Entrevistas

“Eu sou eles”, de Francisco Azevedo

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Por Juliana Krapp

“Eu sou eles” vem a lume com o subtítulo de “fragmentos”. Suas páginas apresentam poemas, pensatas, reflexões, narrativas curtíssimas, memórias. Como foi o trabalho de reunir e selecionar esses fragmentos?

Pode parecer engraçado, mas “Eu sou eles” nasceu da iniciativa de um leitor, que divulgou pela internet um trecho do primeiro capítulo do romance “O arroz de Palma”. Com o título “Família é prato difícil de preparar”, o texto passou a circular pelas redes sociais e viralizou. A partir de então, com o crescente boca a boca, outros trechos do livro começaram a ser divulgados por incontáveis blogs literários. Estimulado por essas postagens, comecei a reler meus roteiros e peças teatrais, e me dei conta de que, não só nos romances como também no teatro e no cinema, havia passagens que tinham vida própria fora do contexto onde foram inseridas, passagens que traduziam perfeitamente meus pensamentos. A ideia ganhou forma em certa madrugada, com os personagens me insuflando que suas falas eram minhas próprias falas, argumentando que eu era eles e eles eram eu – daí, surgiu o título.  Desde o início, eu sabia que precisaria de muito cuidado e paciência para reunir, selecionar e adaptar todos esses textos, mas o desafio me apetecia. Com as bênçãos de minha agente literária, Luciana Villas-Boas, levei o projeto adiante. A Record bateu o martelo e aí está o livro! Bom esclarecer que não se trata de uma antologia. Em “Eu sou eles”, transmudo os gêneros, assumo o papel de meus personagens e os incorporo. Há, inclusive, falas e textos inéditos, que poderão constar até de algum futuro romance. E também poemas revisitados ou reescritos. Todos esses fragmentos foram separados em seis capítulos que tratam de diferentes temas.

Livros de fragmentos não são muito frequentes no panorama literário nacional. Quais obras deste tipo o marcaram? Quais características dessa escolha estética o agradam?

Sinceramente, não conheço obra alguma deste tipo. Como afirmei na resposta anterior, “Eu sou eles” não é uma antologia. Se formos ao dicionário, veremos que, antes de “trecho extraído de uma obra”, “fragmentos” significa “pedaço de coisa que se quebrou”. E foi exatamente isto que eu fiz com meus escritos. Desconstruí tudo o que havia produzido, para então, com as peças soltas e embaralhadas, montar o quebra-cabeça, formando um todo que me revelasse e desse sentido. De algum modo, no capítulo de abertura do livro, eu explico como aconteceu este processo criativo. Por fim, no caso específico de “Eu sou eles”, o que mais me agrada esteticamente é eu ter transformado as vozes dos personagens em minha própria voz, tendo de transmudar gêneros literários. Foi uma experiência bastante prazerosa e, muitas vezes, surpreendente.

 Você já disse algumas vezes que os personagens vão a seu encontro e retornam diversas vezes, criando uma relação intensa e longeva. Uma relação que extrapola as páginas dos livros. Como é sua convivência com seus personagens?

 Sempre que começo um romance, crio laços de cumplicidade e de afeto com meus personagens. A meu ver – e já repeti isto várias vezes – o escritor nada mais é que o traço de união entre o leitor e esses seres imateriais que habitam universos paralelos. Como escritor, apenas permito a esses seres ganharem corpo e atuarem no plano real. Sempre tenho a impressão de que não sou criador de coisa alguma, mas o primeiro leitor-ouvinte das histórias que me vão sendo contadas por eles. Nunca os vejo como marionetes. Eles são independentes, têm vontade própria, agem de acordo com suas personalidades, temperamentos, o seu caráter. Contribuo, é claro, com meus conhecimentos da língua portuguesa, com as técnicas do ofício de escritor e pronto. Não me vejo menor por isso. Se é assim que acontece o processo criativo, fazer o quê? O resto é mistério, suposição. Não me aventuro em entender. Pura perda de tempo.

 Há personagens prediletos – ou mais assíduos – nessa convivência? Quais aqueles que você considera mais bem elaborados?

Não importa o grau de participação que tenham na história, o amor é igual para todos, porque não abro mão de nenhum. São minha família. Há aqueles, é lógico, com os quais sinto mais afinidade, que me fazem boa companhia durante toda a trama. Outros me decepcionam, outros me causam sofrer, e por aí vai. Não lhes quero mal por isso – assim é a vida, com cada um desempenhando o seu papel.  Quando o romance é narrado em primeira pessoa – o Antonio, em “O arroz de Palma”, e a Gabriela, em “Doce Gabito”, por exemplo – o personagem narrador está sempre presente, sendo, portanto, o mais assíduo no romance. Mas isso não impede meu vínculo com os demais personagens, que nesta ou naquela cena ganham evidência e destaque. Quando a história é narrada na terceira pessoa, como em “Os novos moradores”, já há um certo distanciamento, fica mais fácil lidar com a emoção. Mas sempre haverá envolvimento com os personagens. Terei também aqueles com os quais me identifico, e que nem sempre são os mais importantes na trama. Normalmente, os mais elaborados são os que causam tensão à narrativa, os que geram conflitos. São os que me dão mais trabalho, por me obrigarem a prestar atenção redobrada ao que fazem e ao que me dizem.

