Entrevistas

“O abraço é uma forma de acolher a frustração”

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Por Manoela Cesar

A educadora parental Elisama Santos estava grávida do segundo filho quando presenciou uma cena que mexeu com ela: uma outra mãe batendo numa criança. Seus olhos cruzaram com o do pequeno e todas as emoções e recordações de sua infância vieram à tona. A partir daquele momento, Elisama começou a pesquisar sobre o assunto que dá nome ao seu livro de estreia pela editora Paz & Terra: Educação não violenta. Com o tempo a dedicação ao assunto, a transformou numa referência e ela fez uma especialização em educação parental no Positive Discipline Association, nos Estados Unidos. Elisama Santos não propõe uma fórmula mágica, pois considera não haver uma.

O primeiro passo para acertar na educação dos filhos é observar a si próprio e ouvir os seus próprios sentimentos. “Quando digo: ‘Arrume o seu quarto agora! Você nunca faz o que eu peço! Parece que eu falo com as portas! Você é muito bagunceiro’, crio em quem me escuta uma resistência imediata. Você próprio não obedeceria alguém que se dirigisse assim a você”, compara a autora de Educação não-violenta. Na entrevista a seguir, Elisama fala também sobre a relação das crianças com smartphones e faz uma apologia ao abraço, ressaltando que a o que se chama de birra é normal até os cinco anos, pois a criança ainda está em fase do desenvolvimento cerebral.

“O que esperamos que uma criança faça ao escutar um não? “Muito obrigada, mamãe, que não bem colocado! Que mãe maravilhosa você é!”. Claro que ela não terá essa resposta madura e emocionalmente equilibrada, sobretudo porque seu cérebro ainda está se desenvolvendo e não consegue regular as próprias emoções. O abraço é uma forma de acolher a frustração, a dor causada pelo não”, ressalta Elisama.

Ao longo de fevereiro e março, Elisama Santos sai em turnê de divulgação do livro Educação não violenta e passará pelo Rio de Janeiro (15/02), São Paulo (22/02), Curitiba (08/03), Salvador (15/03) e Belo Horizonte (22/03). O material da entrevista de divulgação de Elisama Santos ao BLOG DA EDITORA RECORD pode ser reproduzido livremente. Caso precise de foto da autora, entrar em contato pelo e-mail imprensa@record.com.br.

Ao longo da História, a educação sempre foi acompanhada da crença de que as punições (muitas vezes físicas) seriam o melhor caminho para alcançar a disciplina. No entanto, o seu livro vem junto com um novo movimento de mudança neste paradigma. A que fatores sociais e históricos você creditaria esta recente transformação no ponto de vista de educadores? 

O mundo mudou. Aquele mundo para o qual nós fomos criados não existe mais. Há alguns anos a informação valia ouro, era o bem mais precioso que um pai e mãe podiam passar para os filhos. O desenvolvimento do raciocínio lógico-matemático era o principal foco na educação. Lembro que, na escola, quando havia uma pesquisa a ser feita, íamos algumas vezes na biblioteca municipal para consultar vários livros até encontrar algo voltado ao tema. Hoje basta uma pesquisa rápida em um site e inúmeras fontes aparecem em segundos. Nesse momento, precisamos de um filtro interno que nos faça selecionar, dentro desse universo de excesso de informação, o que nos serve e o que precisa ser descartado. A ciência evoluiu muito, e o conhecimento que temos hoje nos possibilita ver todo o mundo de um jeito diferente. O conceito de inteligência emocional foi esquematizado como o conhecemos apenas em 1995! Na minha infância não existiam celulares, a televisão era uma caixa pesada de imagem ruim e vídeochamada era coisa de filme de ficção-científica. Ora, é natural que a forma que vemos a nós, a nossas crianças e a educação acompanhe tamanhas mudanças. No entanto, é importante falar que em 1965 o psicólogo israelense Haim Ginott já publicava sobre os malefícios das palmadas e punições. O austríaco Alfred Adler e alguns outros colegas da psicologia já estudavam sobre as consequências da forma que falamos com os nossos filhos para o seu futuro. Da Dinamarca, país mais feliz do mundo por 40 anos seguidos, as punições estão descartadas da educação desde sempre. Ou seja, estudos sobre o tema existem há muito.

