Entrevistas

“Pare de se odiar”, de Alexandra Gurgel

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Referência do movimento body positive, a jornalista Alexandra Gurgel conta em “Pare de se odiar”, sua jornada em busca de aceitação e liberdade — como aprendeu a se ver sem motivos para vergonha.

A pressão sofrida, principalmente por mulheres, para se encaixar num padrão estético que muitas vezes envolve um diâmetro de cintura impossível para a fêmea da espécie humana pode ser massacrante.O julgamento está nos olhos de todos: de amigas com sugestões de dietas a mães com críticas dolorosas. Mulheres perpetuando o modelo que aprenderam. Mas a ideia de Alexandra é justamente subverter e ensinar às pessoas a se olharem pelo viés positivo, a serem um pouco mais bondosas consigo mesmas.

Com bom humor, ela trata de assuntos espinhosos: desde depressão e outras doenças nascidas de uma sociedade gordofóbica até relacionamentos tóxicos, amorosos ou não. De forma muito simples e nada acadêmica, ela desconstrói conceitos nos quais aprendemos a (tentar) nos encaixar durante a vida inteira, destacando a importância de entender o feminismo como uma porta para este sentimento tão libertador que é não odiar o próprio corpo.

Nesta entrevista, ela fala sobre sua experiência e sobre os projetos aos quais o ativismo body positive deu origem.

 

 

Quem precisa ler “Pare de se odiar”?

Quem precisa ler é quem tem um corpo. Todo mundo tem um corpo, né? E provavelmente tem também alguma insatisfação. Então, se você tem alguma insatisfação com seu corpo, esse livro é para você. Eu falo principalmente no feminino porque essa é a maior parte do meu público e porque as mulheres são mais abertas a essa pauta. E também porque são as que mais sofrem ainda com pressão estética e gordofobia por causa do machismo. A nossa sociedade é muito patriarcal, machista, o que torna a vida da mulher mais difícil, porque ela tem que ser maravilhosa, tem que ter uma aparência agradável e bonita. A mulher sofre mais do que o homem nessa pressão para ser perfeita.

Você fala disso no livro, e acho que muita gente não sabe: qual é a diferença entre pressão estética e gordofobia?

É difícil de explicar de forma simples. Mas pressão estética é aquela que toda mulher e todo mundo sofre. Para ser perfeito, para se aproximar do padrão. Temos um padrão de beleza eurocêntrico, que é a mulher branca, magra, alta, loira, cabelo liso. Então tudo que foge a esse padrão sofre pressão estética. É o caso, por exemplo, da Miss Canadá que participou do Miss Universo no ano passado. Ela era um pouco maior que as outras candidatas e foi chamada de gorda. Ela é magra, ela só é um pouco maior que as outras. Isso é pressão estética. Pressão estética todo mundo sofre, até a Bruna Marquezine, como falo no livro. Todas essas mulheres famosas, que têm o corpo dito “perfeito”, sofrem pressão estética assim mesmo. Sofrem críticas, body shaming, comentários sobre seu corpo.

Ser gorda é ser totalmente fora do padrão. A diferença para a gordofobia é que pressão estética todo mundo sofre em níveis diferentes. Gordofobia só gente gorda passa. E é mais do que pressão, é não ter acesso. É pensar duas vezes em ir ao bar onde seu amigo vai comemorar o aniversário porque a cadeira é de plástico e você tem medo de quebrá-la. Gordofobia é andar de avião e não fechar o cinto. Gordofobia é você ser visto como doente. Uma das maiores lutas anti-gordofobia é tirar esse estima de doença da pessoa gorda. A gente consegue curar pressão estética com empoderamento e autoestima. No caso da pessoa gorda, o empoderamento e a autoestima fazem muito bem, mas não impedem a gordofobia. A cadeira não vai alargar. Tem essa grande diferença.

Qual você diria que é o passo mais difícil no trajeto para a autoaceitação?

Com certeza entender que você está sozinha nessa. É você com você mesma. Muita gente acha que se aceitar é conformismo. E não é. Se aceitar é questionar-se o tempo inteiro. É entender e questionar o contexto em que você está inserida, como você foi criada, a construção social. Será que você realmente gosta das coisas que você gosta ou tudo isso foi imposto a você? É um trabalho muito grande de questionamento, de se conhecer e ir fundo nesse processo. Não é simples nem fácil. Muita gente desiste, acha que vai ter um botãozinho para você apertar. Não tem. É você mesma o tempo inteiro indo em busca dessa tal aceitação. Ela existe, mas não é um botão, uma dica essencial que vai te salvar. Desconstrução é um processo para sempre, passo a passo. Você levou muitos anos para ser “construída”.  A desconstrução não vai vir do dia para a noite.  Trata-se de ir contra tudo que te ensinaram, que você acredita, para reconstruir uma pessoa nova, que se ama, que se aceita.