 Não deve ser fácil viver em meio ao vozerio, ao falatório, à busca por atenção dos tipos diversos. Ao mesmo tempo, vivemos numa época em que o exercício de escuta é um desafio. O que a ficção teria a ensinar à realidade contemporânea?

 Sempre que falamos, repetimos algo que já sabemos. Já quando ouvimos, estamos abertos para a possibilidade de aprendermos algo novo. Algo que poderá nos questionar, nos aprimorar, nos aguçar a curiosidade… O que me intriga é o não saber de onde vêm as falas de meus personagens, uma vez que também aprendo com eles. O falatório desses seres imateriais me fascina e assombra. Que vozerio é esse que me leva a escrever automaticamente cenas e diálogos como se a história me estivesse sendo ditada? Às vezes, chego a ficar constrangido, como se alguém, por debaixo da mesa, me estivesse passando cola em prova que me testa o talento. Fazer o quê? É o tal mistério que não me aventuro em entender –caprichos da ficção. O que ela poderia ensinar à realidade contemporânea? Algo simples e essencial: o exercício de uma escuta que dá asas à imaginação, que abre horizontes, que estimula e instiga o pensamento. A ficção dá fôlego ao sonho que nos liberta.

 Você circula por diferentes gêneros literários, indo da poesia ao romance. E, além de livros, escreve filmes e peças teatrais. Como lida com esse trânsito entre os gêneros, no seu dia a dia?

 Ainda diplomata, publiquei “Contra os moinhos de vento”, meu primeiro livro de poesias e crônicas poéticas. Logo que saí da carreira, lancei o segundo livro, “A casa dos arcos”, também de poesias e pequenas crônicas. Como autônomo, comecei a ganhar a vida escrevendo roteiros para vídeos institucionais, comerciais de tv e produtos multimídia. Só depois, passei a escrever roteiros cinematográficos e peças teatrais – experiências que me deram disciplina e fôlego para ousar o primeiro romance. A poesia sempre esteve presente em todos os meus trabalhos. Mesmo nos documentários mais áridos, eu sempre encontrava um meio de temperá-los com algum lirismo. O estilo deu certo, caiu no gosto de todos, passou a ser minha marca registrada – e foi assim que fiz nome, fui reconhecido, ganhei mais e mais clientes. Hoje, confesso, escrever romances é o que me felicita e realiza. Neles, tudo corre livremente. Sou eu, meus personagens e mais ninguém. Posso afirmar que, finalmente, encontrei meu caminho como escritor. Portanto, desde 2008, quando foi lançado “O arroz de Palma”, me mantenho fiel ao gênero, mesmo com os frequentes e afetuosos convites que recebo para voltar ao teatro e ao cinema. Aliás, “Eu sou eles” não deixa de ser uma forma de demonstrar gratidão a essas duas Artes, e de homenageá-las.

 “O nascimento de uma leitura é momento de esforço e expectativa – como todo nascimento”, diz um de seus fragmentos. Como você espera que seja o nascimento de “Eu sou eles” para seus leitores?

“Eu sou eles” me é muito especial, porque, como disse anteriormente, reúne trechos adaptados de todos os meus romances, poemas, crônicas, peças de teatro e roteiros cinematográficos. É como se, em um estalar de dedos, eu repassasse minha história desde a juventude, quando perseverei nos primeiros escritos, até os dias de hoje. “Eu sou eles” não foi programado. É fruto da paixão, nasceu no susto, digamos assim. Das primeiras iniciativas de leitores, com a divulgação espontânea de vários textos nas redes sociais, à inesperada presença de meus personagens em meu quarto.  Da minha febril dedicação ao projeto à aprovação do conselho editorial da Record. Tudo parece ter conspirado a favor do livro desde sua concepção. Torço para que meus leitores vejam este nascimento com bons olhos, porque é momento de esforço e expectativa, sim. É choro de ar que chega aos pulmões pela primeira vez. Que seja vida, portanto. Que inspire o que é bom, belo e verdadeiro, é o que espero.

Quais seus projetos atuais? Algum livro novo à vista?

Continuar e concluir “A roupa do corpo”, meu próximo romance, que já está bastante adiantado e que deverá ser lançado no início de 2020. Nele, além de personagens inéditos, com seus dramas e questões, estarão reunidas as novas gerações dos três romances anteriores – “O arroz de Palma”, “Doce Gabito” e “Os novos moradores”. Me alegra demais ver que, de repente, por força do destino ou do acaso, essa turma mais jovem se encontra, cruza suas histórias e experiências. Vida que segue.

 

 

 

 

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