Entrevistas

“As coisas”, de Tobias Carvalho

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O que acontece depois que alguém “sai do armário”? Como é o dia a dia das relações homossexuais quando as fases de descoberta e aceitação já passaram? Este é o universo retratado em “As coisas”, livro de contos do gaúcho Tobias Carvalho que foi vencedor da edição 2018 do Prêmio Sesc de Literatura.

Nos 23 textos que compõem o livro, Tobias naturaliza as relações entre homens e se dedica às particularidades que elas trazem. Inspirado em suas experiências pessoais e de amigos, ele dá voz a personagens em sua maioria jovens, que moram sozinhos pela primeira vez, vão morar com o namorado, se aventuram em paixões na faculdade e nos aplicativos de encontro.

Tobias nasceu em Porto Alegre em 1995.  Ele cursa Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e já participou de oficinas literárias. “As coisas” é seu livro de estreia.

É comum na literatura e no cinema vermos personagens gays se descobrindo. Seu livro vai além e fala sobre o dia a dia dessas relações, sobre a rotina. O que te motivou a escrever a partir desta perspectiva?

Acredito que andamos em uma trajetória de trazer mais representatividade para as artes, e, nesse processo, falar sobre aceitação foi importante. Mas acho também que dá para virar a página, falar sobre o que vem a partir daí, naturalizar que as relações homossexuais existem, mas estar atento às particularidades que elas trazem. Como é novo na história das artes que sejam abordadas relações gays, falta ainda muito para ser escrito. Como sou gay e não encontro tanta literatura que vá por esse caminho, a necessidade de escrever sobre esse tema apareceu de forma quase natural, até que os contos viraram unidade, e a unidade virou As Coisas.

Os contos do livro se passam em tempos de individualismo extremo e aplicativos de encontros. Para você, como esse cenário afeta as relações? Há alguma particularidade em relação aos homossexuais?

 Há. Me parece que os aplicativos de encontros suprimem várias convenções heterossexuais. Talvez porque os homens são ensinados desde sempre a galantear, a ir atrás do objetivo de conquistar, transar, gozar; enquanto as mulheres aprendem a se resguardar, a não ser “fáceis” demais, a não ter liberdade em relação ao sexo. O problema é que, como é fácil demais transar sendo um homem gay, o outro lado da moeda fica difuso. Como se pode estabelecer laços mais profundos quando as relações são tão efêmeras, fáceis, quando não existe a tensão da conquista, o primeiro encontro desastroso? A dinâmica é outra. A liberdade sexual, por mais maravilhosa que seja, tem um preço.

Sexo não é um tema tabu no seu livro. Como foi para você tratar de temas como intimidade e erotismo com tanta franqueza?

Não tem outro jeito, tem? As pessoas transam. E pensam sobre isso, têm frustrações e desejos ligados ao sexo. É engraçado pensar que temas assim continuam sendo tabu no nosso século, mas o fato é que o sexo define bastante de como as pessoas vivem. Sim, é possível que afaste muita gente da minha literatura, mas sinto que escrevi sobre o que queria escrever.

Seus personagens, assim como você, são do sul do Brasil, considerada a região mais conservadora do país. Neste contexto, qual a importância da literatura no combate à homofobia?

 Eu nasci e vivo desde então em Porto Alegre. Seria difícil ambientar minhas histórias em outro lugar, mas sim, vivemos um momento em que o conservadorismo aqui está em alta. Gosto de pensar que é uma reação às conquistas que tivemos. De um jeito ou de outro, não vamos deixar de existir, e é bom que deixemos isso bem claro. Acredito que a escassez de público leitor no Brasil tem muito a ver com essa onda conservadora. As histórias nos conectam com as pessoas, suprimem barreiras, nos permitem a identificação com personagens que pouco têm a ver conosco. Se a literatura pode oferecer empatia, ela já faz muito.

Como foi a experiência de ser vencedor do Prêmio Sesc? Quais são seus próximos projetos literários? Já tem algo em mente?

Incrível. Já entrar de catapulta no mercado literário é muito mais do que eu poderia querer, ainda mais tendo Daniel Galera e Leticia Wierchowski como jurados. A Record fez um trabalho lindo com meu livro. E o pessoal do Sesc ainda leva os dois autores vencedores a viajar pelo Brasil para divulgar a obra. Luxo.Espero que seja só o começo. Ou quero acreditar que sim. Estou começando a escrever meu primeiro romance agora, e, por enquanto, bem feliz com o que está saindo. É para ser um projeto bem diferente do As Coisas. Para ter uma ideia, o título (por enquanto) é Os malefícios das drogas & os benefícios do esporte. Veremos aonde vai.

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