Você defende que a ideia de esperar obediência dos filhos seja substituída pela construção de uma relação empática entre pais e filhos. Como pais devem agir para estimular esta relação?

Acredito que a cooperação é a maneira de desenvolver a autorresponsabilidade e cuidar da relação entre pais e filhos. Quando foco em ter alguém que faz o que quero, como quero, da maneira que quero, estou esquecendo que a educação não é sobre mim, mas sobre desenvolver em meus filhos as habilidades necessárias para que ele seja capaz de conviver harmoniosamente em sociedade, respeitando a si e ao outro. Nossos filhos passam menos de 25% da vida em nossas casas, precisamos lembrar que educar é um projeto a longo prazo. E desenvolvemos o respeito mudando a nossa forma de escutar e falar com as crianças, passando a focar na busca por soluções de problemas em vez de punições. Não estamos falando de permissividade, mas de ter autoridade sem autoritarismo.

Quais seriam suas dicas para que os pais consigam impor limites conciliando a assertividade com o afeto?

Não existe limite que não possa ser colocado com afeto e ternura. Não existe não que precise ser gritado para que a criança compreenda. A capacidade de aprender de uma criança não acaba nunca, já a nossa capacidade de regular os nossos sentimentos e a paciência para ensinar sim. Somos humanos, é normal que percamos a paciência, que as inúmeras cobranças diárias nos tornem menos tolerantes com os comportamentos infantis. É essencial que os pais percebam quando estão estafados e sem condições de conversar amigavelmente. “Estou furiosa. Vou me acalmar e já volto para conversarmos” vale mais que gritar, brigar e humilhar sem perceber. Isso, além de reconhecer os nossos próprios limites, dois pontos são essenciais: o primeiro é observar como está a conexão com os filhos. Quanto tempo dedico à nossa relação diariamente? Conversamos, brincamos, gargalhamos juntos? Nós colaboramos melhor com quem nos sentimos conectados, ligados e respeitados. O segundo ponto é que precisamos estudar para educar. Não nascemos sabendo como ser pai e mãe. Educar é uma missão desafiadora, são muitas as dúvidas, inseguranças. Quanto mais estudo e entendo cada fase do desenvolvimento, mais capaz me torno de aprender a lidar com elas. Essencial frisar que toda relação precisa de limites. Não gosto de falar em colocar limite na criança, afinal, não queremos educar seres limitados. Falo de demonstrar os limites das relações, dos lugares, enfim, do mundo. E é a consistência e persistência que fazem toda diferença. Não é não, e esse não será mantido se ele é importante para a família. Mais uma vez digo que educação não violenta não é sinônimo de permissividade.

Nos momentos em que os filhos fazem birra, você defende que a bronca ceda lugar a um abraço. Como fazer isso sem correr o risco de criar um filho voluntarioso, ou, como se costuma dizer, mimado?

A birra é normal até os cinco anos. Faz parte do desenvolvimento cerebral. O que esperamos que uma criança faça ao escutar um não? “Muito obrigada, mamãe, que não bem colocado! Que mãe maravilhosa você é!”. Claro que ela não terá essa resposta madura e emocionalmente equilibrada, sobretudo porque seu cérebro ainda está se desenvolvendo e não consegue regular as próprias emoções. O abraço é uma forma de acolher a frustração, a dor causada pelo não. “Vejo que você queria muito o biscoito. A regra é nada de doces antes das refeições. Imagino que esteja triste. Será que um abraço ajudaria?”. Não defendo que os pais evitem a frustração a qualquer custo, isso sim seria prejudicial para o desenvolvimento emocional da criança e a tornaria frágil e incapaz de lidar com as intempéries da vida, além de cada vez mais exigente e insatisfeita. Acolher e atender, no entanto, são coisas diferentes. Ao nomear o sentimento e apresentar formas saudáveis de lidar com ele, estimulamos na criança algo essencial para o seu futuro: a resiliência.

