece isso algumas vezes. A perdição do barão é um livro que tem um personagem masculino forte e apaixonante, que é criado, influenciado, amado e protegido por mulheres e foi escrito para elas por uma mulher.

5. Um acordo de cavalheiros e A perdição do barão se passam no período da regência. Pretende abordar outros períodos históricos em romances futuros? Quem sabe ambientar alguma história no Brasil?

Eu tenho dois livros independentes que se passam em outros períodos: Cartas do passado é um romance medieval do século XV e Segunda chance para amar que foi meu primeiro livro publicado, é ambientado no norte e oeste americanos nos anos de 1890. Ainda não tive uma ideia sobre um romance de época no Brasil, sou atraída pelos anos 20 a 30 do Rio, gosto de ler sobre. Quem sabe quando concluir minhas séries atuais penso em algo. Enquanto isso, adoro ler os romances ambientados aqui, tem algumas autoras brasileiras maravilhosas que escrevem sobre esse tema.

6. O que os leitores podem esperar de A perdição do barão e da segunda turnê do “Chá de Época da Record” que você apresenta?

Em A perdição do barão,  os leitores poderão mergulhar no romance de época através dos olhos de um nobre criado na regência e se apaixonar perdidamente, enquanto ele é tomado pela sua perdição. Afinal, o nome do livro não é à toa. Não ficaremos apenas na parte em que os dois se conhecem e seguem entre reviravoltas até resolverem ficar juntos. Nada disso, iremos numa jornada com o barão. De sua paixão e desilusão, ao reencontro inesperado, as dúvidas, a realidade dessa relação e seus problemas. Vivemos com ele as dores das perdas, inseguranças do relacionamento e decisões de ambos que os levam a precipícios. Chegaremos até o fim dessa história com o barão. O felizes para sempre aqui é muito depois de um possível casamento, é uma vida de perdição para acompanhar.

Estou muito feliz e animada que teremos a segunda edição do chá e que dessa vez iremos a cinco cidades! Voltaremos com um evento ainda mais dinâmico, divertido, repleto de títulos que vão dos históricos aos clássicos e aos romances de época. Com mais autores para apresentar, mais novidades, lançamentos,  brindes e curiosidades sobre as épocas que eu e muitas autoras usamos para criar.

7. Você começou a gostar de escrever aos 10 anos quando viu uma novela ruim e decidiu reescrever a história. Se você pudesse reescrever algum romance de época clássico, qual seria e por quê?

Decidi falar de um clássico que aparece em uma das epígrafes de A perdição do barão: Frankenstein de Mary Shelley. Como todo leitor, imaginei diversos outros elementos. Victor e “a criatura” causaram sofrimento suficiente um ao outro. A criatura não merecia ser trazida à vida, ainda mais por um criador tão fraco e desertor. Mas os inocentes que ela matou também não tinham culpa de sua miséria. Então quando a criatura demanda que Victor crie sua companheira, este devia ter falhado ao tentar.

Victor é um tremendo de um egoísta ao se casar com Elizabeth, pois a condenou à morte. Tomado por culpa e desespero pela perda de sua esposa e pressionado pela criatura que a matou, Victor deveria ter trazido Elizabeth de volta à vida. A criatura fugiria levando-a. Enraivecido, Victor faria como no livro e partiria em busca de vingança atrás da criatura. E esta estaria sofrendo, pois Elizabeth não se conecta a ele, estragando seus delírios de receber amor pela primeira vez. Victor os seguiria e eles se encontrariam como no livro e nesse momento fatídico o gelo quebraria, ambos teriam de assistir Elizabeth morrer e ser tragada para o fundo do Ártico. A criatura gritaria em pavor e dor por ver sua amada morrer, a única no mundo como ele. E Victor teria de ver sua esposa e nova criação monstruosa desaparecer para sempre.

Daí em diante aconteceria quase como no livro. Victor conta tudo, morre e a criatura volta para velar seu criador, percebendo que ele era o último elo e o que teve de real em sua existência. Queria que no fim fosse descrito a enorme pira em que a criatura finalmente partiu para seu descanso desse mundo que só lhe mostrou crueldade (também não diria se a criatura realmente se matou logo após ou se viveu por anos, só que em algum momento ele morre na pira que prometeu fazer quando ainda velava seu criador).

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