Entrevistas

“Entre as mãos”, de Juliana Leite

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Por Juliana Krapp

Uma jovem tecelã sofre um acidente grave e permanece em coma num hospital. Os procedimentos médicos e as intervenções em seu corpo são narrados pelo ponto de vista de seu companheiro, enquanto relembra cenas da vida a dois. Logo, porém, uma voz feminina emerge na narrativa. Pouco a pouco, assume o controle da história, revelando que a violência do acidente é apenas mais uma dentre tantas outras. Violências ante as quais, porém, se instaura uma trama de fabulação e de reação.

O corpo feminino — o corpo de Magdalena, no caso — é quem dita o ritmo de Entre as mãos, livro de estreia da petropolitana Juliana Leite, que conquistou o Prêmio Sesc de Literatura 2018, na categoria romance. Dividida em três partes, é uma obra sobre a sobrevivência, diz a autora. “Não no sentido do heroísmo, longe disso, mas da sobrevivência modesta e muito persistente na vida de uma mulher comum, trabalhadora encarnada no contemporâneo de uma cidade ordinária.”

 

Entre as mãos é uma trama que vai sendo construída e reconstruída por meio de linhas narrativas que se entrecruzam e, por vezes, desestabilizam umas às outras, num inusitado quebra cabeças. O que você queria quando decidiu escrever a primeira frase deste romance?

Eu tinha apenas uma ideia vaga sobre o que esse romance seria quando comecei a escrevê-lo. Tinha a intuição de que a protagonista passaria por uma espécie de travessia, mas ainda não tinha acessado que isso se daria a partir de um acidente – e que sobreviver ao acidente seria uma chave para acessar outras sobrevivências subjetivas. Me entreguei ao processo de escrita sem pensar em um objetivo para a narrativa, acreditei no próprio fazer do texto como método de revelação das substâncias que surgiriam. Como, por exemplo, o importante fato de Magdalena ser uma tecelã, e de que todo o seu olhar para o mundo parta desse eixo de quem trabalha com as mãos. As linhas de texto que se cruzam surgiram quando comecei a me perguntar, ao longo do processo, como o próprio texto poderia ser um trabalho manual, algo que se fia e se desfia, e que muda a trama conforme seu deslocamento. Esse estudo da linguagem foi alimento para a narrativa: comecei a pensar a história a partir dos seus “fios”, essa modesta unidade de medida.

Mas, sim, havia algo que me interessava muito explorar que era o ritmo. Tanto o estabelecido por cada uma das três partes do livro, quanto o ritmo de um conjunto. Na primeira parte, por exemplo, eu queria que de algum modo as frases expusessem a precariedade de um corpo acidentado, de um coração arrítmico. Frases curtas, comedimento no uso de conectivos. Já na segunda parte, os períodos se estendem um pouco mais e revelam um fôlego distinto para a voz dessa mulher. De modo geral, a escolha por fragmentos e versões se refere diretamente  à pessoa que Magdalena é,  à vida dessa mulher. Ela pode saber muito pouco sobre si e o mundo, ter poucas certezas no imediato que a cerca, mas ainda assim produzir sentidos e seguir adiante a partir das mãos.

Essa estabilidade frágil e o risco de que algum fio se rompa a qualquer momento acabaram dando a voltagem de todo o livro. No entanto, em nenhum momento a história dessa mulher trata a instabilidade física ou subjetiva como fraqueza ou lamento. Não há tempo a perder quando é a sobrevivência que demanda os gestos. Magdalena sabe bem disso.

A violência contra a mulher, em suas múltiplas dimensões, é uma das chaves de leitura de seu livro. Aborto, agressão sexual e abandono são temas que perpassam a narrativa. Entre as mãos é uma obra feminista? Aliás: o que é, para você, uma ficção feminista? 

A subjetividade feminina é uma questão central para o livro, sim, e ela se expressa nas linhas de algumas maneiras distintas – às vezes pelos fatos narrados, às vezes pela linguagem em si. Gosto de pensar que essa subjetividade surgiu no texto sem que eu tivesse planejado isso, ou seja, sem que esse fosse um objetivo literário. Isso me alegra. Gosto de descobrir no meu trabalho a manifestação inconsciente de um protagonismo feminino, no sentido da mirada que ele dá para o mundo, para as relações humanas. Se, por um lado, eu não diria que o Entre as mãos é um livro de militância, por outro lado não abro mão de firmá-lo como um livro escrito por uma mulher que vive e experimenta o mundo a partir de um corpo e um trânsito específico de ideias e circunstâncias. Esse é certamente um dos valores humanos trabalhados pelo livro.