 Qual foi a coisa mais libertadora que você já fez ou sentiu depois que passou a gostar do seu corpo?

Como eu falei, é um processo. Cada vez mais eu vou fazendo coisas que me libertam. Em 2016 eu gravei uma paródia na praia, com meus amigos, seguidores e outros youtubers, e foi uma das primeiras coisas muito libertadoras que eu fiz. Porque eu gravei na praia, de biquíni, no Arpoador, um dos lugares que mais cultua o corpo no Brasil. Dancei, brinquei, depois sentei na cadeira de praia, olhei para os lados e pensei: “Tô livre. Tô aqui na praia de biquíni com uma galera e em nenhum momento passou pela minha cabeça que alguém podia estar me olhando e me julgando. Porque dane-se, eu tô de boa com meu corpo e comigo mesma”. Foi sensacional. Depois, fiz uma tatuagem no braço, que era uma região que eu não mostrava, não gostava. Depois cortei o cabelo curto – e tem essa coisa de que gorda de cabelo curto não fica bem. Estou me desapegando pouco a pouco e cada vez mais me libertando dos padrões. Mas é um processo.

Conta um pouco da história do seu canal? O que te levou para o Youtube? E o que te mantém lá até hoje?

O canal começou em 2015 quando encontrei o feminismo. Entendi que eu sempre tinha sido feminista e não sabia. Criei o canal pra encontrar semelhantes, para falar sobre esse assunto. Meu canal é antes de tudo sobre liberdade. Liberdade para ser quem você quiser ser, do jeito que quiser. E isso é feminismo.  E é por isso que a minha base é o feminismo, e a base do livro também. E logo eu entrei na pauta do corpo, comecei a descobrir o que era pressão estética, gordofobia, e me dar conta de que eu tinha passado por isso a vida inteira. Hoje, já são mais de 300 vídeos, o canal faz três anos em dezembro.  Hoje em dia meu canal é um meio de se empoderar, não só fisicamente, mas na mente também. Falo de saúde mental, de relacionamentos. O que me mantem lá até hoje é o fato de que eu amo dividir com meu público o que eu estou pensando. Amo conversar com as pessoas e o público cria muito comigo. Alguns dos vídeos mais bombados foram sugestão do público, por exemplo. E o livro é como se fosse o meu canal condensado em 155 páginas.

E a Toda Grandona? Começou como uma festa mas hoje já é bem mais que isso, né? Pode contar essa história?

A Toda Grandona nasceu no início do ano. Eu, Bernardo e Caio morávamos juntos, todos têm canal no Youtube, e aí conhecemos Juliana e Ricardo e nos juntamos. O Bernardo e o Ricardo são DJs, tinham uma festa no Rio, então decidimos criar a primeira festa body positive do Brasil aqui em São Paulo. Foi um sucesso desde a primeira edição, já fizemos cinco, uma delas no Rio. A festa é um espaço maravilhoso porque você vê pessoas de todos os tipos, todos os corpos, todas as cores. Todo mundo está ali em prol de um propósito, que é questionar corpo e ser livre. E também para curtir uma balada sem preconceitos, olhares, e ninguém enchendo o saco (risos). Nasceu a festa e logo em seguida veio a marca. Foi um pedido dos seguidores, que queriam a camisa da festa, e a gente decidiu ir além. Estamos querendo crescer e ser uma marca de roupas básicas – porque às vezes esquecem de fazer o básico para pessoas gordas.

E fazemos mais: já temos projetos de consultorias para marcas, fazemos palestras e workshops juntos ou separados. Então a Toda Grandona veio para pegar essa fatia de pessoas que precisam se empoderar. Não tinha ninguém fazendo nada por elas ainda. Para as festas vem gente de várias cidades do Brasil. Já veio gente de Manaus, Amapá, do Acre. A gente fala de gordoridade, que é um conceito que exploro também no fim do livro. Essa irmandade entre pessoas gordas. A festa não é só pra pessoas gordas, mas o foco é esse. São pessoas que nunca são fotografadas nas festas, ou então nem vão por vergonha. Você pode ver um monte de gente igual a você, se divertindo, vibrando. Você se sente mais normal, dentro da sociedade. Sente que faz parte.

 

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