Entrevistas

“A arte e a literatura existem para lembrar, para manter viva a memória”

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Numa estância no interior do Brasil, Eva é uma menina muito inquieta que costuma brincar, às escondidas, com as cartas de tarô de sua avó. Um dia, o jogo lhe revela a face de um garoto que vive no outro lado do mundo. Jósik mora numa aldeia na Polônia, numa casa cheia de livros. Quando a Segunda Guerra eclode, a rotina do menino muda completamente. E a de Eva também. Agora, afinal, ela acompanha, por meio do tarô, as agruras da vida em meio à busca por sobrevivência.

Em O menino que comeu uma biblioteca, Leticia Wierzchowski — autora do best-seller A casa das sete mulheres, que a notabilizou ao redor do mundo — retoma alguns temas marcantes de seus livros anteriores: a vida em meio à guerra, a cumplicidade e a necessidade de inventar formas de resistência. Desta vez, porém, o tom é quase de fábula. E a trama, inspirada numa história verídica, que se manteve viva ao ser contada de geração em geração, na família da própria Leticia. “Tenho cartas escritas em papel de pão, datadas de 1945, que atravessaram o oceano para vir aqui dar conta do horror da guerra e do Holocausto. A arte e a literatura existem para lembrar, para manter viva a memória”, ressalta a autora, nesta entrevista.

Qual a gênese deste “O menino que comeu uma biblioteca”? Como surgiu a ideia inaugural que inspirou o livro?

Eu já estudei bastante a Segunda Guerra para escrever Uma Ponte para Terebin, romance que lancei pela Record em 2006 e que conta a história do meu avô polonês. Essa nova obra traz essa expertise, mas é quase uma fábula sobre o amor aos livros, sobre o poder empático da literatura. Meu avô, quando finalmente pôde rever seus parentes na Polônia, vários anos após o final da guerra (na qual ele lutou com os aliados, e por isso não pôde retornar ao término da disputa, correndo o risco de ir para um gulag, pois a Polônia já era território soviético), bem, meu avô voltou contando algumas histórias… Muitos dos seus parentes e amigos tinham morrido na guerra, mas um dos que sobreviveram era um amigo que vendeu a biblioteca do avô para comer, exatamente como fez meu personagem Jósik. Daí, nasceu a semente deste livro. Mas também de uma paixão que tenho pelo tarô e suas belas metáforas.

Seu novo livro aborda a experiência de um menino na Polônia invadida pelos nazistas. O horror da guerra sempre esteve muito presente sua ficção. Mas você procura olhar para muito além desse horror. O que é mais desafiante nesse exercício?

Eu já abordei a Revolução Farroupilha, a Guerra do Paraguai e a Segunda Guerra em romances. Acho um terreno fértil para histórias e personagens, mas também para um novo olhar, uma ressignificação… A literatura consiste também em achar um novo ponto de vista para uma coisa mil vezes observada. Mudando o olhar, muda-se a coisa em si – e com a guerra é igual. Aqui, eu queria mesmo era abordar os espaços de encontro humano, mesmo em meio a algo tão avassalador quanto a guerra, quanto a Segunda Guerra. Minha família sofreu isso na pele, muitos morreram lá. Mas busco também o avesso da morte, a vida que pode nascer disso, e sempre nasce.

Vidas entrelaçadas são outro traço marcante em sua ficção. O que mais lhe atrai no elo entre Eva e Jósik?

Um romance consiste no entrelaçamento de vidas, como se cada personagem fosse um fio, e o livro fosse uma grande malha. Jósik e Eva nasceram também da história de um hotel muito conhecido no balneário de Punta del Este. Estudei este hotel há algum tempo para uma matéria turística, e descobri que ele nasceu e floresceu na guerra, quando era muito perigoso ir para a Europa por causa dos submarinos alemães, e então o turismo uruguaio pôde se desenvolver. Este hotel nasceu do encontro de uma jovem belga e de um sobrevivente de campo de concentração nazista. Eu distorço os fatos um pouco aqui e ali, mas isso também ajuda a compor o livro – e a costurar o encontro de Jósik e Eva. Pois muitos casais, muitas famílias nasceram desse grande movimento humano do pós-guerra, quando a América abriu os braços para milhares de sobreviventes Europeus. Eu criei para estes dois personagens um laço mágico, que somente ao final do livro se esclarece de fato.

No Brasil contemporâneo, tem surgido uma onda forte de negacionismo do Holocausto. Você acredita que a ficção pode ajudar a fortalecer o poder e a relevância da História? Qual o papel da arte literária no enfrentamento de versões falsas sobre fatos históricos?

Mais da metade da minha família morreu na guerra, em campos, em assassinatos, presos por estarem vinculados à resistência polonesa. Foram torturados e mortos. Eu tenho cartas contando isso, tenho cartas escritas em papel de pão, datadas de 1945, que atravessaram o oceano para vir aqui dar conta do horror da guerra e do Holocausto. A arte e a literatura existem para lembrar, para manter viva a memória. A literatura ergue um mundo diante do seu leitor, um mundo que pode nascer da imaginação ou das cinzas pulsantes do passado. Eu poderia não estar aqui. Mas estou e conto aquilo que sei, aquilo que me contaram, aquilo que li, testemunhos de quem viveu aquela guerra. A ficção dá vida à História.

Dizem que Caio Fernando Abreu costumava tirar o tarô para definir o rumo dos personagens em suas histórias. Neste seu novo romance, a arte de ler as cartas é peça-chave para a trama. Qual sua relação com o tarô?

Eu sou uma curiosa do tarô, tenho vários deles aqui. São cartas de uma beleza muito grande, cheias de metáforas. Sempre quis usá-las na minha ficção. Uso o tarô para mim, para as minhas dúvidas pessoais. Ele nos conecta com a nossa intuição.

 O que “O menino que comeu uma biblioteca” representa, para você, em sua trajetória literária?

Para mim, representa um maravilhoso retorno à fábula, à fantasia. Pois o pano de fundo do livro é a guerra, mas é um livro feliz. Nele, eu me sinto uma espécie de Sherazade contando uma história ao sultão, sabendo que ele vai querer ouvir mais no outro dia. Nele, eu recuperei uma liberdade narrativa, mesmo que usando fatos históricos e documentos, que fazia tempo eu não exercitava. É também a minha declaração de amor aos livros, à ficção.

 Você é uma autora tremendamente produtiva, com inúmeros romances e obras infanto-juvenis publicadas, e atua também como roteirista. O que ainda gostaria de fazer em sua carreira? Qual pedaço falta à concretização de seu projeto como escritora?

Eu realmente escrevo bastante, produzo muito em várias instâncias. Tenho dois sonhos: fazer uma série de televisão, que pode ser em um canal aberto ou fechado. E, um dia, poder viver apenas e muito confortavelmente dos meus direitos autorais – sempre escrevendo, é claro. Escrever me mantém viva e livre. A ficção abre os grilhões que me prendem à realidade. Como disse Clarisse Lispector: “minha liberdade é escrever, a palavra é o meu domínio sobre o mundo.”

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