Em que momento da sua vida você percebeu que seria educadora? Quem a inspirou a trabalhar pela educação afetuosa e como foi sua formação?

Durante a gravidez do meu filho mais velho eu defendia as palmadas e castigos. Acreditava que esta era a melhor forma de educar, engrossava o coro do “as palmadas me educaram”. Até o dia que vi uma mãe batendo em uma criança e meus olhos cruzaram os do pequeno. Chorei. Estava no final da gestação do meu segundo filho e aquilo me marcou muito, porque lembrei o medo que sentia, a vontade de fugir, a sensação de traição por apanhar de quem eu mais amava na vida. Ali tomei a decisão de educar de uma forma diferente. Não imaginei que seria um desafio tão grande. Não haviam formações a respeito e estudava, com outras mães, através de livros e blogs. Até então estudava apenas para a educação dos meus próprios filhos. Com o passar dos anos comecei a falar mais sobre isso com amigas e em minhas redes sociais, e as pessoas me pediam para falar cada vez mais. Fui em uma palestra do Alexandre Coimbra, um psicólogo que admiro muito, e me apaixonei pela forma de trabalho dele, sem dúvidas ele foi a minha maior inspiração. Fiz uma formação em educação parental pelo Positive Discipline Institute, um curso de Mindfullness e alguns outros em desenvolvimento pessoal, além de estar concluindo uma formação em psicanálise clínica. Há três anos viajo pelo país ministrando palestras, além de atender pais de todo o mundo através de consultorias on-line. Muitas das histórias, inclusive, entraram no livro como exemplos e estudos de caso. Estudar a comunicação não violenta, o desenvolvimento humano e as relações se tornou a minha missão de vida.

Como foi conduzida a sua educação?

Fui educada como a maioria das crianças da minha geração. As palmadas e punições eram um método educativo supervalorizado e os nossos pais eram cobrados pela sociedade para serem autoritários com os filhos. Cresci escutando que criança não tem querer e coisas do gênero. Não podemos esquecer que nossos pais fizeram o melhor que podiam, com as ferramentas que tinham. Diante da criação que eles receberam, o que me ofertaram foi uma evolução imensa! Meus pais não tiveram a oportunidade que hoje tenho de comprar livros e estudar sobre formas respeitosas de educar. Conseguiram me dar o que nunca receberam. Todos os pais fazem o melhor que podem. Ninguém acorda pensado: “Hoje vou ser o pior pai, a pior mãe do mundo. Vou acabar com as estruturas psicológicas dos meus filhos.”. Acordamos desejando ofertar o melhor, mesmo que isso não seja dito.

Qual a sua opinião sobre o acesso a video-games, telas e smartphones durante a infância?

Em um mundo ideal as crianças não teriam acesso a telas. São um estímulo excessivo e desnecessário para o desenvolvimento infantil. Isso em um mundo ideal. No mundo real os pais dão conta de inúmeras demandas e a televisão é uma babá barata e eficiente para os momentos de caos. Há, no entanto, um preço para esse entretenimento. As telas interferem no sono, no humor, nos comportamentos e no desenvolvimento da inteligência (inúmeros estudos comprovam isso, fáceis de encontrar em uma busca rápida em sites de pesquisa). Cada pai e mãe deve perceber o quanto elas interferem nos seus filhos e o limite de uso saudável para eles. É normal que a criança queira mais, chore e reclame, mas é dever dos pais cuidar da saúde dos filhos. Dependendo da idade, as regras de uso podem ser combinadas em uma reunião de família. A regulação do quanto, como e quando usar não devem ficar sob a responsabilidade da criança, visto que ela não tem capacidade para fazê-lo.

Em seu livro, você estimula que pais pensem a educação dos filhos a longo prazo e os pede para se indagarem quais qualidades eles gostariam de ver em seus filhos quando adultos. E relata que poucos são os pais que já pensaram sobre isso antes de sua indagação, por mais que possa parecer algo óbvio. Você considera que o imediatismo da atualidade também se reflete na criação dos filhos do século XXI? Como trabalhar isso dentro de casa?