Apesar de haver na narrativa algumas expressões de brutalidade na vida dessa mulher — às vezes nos gestos da violência, às vezes nos vazios dos abandonos —, acredito que Entre as mãos seja, sobretudo, um livro sobre a sobrevivência. Não no sentido do heroísmo, longe disso, mas da sobrevivência modesta e muito persistente na vida de uma mulher comum, trabalhadora encarnada no contemporâneo de uma cidade ordinária.

No caso dela, essa sobrevivência passa pelo corpo, sim, mas vai muito além dele. Passa, por exemplo, pela capacidade de amar. Para Magdalena, a capacidade de amar que se confirma na figura das tias é um método de travessia, uma fortaleza. Essa capacidade reconfigura o passado familiar e atinge também o momento que precede o acidente: se torna uma chave de trânsito dessa mulher em sua própria história.

E chamo de capacidade de amar, e não de amor em si, porque no caso desse núcleo feminino trata-se muito mais de um empenho, de uma abertura para o amor, do que de um logro definitivo — e utópico. A capacidade se refere a uma insistência essencial, latente, de que a iminência do amor familiar e afetivo seja a poderosa manifestação que nos mantém vivos, esperançosos, presentes.

Quem abre o romance é uma voz masculina, que domina toda a primeira parte. Pouco a pouco, porém, uma voz feminina – a de Magdalena – vai se infiltrando, até ganhar centralidade. Entre as mãos fala, também, de autoria e de apagamentos, de vozerio e de silêncios. Não à toa, é uma obra tramada a partir da ideia de fragmentos, trechos, pedaços, versões. São estratégias para encarar o contemporâneo, tão brutal quanto fugidio? 

Sim, os silêncios. A dinâmica entre as três partes do livro respeita bastante o não dito, o suspenso, o imponderável. Me interessa muito pensar a questão da voz na ficção, especialmente em contextos em que ter uma voz envolve dar voz a terceiros. Magdalena dá voz a terceiros de maneira particular, a partir da proposição central do livro que é a ficção como um trabalho manual. Nesse caso, a ficção enquanto trabalho manual leva em si as marcas, os vestígios do seu próprio fazer. Gosto de pensar nessas marcas não no sentido do que é único ou exclusivo, mas sim no sentido do que é humilde, comedido, que se infiltra no universal a partir de um encontro de particularidades. Essa falta de afirmações definitivas, de modelos e conclusões talvez seja um diálogo com o nosso tempo, com a difícil captura do que nos distingue e singulariza. No caso de Magdalena, a premissa para encarar as múltiplas travessias demandadas é acolher o imponderável, o misterioso como linguagem que revela sentidos. O real e o simbólico se imbricam um no outro, indistinguíveis. Tudo aquilo que permanece indefinido ou inominado não representa vazio, mas sim substância por meio da qual é possível olhar o mundo e para as relações de maneira menos contida. Deixar vazar: e no transbordamento, no que excede a margem, encontrar algo para si.

Este é seu primeiro livro publicado, mas sua relação com a escrita decerto vem de longe. Quem é a autora Juliana Leite?

Minha relação com a escrita de maneira mais intensiva vem de 5 anos para cá, é algo muito jovem. Antes disso eu era uma escritora diletante, e por isso nem conseguia chamar a mim mesma de escritora, no sentido do ofício de alguém que escreve. A escrita do Entre as mãos representa, assim, não apenas a construção de um livro, mas o meu processo pessoal de criar condições técnicas e subjetivas — especialmente as subjetivas — para me tornar uma escritora. Escrever é a atividade na qual sinto mobilizada a minha força vital, a minha maior intensidade como ser humano, como trabalhadora, mulher. É o meu ofício, sim, mas é antes de tudo o meu modo de existência.

No mais, ainda não sei quem sou eu (risos). Continuo em busca.

Você passou quatro anos escrevendo Entre as mãos. Quais foram os maiores desafios e surpresas desse processo?   

Não tenho dúvidas de que o maior desafio foi encontrar e mobilizar as questões humanas que eu queria abordar. Não foi fácil, por exemplo, descobrir que a sobrevivência era a questão central do livro, e então criar condições para um mergulho absoluto no que significaria a sobrevivência dessa mulher. Em vários momentos desses quatro anos precisei fazer pausas, parar para respirar e recuperar forças. A convivência intensa com Magdalena me colocou em contato com questões muito fortes, e que talvez não viessem à superfície não fosse o processo de alteridade da ficção.

