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“Precisamos mais do que nunca de muita poesia”

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Depois do sucesso do ensaio “Como conversar com um fascista”, a escritora Marcia Tiburi volta a tratar do tema num romance. Em “Sob os pés, meu corpo inteiro”, Marcia conta a história de Lúcia, que subitamente se vê atordoada pelo seu próprio passado, numa cidade pintada de cinza, refém de tiroteios constantes. Para completar o cenário catastrófico, a população se vê nas mãos de um governador enfermo para contornar a crise de abastecimento de água. A protagonista, que revela a condição banal da vida, uma mulher carente de desejo, é inspirada em pessoas que Marcia conheceu ao longo da vida. Entregue à editora no início de 2018, o romance acabou incrementado com elementos políticos atuais que conferem o aspecto distópico à realidade. Portanto, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

“Meus ensaios dos últimos anos têm me inspirado muito a escrever ficção. Nesse momento, preparo um ensaio sobre o poder que deve ser lançado em breve e creio que alguns aspectos centrais desse romance vão estar ali trabalhados de um exaustivo ponto de vista teórico. Há algo na ficção que não se consegue transmitir em um ensaio”, compara Marcia.

Neste trânsito constante entre os dois gêneros literários, Marcia se recorda da escritora francesa Simone de Beauvoir, que escreveu tanto ficção quanto reflexões teóricas. A autora aponta ainda a influência de Gustave Flaubert ao analisar o protagonismo feminino em suas tramas. Para Marcia, “Madame Bovary” é feminista ao exaltar a centralidade da mulher, que sofre na mão de homens estúpidos.

Em “Sob os pés, meu corpo inteiro”, perseguição, mistério e drama familiar permeiam a narrativa que se desenrola entre o passado descortinado e o hoje em penumbra de amores, afetos e ideais. Seu novo romance, acrescenta Marcia, pode contribuir para compreender a realidade. “Temos que continuar a propor a crítica e a desconstrução enquanto houver tempo. A literatura é fundamental nessa hora. As pessoas precisam fazer muita poesia. Precisamos mais do que nunca de muita poesia, muita arte”, conclama.

Lúcia é um personagem que cresce ao logo da narrativa, se torna ambígua e de certa forma desconcertante para quem lê. Não é claramente uma heroína, não se sabe se o que ela sente é angústia ou inércia. A ansiedade por saber quem será verdadeiramente Lúcia está em cada página. Como foi a construção dessa personagem para você?

 É realmente difícil explicar de onde vem uma personagem. Quem é Lúcia para mim? Lúcia é um nome que me vem há tempos a cada vez que crio uma personagem. Em um primeiro momento, essa imagem das duas irmãs, ou essa mulher dupla, sempre está presente nos meus romances. Já aparecia naqueles romances bastante experimentais que publiquei entre 2005 e 2009. É uma imagem que faz parte do meu acervo imaginário de impressões pessoais (talvez aquilo que a filósofa e psicanalista Julia Kristeva chama de khôra). Em “Era meu esse rosto” (2012) ela está lá na cena do nascimento das irmãs gêmeas que é a história que meu avô me contava sobre o nascimento de suas filhas, sendo que apenas uma sobreviveu. Conscientemente, no entanto, eu queria trabalhar com uma figura que pudesse nos revelar a condição banal da vida. Queria colocar em cena um tipo de subjetividade que sempre me estarreceu, essa da pessoa humana que vive como que carente de desejo. O estranhamento vem porque, sem que fique explícito no texto, podemos ver que ela é uma espécie de vítima da história familiar e política. Lúcia deveria ser uma pessoa banal, mas ninguém é banal, nenhuma história pessoal é banal, e muito menos se analisada à luz da história. Para escrever sobre Lúcia, eu me inspirei em muitas mulheres que conheço. E coloquei nela uma pitada de vingança por todas elas. Ah, um detalhe. Enquanto eu escrevia essa história, ao mesmo tempo, eu escrevia e ilustrava outra envolvendo duas irmãs. Naquela história, a protagonista também se chama Lúcia. Não sei se um dia vou publicar porque é um romance todo desenhado.

