Entrevistas

“Assim como nunca existirá uma pessoa como meu pai, nunca haverá um livro como Pescar Truta na América”

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A Editora José Olympio está lançando uma nova edição do livro “Pescar Truta na América”, de Richard Brautigan, que completaria 84 anos neste 30 de janeiro. Um dos ídolos do autor Murakami e expoente da geração beat, Brautigan teve uma vida tão incomum que seria digna de uma das ficções escritas por ele. Nos seus vinte e poucos anos, recebeu diagnóstico de esquizofrenia e depressão. Era visto como excêntrico por todos que o cercavam. Nesta entrevista, Ianthe Brautigan revela um outro lado do escritor:  um pai amoroso e brincalhão e um profissional extremamente disciplinado.

Quando você começou a ler os livros do seu pai? Era difícil de entender?

Quando eu tinha seis anos, eu decorei o poema “Love Poem”. É um poema estranho para uma criança de seis anos memorizar e meu pai adorou. Dois anos depois, os amigos dele e eu declamamos o poema no álbum “Listening to Richard Brautigan”. Depois, eu me apaixonei pelo poema “Revenge of the Lawn” e só fui ler  “Pescar Truta na América” quando já estava na universidade. Agora, é um dos meus favoritos. Eu releio de tempos em tempos.

ianthe com paiDepois do divórcio dos seus pais, você viveu com ele. Como era a relação de vocês?

Antes dos meus pais se separarem, meu pai já cuidava de mim. Minha mãe trabalhava fora o dia inteiro como secretária e meu pai tinha um emprego de meio período num laboratório. A separação foi traumática para mim e para ele. Eu só fui morar sozinha com ele na adolescência, mas a gente passou muito tempo junto na minha infância. Eu ia para São Francisco, para Bolinas. Viajava para qualquer lugar que ele estivesse para passar fins de semana e feriados com ele. Ele não era muito fã de baby-sitters, então, me levava junto quando encontrava os amigos e aí eu passava a maior parte do tempo ouvindo escritores e artistas, como Bruce Connor. Eram longos almoços e jantares. Sempre fascinantes. E aí quando ficava muito tarde (e geralmente ficava), eu me encolhia numa cadeira e dormia ouvindo a melodia das vozes. Eles amavam rir e eram ótimos contadores de histórias, então, eu raramente ficava entediada. Tem partes do livro “Pescar Truta na América” que refletem esse bom-humor. Depois da morte dele, um de seus amigos, Ron Lownisoh (“Pescar Truta” também é dedicado a ele) leu trechos do livro em um evento sério e não conseguia parar de rir.

Meu pai era brincalhão e fazia danças esquisitas para mim. Fazer apostas era nossa brincadeira favorita e o resultado era pra ver se ele ia assistir basquete na TV ou se eu ia assistir ao programa The Brady Brunch. Como artista, ele era extremamente focado e isso sempre vinha primeiro. Ele era especialista em contratos e era muito cuidadoso com todos os detalhes sobre a publicação dos livros dele. Ele também bebia muito, o que se tornou um problema mais tarde. Apesar disso, eu sabia que ele me amava muito. E eu venerava ele, e ainda venero. Hoje é seu aniversário, então, fico pensando muito sobre ele e a força desse amor permanece.

Em “Pescar Truta na América”, Brautigan menciona uma viagem de campo a Idaho no verão de1961. Você era muito pequena mas você tem alguma lembrança desses dias?

Nenhuma. Mas tem fotos minhas brincando com um peixinho nessa viagem. Eu adorava observar os peixes.

Muitas pessoas chamavam seu pai de excêntrico, mas como você, que era tão próxima, o descreveria?

Ele realmente era uma pessoa incomum. Por exemplo, não dirigia, não tinha cartões de crédito, carteira, nem mesmo um relógio. Ele pediu para colocarem um interruptor no telefone para desligá-lo. O dinheiro dele vivia amassado no bolso. Estar com ele era mágico porque ele tinha umas ideias de coisas para fazer que nunca eram normais e a maneira como ele usava o tempo era fascinante. Ele aproveitava o momento como uma criança e um adolescente. Bastava eu contar com a atenção dele para me sentir completa. Como pai, ele me fazia sentir que o que eu tinha para dizer era importante e eu passei isso adiante e fiz o mesmo com minha filha. Como escritor, ele era muito disciplinado. Ele também sofria de uma insônia severa e checava repetidas vezes se o fogão estava desligado e se a porta estava fechada.

Como foi a experiência de voltar ao passado e encarar suas memórias para escrever o livro? Isso te ajudou a lidar com a morte dele?  12572

Sim. Eu fui capaz de juntar o pai mágico e invencível com o pai que não viveria mais. Eu sonhei com ele várias vezes durante esse processo e isso me encorajou. Escrever “You can’t catch death” me trouxe um fechamento, mas eu não tenho certeza se eu verdadeiramente direi adeus um dia. Ele  aparece na minha vida das formas mais inesperadas.

O que você diria para leitores que estão tendo contato com a literatura dele pela primeira vez?

Depois de sua morte, eu pensei que eu nunca mais ouviria a voz dele de novo e quando eu finalmente tive coragem de abrir um dos livros dele, ele estava lá. A voz dele sai das páginas. Assim como nunca existirá uma pessoa como meu pai, nunca haverá um livro como “Pescar Truta na América”. É extraordinário. Esse livro transformou a vida de muitas pessoas.

Depois que ele morreu, você encontrou algum manuscrito? Alguma chance de novos livros?

Sim. Tem muitos poemas e histórias não publicadas.

Leia mais sobre “Pescar Truta na América”: 

Literatura non-sense que inspirou Murakami volta às livrarias

 

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