A questão do texto como trabalho manual, no entanto, surgiu de forma bastante inesperada. Venho de uma família em que as mãos são tanto a sobrevivência, quanto um modo de olhar o mundo. Cresci rodeada pelo trabalho firme e alegre de costureiras, bordadeiras, manicures, lavadeiras, ferramenteiros, carpinteiros, pintores, agricultores, donas de casa. Minha ancestralidade tem sua origem e seu desdobramento em trabalhos manuais. Apesar de essa linguagem estar inscrita de maneira incontornável em todas as minhas células, foi uma surpresa descobrir que ela regeria também meus gestos para a criação literária. Foi bonito ver isso acontecendo e perceber que, na verdade, eu fazia com a escrita uma reverência a esse fabuloso conhecimento, à sabedoria das mãos.

A publicação de seu romance se tornou possível por ter vencido o Prêmio Sesc, talvez o principal reconhecimento para autores estreantes no país. Como é ser uma jovem escritora no Brasil, hoje?

O Prêmio Sesc é um acontecimento incrível para a literatura brasileira. Muitos contemporâneos que admiro e acompanho foram revelados pelo prêmio, que tem um compromisso heroico de apostar somente em escritores inéditos. Não apenas a publicação do livro acontece a partir do prêmio, como também um inestimável circuito de um ano em que o autor, junto à obra premiada, percorre boa parte do Brasil participando de feiras e eventos literários. É uma oportunidade singular para quem está começando, um modelo de premiação realmente ímpar.

Ainda assim, ser uma jovem escritora hoje é conviver com o paradoxo: ter plena certeza de que a arte e o simbólico são indispensáveis para enfrentar os dias — na barbárie e para além dela —, e dentro disso ter de lidar com a extrema insegurança profissional, com a total falta de garantias de que o seu trabalho se firmará como seu ofício. Se por um lado tenho certeza de que o que me torna escritora é a dedicação à escrita em si, por outro percebo que a publicação é uma etapa fundamental do processo, principalmente por criar as condições de diálogo com leitores, com o mundo. Se a crise do mercado editorial já é dura o suficiente para colocar em dúvida o futuro de escritores estreantes como eu, o cenário fica ainda mais cruel e nebuloso quando os artistas e a cultura entram na linha de descarte de governos bestiais, afeitos à ignorância como ferramenta de manipulação.

Ainda estamos por descobrir como será possível a resistência artística, a mirada estética para os nossos tempos. Oxalá nesse processo teremos uns aos outros, sem perder a fé de que a subjetividade, mais do que o medo e a revolta, é a arma mais potente.

Entre as mãos traz, ainda, certa crítica social, ao retratar, por exemplo, os apuros financeiros de seus protagonistas. Ou a hostilidade dos sistemas de serviços das grandes cidades. A prosa brasileira tem sido eficaz em apreender as angústias e o desamparo de quem vive no país? 

Um dos desejos que surgiram ao longo da escrita do Entre as mãos foi de colocar no cotidiano todas as questões subjetivas dessa mulher, no dia a dia de um corpo em trânsito pela cidade. O peso do real é importante para o livro, toda a narrativa se ancora nessa intensa realidade. É um livro feito de esquinas de rua, escadas de ônibus, legumes na gaveta da geladeira. Um livro que engraxa o sapato, que sente cheiro de fruta estragando na fruteira, que senta para olhar passarinho tomando banho. Isso não tem nada a ver com uma interiorização da coisa, mas sim com uma humildade diante da vida mesmo, da circunstância de lidar com poucos recursos e precisar tirar sentido das coisas mais prosaicas.

É na troca de curativos de uma queimadura que Magdalena se depara com seus relevos íntimos. Toda a narrativa se constrói a partir da relação efetiva de um corpo com a cidade, com a casa, com os objetos. É a literatura da vida comum, cotidiana, a que me interessa muito. Especialmente quando esse cotidiano se deixa invadir, como já mencionei, pelo imponderável, por tudo aquilo com que precisamos conviver sem nunca elucidar, dar nome, pacificar.

É verdade que você já está escrevendo um novo romance?

Sim, já estamos, eu e ele, embrenhados numa descoberta mútua. Estamos no primeiro ano do processo, então a fase é de criar tempo e espaço para que as questões se manifestem. Consigo vislumbrar que a sobrevivência da vida comum continua presente, assim como o protagonismo feminino. Porém, dessa vez, tendo a amoralidade dos desejos sexuais e afetivos como órbita central.

Agora que sei que escrever é para mim uma afirmação de vida, uma linguagem para me colocar no mundo, creio que estarei sempre, pelo resto dos meus dias, escrevendo.

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