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O machismo e seus símbolos

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Homens são mais fortes? Mulheres são mais sensíveis? Meninos vestem azul? Meninas vestem rosa? Os conceitos de divisão dos gêneros tão impregnados na sociedade são o objeto de estudo do antropólogo e sociólogo francês Pierre Bourdieu em A dominação masculina, livro publicado pela primeira vez em 1999 que ganha nova edição pela Bertrand Brasil. Passadas duas décadas, sua leitura segue atual e imprescindível para uma análise da ascensão do empoderamento da mulher.

Para discutir as bases do predomínio masculino, Bourdieu parte de uma pesquisa etnográfica realizada com o povo Cabila, localizado no norte da Argélia, na África. Com uma organização absolutamente androcêntrica, os Cabila elegem sem pudores o ser masculino como hierarquicamente superior em seus costumes. Algo que pode parecer exótico para as sociedades globalizadas, mas que não está tão longe de nós. “A postura submissa que se impõe às mulheres cabilas representa o limite máximo da que até hoje se impõe às mulheres, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, e que, como inúmeros observadores já demonstraram, revela-se em alguns imperativos: sorrir, baixar os olhos, aceitar as interrupções, etc.”, exemplifica Bourdieu no livro.

O autor de A dominação masculina mostra que as formas de reprodução desta superioridade masculina se apoiam superficialmente nas diferenças “naturais” entre os gêneros, mas vão muito além. Estão intrincadas de tal forma na ordem social que muitas vezes são imperceptíveis. Mas sempre colocam as mulheres no espectro negativo. Para exemplificar, Bourdieu utiliza dicotomias aparentemente simples como úmido/seco, aberto/fechado, cheio/vazio, sobre/sob e analisa como elas são usadas como referências melhores ou piores – ou ainda masculinas/femininas. Ele destrincha ainda alguns costumes que vão desde o ato sexual e suas simbologias ao cotidiano de trabalho e da economia.

Por mais que nos dias de hoje as críticas de Bourdieu possam soar como mansplaining é preciso ter em perspectiva que o livro foi escrito na década de 1990. Para o antropólogo, parte do movimento feminista “concentrou todos os olhares no universo doméstico”, ignorando que a estrutura de dominação é bem mais ampla. “Instâncias como a escola ou o estado, lugares de elaboração e de imposição de princípios de dominação que se exercem dentro mesmo do universo mais privado, são um imenso campo de ação que se encontra aberto às lutas feministas, chamadas então a assumir um papel original, e bem definido, no mesmo seio das lutas políticas contra todas as formas de dominação”, ele sugere.

No fim das contas, Bourdieu mostra que tanto homens quanto mulheres sofrem os efeitos nefastos deste sistema de opressão. E que só será possível superá-lo através de uma “tomada de consciência”, ou seja, do entendimento abrangente de todos os efeitos da dominação.

Leia alguns trechos do livro abaixo:

“A divisão entre os sexos parece estar “na ordem das coisas”, como se diz por vezes para falar o que é normal, natural, a ponto de ser inevitável: ela está presente, ao mesmo tempo, em estado objetivado nas coisas (na casa, por exemplo, cujas partes são todas “sexuadas”), em todo o mundo social e, em estado incorporado, nos corpos e nos habitus dos agentes, funcionando como sistemas de esquemas de percepção, de pensamento e de ação.”

“A força da ordem masculina se evidencia no fato de que ela dispensa justificação: a visão androcêntrica impõe‑se como neutra e não tem necessidade de se enunciar em discursos que visem a legitimá-la. A ordem social funciona como uma imensa máquina simbólica que tende a ratificar a dominação masculina sobre a qual se alicerça: é a divisão sexual do trabalho, distribuição bastante estrita das atividades atribuídas a cada um dos dois sexos, de seu local, seu momento, seus instrumentos; é a estrutura do espaço, opondo o lugar de assembleia ou de mercado, reservados aos homens, e a casa, reservada às mulheres; ou, no próprio lar, entre a parte masculina, com o salão, e a parte feminina, com o estábulo, a água e os vegetais; é a estrutura do tempo, as atividades do dia, o ano agrário, ou o ciclo de vida, com momentos de ruptura, masculinos, e longos períodos de gestação, femininos.”

 

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