Depois de mais de 25 obras, entre elas cinco romances, “Sob os pés, meu corpo inteiro” interpõe-se a uma realidade política repressora como pano de fundo e, diria, como plano principal das personagens apresentadas. Isso dá um tom pessimista para uma possível realidade do mundo atual? Como está seu entusiasmo com a política brasileira depois de concorrer ao Governo do Estado do Rio de Janeiro?

 Eu entreguei esse livro à editora muito antes de pensar em ser candidata. Foi no começo do ano. E planejávamos lançá-lo em junho. Mas tudo mudou por conta da campanha. Os elementos relacionados à política atual dão a parte de realidade e a parte de distopia do romance. Não há palavra melhor para resumir o nosso momento social e político. As eleições foram vencidas por um candidato que, do ponto de vista do seu discurso, é um fascista.  Podemos ser otimistas em relação ao desejo de lutar, mas não em relação às condições dadas para a luta. A promessa é de que sejamos todos assassinados. Há, no começo do livro, a colocação dessa questão logo nas primeiras cenas. Há balas perdidas para todos. Lembra dessa parte? Precisamos estar sempre atentos ao inconsciente literário que nos revela verdades incríveis sobre a vida.

Seu romance aborda um mundo no qual a cidade está sob o comando de um psicopata que pinta de cinza as paredes da cidade. O país sofreu um golpe de Estado, o Governador está com uma doença terminal. A personagem principal vive, entre outros dramas pessoais, a tortura pela ditadura militar e o desaparecimento de pessoas próximas na mesma época.  O mundo é distópico, mas acredito que não seja coincidência que possamos relacionar com a nossa realidade brasileira. Por que optou por trazer essas realidades à tona em forma de romance e não um ensaio teórico?

Algumas das cenas são inspiradas nos atos de João Dória, quando prefeito de São Paulo. Mas há mais que isso. Se você for procurar o endereço dos personagens, verá que alguns pertencem à certas figuras reais. Seja a doença do governador, a falta de água na cidade, os tiroteios, os lugares abandonados, a tortura, tudo isso é inspirado na realidade. A doença dos políticos é uma metáfora. Dei a esses dados da realidade o estatuto de ficção, não é mesmo coincidência, mas tem muita imagem e figura de linguagem feitas para pensar. Meus ensaios dos últimos anos têm me inspirado muito a escrever ficção. Nesse momento, preparo um ensaio sobre o poder que deve ser lançado em breve e creio que alguns aspectos centrais desse romance vão estar ali trabalhados de um exaustivo ponto de vista teórico. Há algo na ficção que não se consegue transmitir em um ensaio. Aqui eu lembro de Simone de Beauvoir, cujos romances transmitem aspectos conceituais que não estão em seus ensaios.

Algumas características das personagens apresentadas carregam um histórico que lembra, em certos momentos, o seu. Teria esse romance alguns traços autobiográficos?

Fico curiosa em saber quais, por que eu não vejo semelhanças biográficas. Há características minha em Lúcia, em Betina, mas são características muito comuns em mulheres. A única coisa que eu trago da minha própria história vivida é a necessidade de falar de uma cidade pequena em um lugar muito frio. Escolhi Bom Jesus na serra gaúcha, ao lado da cidade onde eu nasci. Esse frio faz parte dos meus últimos romances, para mim não pode ser esquecido, porque pessoalmente eu o trago comigo. Creio que esse clima vai se repetir também nos próximos, pois ele diz muito do nosso tempo.

“Sob os pés, meu corpo inteiro” traz uma narrativa pausada, com cenas marcantes sob o olhar de Lúcia em sua infância, adolescência, suas lembranças e reflexões. E assim nasce na história Adriana, sua irmã, que em muitos momentos mais se parece com seu alter ego. Essa foi sua intenção? Trazer essa outra faceta de Lúcia através dessa irmã desaparecida na ditadura militar?

 Talvez seja um alter ego, sim. Mas me encanta a imagem do duplo. Do fantasma. Por isso, Cacilda Becker presente na trama como um fantasma. Por isso, a atuação de Lúcia, a sua mentira que poderia ser verdade. A imagem da pessoa idealizada em oposição à pessoa real faz sentido, da irmã heroína que morreu e da irmã que sobrevive por ser real. Essa confusão entre as duas, o fato de Lúcia carregar o nome que era destinado à irmã caso ela tivesse conseguido fugir do Brasil, o fato de ela se saber preterida, fosse pelos colegas, fosse pela família, isso eu queria mesmo trabalhar. Esse sentimento, esse ressentimento da narradora.

