Entrevistas

“Bagageiro”, de Marcelino Freire

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Por Manoela Sawitzki e Omar Salomão

Neste “Bagageiro” do pernambucano radicado em São Paulo Marcelino Freire cabem contos, ladainhas, improvisos, cirandas, aforismos, humor, drama, violência, personagens vestidos de palavras, ou, em síntese, tudo isso ao mesmo tempo numa coleção de “ensaios de ficção” — gênero inventado por esse escritor inquieto, passional e sempre disposto a rir do próprio umbigo.

São textos com o pulso vivo e vozes múltiplas que erguem mundos. Marcelino costura diferentes questões — a linguagem, a literatura, a vida literária e, sobretudo, a vida — que saca de uma estrada cheia de atalhos e que percorre atento. São muitas direções, outras tantas risadas e desvios que nos tiram do eixo. “Bagageiro” é a lâmina cantante de um afiador de falas.

 

Manoela — Estávamos os dois aqui começando a ler teu livro de um jeito bagunçado — Omar me chamava e lia uns trechos em voz alta e vice-versa — e a primeira coisa que pensei foi numa entrevista do Waly em que ele dizia: “Eu acho bastante chato ler um ensaio — que quer dizer tentativa — em que o autor mapeia previamente toda a trajetória dele, chega ao fim que ele previu inicialmente, cerebralmente. Eu embarco nessas poucas tentativas que fiz, ou sobre Torquato ou sobre Hélio, de forma contrária, porque meus textos têm distância crítica e simbiose apaixonada pelo assunto nas próprias palavras”. E à medida que fui avançando no livro, isso voltava o tempo todo e parecia uma grande chave pra essa leitura. Todo mundo vai fazer essa pergunta, mas pergunto primeiro: por que ensaios?  

Muito lindo isso que o Waly falou. Não gosto mesmo do cérebro interferindo, todo dono de si. Eu tenho dois romances engavetados. Era para ter publicado um romance. Desisti dos dois. Porque eles estavam muito “donos de si”. Neste livro de “ensaios de ficção”, eu estou lá me divertindo. Indo sem ir. Sem apontar o dedo. Quando aponto, baixo o dedo e sigo me perguntando, sigo ironizando, não me levando a sério. Chamei meus contos de “ensaios” porque nunca chamo meus contos de contos. Chamo de ladainhas, improvisos, cirandas. Veio-me à cabeça a seguinte frase: “hoje todo mundo quer ter ração”. Todo mundo criando seu pitbull de estimação. Foi a partir dessa frase que eu resolvi reunir esses “ensaios”, como se eu estivesse posando de “entendido”. Este é um livro de um “entendido”. Eu me colocando idem como parte deste pet shop. Muitas das minhas frases ali eu uso nas minhas oficinas de criação literária. São ensaios de improviso, que eu já escrevia em um antigo blog e que agora eu coloco no papel. Coloco neste “Bagageiro”. O título vem mesmo do bagageiro da bicicleta. É o único veículo que sei conduzir. No Nordeste, a gente coloca tudo no bagageiro: criança, botijão de gás, mulher grávida. Eu não tenho “bagagem”, eu tenho é esse “bagageiro”. Eu gosto do movimento que tem o livro. E gosto porque não sei bem a cara final que ele tem. Gostei que vocês tenham gostado. Tenham notado essa “simbiose apaixonada”, para usar a frase do grande Waly. Waly era passional. Eu quero ser assim, me sentir assim quando escrevo…

Manoela —Quando abri o envelope em que veio a cópia do livro foi engraçado porque li Bagaceiro, uma palavra que adoro, e apesar de Bagageiro ser ótimo e certeiro, bagaceiro (tanto no sentido da malandragem, do não se levar tão a sério, quanto no daquele que remove o bagaço, o sumo da fruta) continuou fazendo sentido com o rolar da leitura. Talvez porque você se lança tão bem nesse exercício de “entendido” que confronta e desmonta o entendimento, inclusive o próprio (“Eu pareço Mãe Diná. É tanta coisa que eu falo aqui que uma hora eu acerto”). Você acha que está faltando autodesmonte (bagaceirice) na literatura contemporânea?

Querida amiga, eu tinha um quarto na infância chamado “Quarto da Bagaceira”. Este quarto, no Nordeste, é chamado assim porque é onde a gente coloca todo tipo de traste, de resquício, de coisa velha, de cadeira quebrada. Eu já intitulei um material meu de “Quarto da Bagaceira”. Você sabia que esse tipo de quarto existe nas usinas de açúcar, que é onde se joga o bagaço da cana? A expressão vem daí… Não foi à toa, digamos, você ter lido “Bagaceiro”. Eu concordo que falta este tipo de quarto onde alguns escritores deveriam passar umas férias. Eu tenho horror a me levar a sério. Por isso o tempo todo, neste “Bagageiro”, eu fujo da ideia de me levar em conta demais. Eu quero é andar livremente de bicicleta. Entulho tudo lá, no meu “bagageiro”. Eu quero rir de meu próprio umbigo. Espero que eu tenha conseguido. A ideia era mesmo essa: a de me colocar entre os trastes. Ser um desses trastes. Fazer parte deste desmonte…

OmarInevitavelmente, sempre que eu leio os seus textos, as vozes que narram ecoam alto na minha cabeça. E de quando em quando, eu repito algum trecho em voz alta, o que já me deixou em situações quase constrangedoras (risos). Essa presença viva – não apenas o sotaque, mas o ritmo da fala, a voz dos personagens tem cor e contraste. Como você trabalha essa dicção? Você lê os textos em voz alta quando está escrevendo?