Apesar deste momento acelerado que estamos vivendo, não acredito que o imediatismo na educação seja algo apenas nosso, mas vem de gerações e gerações. A nossa sociedade, sobretudo a Ocidental, não está acostumada a pensar a longo prazo. É assim a nossa relação com a saúde, com dinheiro. Queremos gratificações imediatas e esquecemos das gratificações a longo prazo. A busca pelo prazer imediato permeia a história da humanidade, afinal. Educar é um projeto de longo prazo, demorado e que está longe de ser uma linha reta. Precisamos nos treinar a pensar na educação como um processo e nos questionar se as nossas atitudes atuais são as sementes do que queremos colher no futuro. E esse questionar-se será feito com esforço, porque foge ao nosso habitual. E precisamos também ensinar aos nossos filhos que nem tudo tem uma resposta imediata, fazendo com que aproveitem o presente sem esquecer que é ele que faz o nosso futuro.

Você fala dos pedidos suicidas, que fazemos de um jeito que parecem formulados para não serem atendidos. Você poderia exemplificar alguns para que os pais percebam a forma mais eficaz de pedir algo aos filhos?

Quando digo: “Arrume o seu quarto agora! Você nunca faz o que eu peço! Parece que eu falo com as portas! Você é muito bagunceiro”, crio em quem me escuta uma resistência imediata. Quase que automaticamente a criança vai buscar em sua mente uma situação em que atendeu ao meu pedido, para refutar o “nunca”. É provável que se perca em pensamentos de “minha mãe é muito chata” ou “Eu devo ser uma criança muito ruim mesmo”. Em momento algum vai parar para enxergar a mãe como um ser humano como ela, que tem sentimentos e necessidades, assim como ela, e que está pedindo algo que julga importante e que, se atendido, pode fazer o seu dia melhor. A nossa forma de falar nos desumaniza, afasta em vez de aproximar, cria paredes em vez de criar pontes. Em vez de reprisar o sermão da montanha, podemos estimular a reflexão do que precisa ser feito com uma frase: “Filho, vejo as suas roupas espalhadas no quarto.”, ou convocar o filho para solucionar o problema: “Suas roupas estão espalhadas, de quanto tempo precisa para organizá-las?”, ou comunicar como nos sentimos sem ferir o caráter do filho: “Filho, ambientes desorganizados alteram o meu humor. Para mim é muito importante que a casa esteja limpa. Imagino que não seja a sua prioridade, mas acho que podemos encontrar uma forma de atender as necessidades de nós dois.” Existem muitas formas de falar. Crianças pequenas, até os 5 anos, não resistem a uma brincadeira! “Pipipipipi, o detector de sujeira vai explodir nesse quarto! pipipipi! rápido, vamos limpar tudo!”, funciona como mágica, bem melhor que um sermão, posso garantir.

Em relação a bebês e recém-nascidos, existem linhas que defendem a livre demanda de mama e de colo, a cama compartilhada e até mesmo uma liberdade maior em relação à rotina. Qual sua opinião?

Bebês precisam de colo como precisam dormir e se alimentar. É necessidade básica. Amamentação e colo jamais deveriam ser regulados por um relógio, mas sim pelo ritmo do bebê e da sua mãe. Mamíferos dividem o lugar onde dormem com os seus filhos, é natural que uma mãe queira dormir com o recém-nascido. Há inúmeros estudos que ressaltam a importância desse contato pele a pele, do cheiro e toque para o desenvolvimento emocional do recém-nascido e até da recuperação da mãe, influencia na produção de leite e na saúde emocional. Importante falar que, segundo estudos sobre os tipos de apego, a forma como um bebê tem – ou não – as suas necessidades atendidas interfere na maneira que irá se relacionar com todos ao seu redor, inclusive na vida adulta. Colo é amor e o mundo está precisando de pessoas dispostas a dar e receber colo.

 

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