Betina se apresenta como uma consequência, uma parte de Lúcia e o estopim de memórias esquecidas causadas pela dor da tortura. Ela começa como uma pessoa comum e ao longo da história se torna alguém tão misterioso quanto a própria história de Lúcia. Qual foi a intenção ao costurar a narrativa de Lúcia com essa personagem?

Nesse caso, o meu desejo era desenhar personagens que não fossem dedutíveis.  Quando criamos personagens revelamos o que está no ar, apontamos para o que não está sendo percebido. Eu queria falar do caráter imponderável da subjetividade. Queria mostrar essas mulheres que não são nada óbvias. Queria que elas não fossem meros estereótipos.

Em seu romance as principais personagens são mulheres. As irmãs e sua mãe são protagonistas de suas próprias histórias. Isso é propositalmente feminista?

Sim. Isso foi de propósito. Mas em que sentido? Você lembra dos homens de Madame Bovary? O pai, o marido, os amantes? Madame Bovary é um romance feminista no sentido de colocar no centro uma mulher e se mostrar como ela é vítima de homens estúpidos. Lembrei sempre de Madame Bovary enquanto escrevia. Os seus homens também são figuras que nos causam sentimentos de repulsa.

Em seu último livro “Como conversar com fascista”, você já traça muito do que estamos vivendo hoje, durante as eleições para presidência no Brasil. Você chama de “momento perverso” esse crescimento de atitudes autoritárias e alerta para o risco da não-conversa entre as pessoas e até mesmo para este momento de impasse e violência. Você ainda acha que a sociedade se tornou incapaz de debater diferenças de formas civilizadas, com respeito pelas atitudes do outro?

Em um romance publicado em 2016, chamado “Uma fuga perfeita é sem volta”, eu trabalhei com esse caráter de incomunicabilidade da vida. Havia um nexo relativamente direto entre esse romance e o ensaio que você cita. Um ensaio que está cada vez mais atual, infelizmente. As pessoas ainda têm esperança de contornar o fascismo doméstico e cotidiano sobre o qual o livro trata. Mas em um ensaio de 2017, chamado “Ridículo político”, eu trato do perigo de um padrão estético que se torna razão social e razão de estado. Nesse livro, eu falo da ascensão do discurso de ódio e da capitalização do ridículo pelos políticos. A minha tese é que vivemos uma mutação da cultura política pela qual o que era abjeto tornou-se moda. Citei alguns dos políticos do momento: Michel Temer, João Dória e o atual presidente. Todos expoentes do que chamei de Ridículo político, um padrão estético básico usado por muitos personagens para crescer em termos de votos e poder.

E, por fim, ainda sobre o momento atual, qual seria seu conselho como professora de filosofia para que a reflexão seja fomentada? O que Lúcia e Betina podem nos incentivar ou até ensinar?

Veja, estamos em um momento muito grave. O que chamamos de fascismo depende do vazio do pensamento, exatamente o que estamos vivendo hoje e cada vez com mais força. Agora chegamos a um nível perigoso, porque, pelo meio democrático do voto, a maioria política (não populacional) elegeu um candidato que propõe o extermínio dos opositores e de todos os que discordem de seu governo. A proposta foi essa, porque não havia um programa de governo que prometesse alguma coisa de bom. Então o candidato fez péssimas propostas relacionadas ao campo econômico, dos direitos trabalhistas e direitos em geral, da previdência e, na onda da destruição e do ódio, prometeu eliminar os “inimigos”. Ou as pessoas estão tomadas de um delírio ou são perversas. Parecem valorizar mais o ódio do que a si mesmas, pois escolheram contra suas próprias vidas. Como fazer agora? O fascismo não vai desaparecer sozinho. Temos que continuar a propor a crítica e a desconstrução enquanto houver tempo. A literatura é fundamental nessa hora. As pessoas precisam fazer muita poesia. Precisamos mais do que nunca de muita poesia, muita arte. Creio que vai ser muito difícil quebrar o vetor que direciona nossa sociedade nesse momento. Não estou sendo pessimista. Temos que ser otimistas na luta, mas conhecer as reais e absurdas condições nas quais lutaremos muda todo o sentido da nossa luta.

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