Eu sou guiado pela fala, pela escrita em voz alta, sim. Eu posso ter a ideia que for, mas ela tem que virar palavra. Meu personagem é a palavra. Uma guiando a outra. Eu sempre digo que escrevo com “ímas”, não com “rimas”. É um sistema magnético todo. Termino de escrever um conto e eu vou rezar este conto em voz alta. Ele tem que me convencer como reza. Perdão pelo constrangimento que te causei. O que aconteceu é que você, sem saber, estava rezando comigo. Compactuando da minha ladainha, dentro nós dois de um mesmo oratório. Agradeço demais pela graça alcançada. Amém!

Omar — Mais do que um narrador que descreve cenas, ambientes, sorrisos e afins, sinto que você é um escritor que se traveste do outro, incorpora, um escritor cavalo. Como você recolhe as palavras/histórias, esses outros que lotam o seu bagageiro?

Eu, de fato, tenho dificuldade para compor um ambiente, desenhar um cenário. Tudo é feito pela voz do personagem. E pelas palavras que a voz do personagem vai costurando. Tem muito a ver isso com a oralidade sertaneja. É mais a voz dentro da casa do que a própria casa. Porque a voz preenche o ambiente. Porque é a voz que traz o quintal, o cachorro, o oratório. Tudo é composto pela fala. Eu vou descobrindo um personagem, por exemplo, pelos primeiros sinais que as frases vão me dando. Eu começo a escrever e aí percebo que aquele narrador é um velho, é uma travesti, é uma professora. Tudo descortinando aos pouquinhos a partir da embocadura de cada pessoa na página. É o que carrego comigo: essa audição, essa compreensão dessas vozes, dessas ladainhas, desses apelos sonoros.

Manoela — Ainda nessa linha do escrever/travestir, incorporar/construir corpos, tem um trecho do “Ensaios de Ficção II” em que você escreve: “Não vista seus personagens como se vestisse bonecas”. Isso reverberou muito pra mim e me parece que, no teu caso, se trata disso mesmo. É comum, ao te ler, ter a sensação de que essas vozes todas existiam antes mesmo de você. Como você aciona esse sistema magnético? Quando descobriu que tinha que ser assim?

É que tem escritor que diz como o personagem está vestido e diz assim apenas para constar, apenas para o figurino figurar. Mas aquela vestimenta que ele criou não está no corpo do personagem. O escritor vestiu apenas por vestir. E um personagem, para mim, está vestido pela natureza interior e exterior. Guimarães Rosa faz muito isto. Vão lá dar uma olhada no conto “A Terceira Margem do Rio”. Quem veste os personagens são as palavras. A paisagem por dentro e por fora. Os personagens são vestidos pelo rio, que corre dentro e que corre fora deles. Quem veste o personagem, em resumo, é o leitor, a leitora. A imaginação é que costura o figurino. Quando escrevo, pelo tom da fala eu sinto como o personagem está vestido. Outra frase que eu uso no Bagageiro é a seguinte: “Escreva com palavras que você consiga vestir, sair com elas à rua”. Essa defesa em cada escritor é fundamental para se levantar um mundo próprio, da cabeça aos pés.

Omar — Recentemente alguns textos seus foram adaptados pro teatro com sucesso. Como foi pra você ver essas vozes em outros corpos, outras dicções?

Eu amo teatro. Ele é minha permanente inspiração. Meus personagens pisam no palco antes de pisarem nas páginas. Eu escrevo pensando em teatro. O ator é um ofício muito generoso. Ele empresta a voz, o gesto, o corpo, o suor para as palavras que estão ali, em seu estado estacionado. E oferece a sua arte para a plateia e ele próprio nunca assiste ao que está fazendo. É um ofício feito para a entrega. Eu, como escritor, sou solitário quando estou criando. Mas quero ser solidário quando estou entregando ao leitor o que criei. Isso, assim, eu me espelho no teatro. Ver meus textos em cena é uma alegria imensa, é um desbunde. Porque acabo fazendo parte deste movimento pleno de solidariedade. Sinto-me pulando da página para o mundo. É revolucionário.

Omar — De tudo o que se acumula, o que entra no bagageiro, o que cruza o caminho, o que atravessa de relance, o que se ganha, se toma, se perde, o que a poeira traz, se você tivesse que definir o que a literatura é em sua vida, seria o quê?  

A literatura é sempre essa viagem, de carona. É esse passeio público. Sem saber para onde vamos, seguimos. Em cada parágrafo uma paisagem. Em cada ponto uma parada. A literatura é essa aventura constante. Em direção ao outro, muito além de você e de mim, este movimento sem fim.

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