Entrevistas

“O foco no resultado está adoecendo as pessoas, pois tira o prazer de aproveitar a trajetória”, afirma Alexandre Prates

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Para o palestrante e coach Alê Prates, todos os conceitos amplamente difundidos pelas pessoas e organizações, como motivação, desempenho, eficiência e gestão de tempo podem ser alcançados com uma simples prática: engajamento. Esta é a premissa de seu novo livro “Não negocie com a preguiça”, lançamento da Editora BestSeller.

Na entrevista a seguir, o autor mostra como tomar as rédeas nas mais diversas áreas da vida por meio do engajamento e questiona algumas visões sobre coaching e empreendedorismo.

Um dos aspectos principais do livro é a distinção que você faz entre comprometimento e engajamento, que seria uma condição além, quando a pessoa faz mais do que o esperado. Como despertar esse algo mais em pessoas comprometidas, mas que se encontram estagnadas pessoal ou profissionalmente?

As pessoas sentem-se estagnadas por quatro motivos:

  1. Não sabem fazer: quando as pessoas não têm conhecimento para realizar as suas atribuições não alcançarão os resultados desejados e isso impactará no seu senso de realização.
  2. Sabem fazer, mas não querem fazer: pessoas se sabotam o tempo todo e isso ocorre, pois insistem em negociar com a preguiça, acreditando que sempre dará tempo de virar o jogo. São pessoas que pouco a pouco destroem as suas carreiras, os seus relacionamentos e sua saúde.
  3. Sabem fazer, querem fazer, mas não conseguem fazer: o clássico caso de falta de confiança. Nesse caso, também existe negociação com a preguiça, pois a pessoas não se arrisca a dar o próximo passo em sua vida, prendendo-se a uma zona de conforto destrutiva. São pessoas que fogem constantemente de situações como falar em público, discutir a relação com a pessoa amada, procurar aquele amigo, interagir mais em uma reunião e por ai vai.
  4. E todos os elementos, esbarram nesse último: SENTIDO. Sem um propósito claro, a vida entra no piloto automático. Faço simplesmente porque preciso, ou seja, até me comprometo, mas não vale a pena por muito tempo. O engajamento se estabelece a partir de um propósito claro e consistente. A empresa não te reconhece? Então não trabalhe pela empresa, trabalhe pela sua carreira. Aumente o seu desempenho e seja desejado pelo mercado. Não mude seus hábitos para emagrecer e sim, para conquistar a qualidade de vida que lhe permite viver muito e bem.

Você desconstrói no livro alguns mitos do mundo dos negócios como o clássico “foco no resultado”.  Para você, como essa obsessão pelo objetivo final atrapalha o desenvolvimento dos projetos e das pessoas?

O foco no resultado é destrutivo, pois nos faz esquecer o princípio básico da conquista de objetivos: construir um caminho que valha a pena que eu consiga sustentar a longo prazo. O foco no resultado está adoecendo as pessoas, pois tira o prazer de aproveitar a trajetória. Na vida existem duas variáveis: uma eu controlo,  a outra, não. Eu posso fazer um atendimento fantástico para o meu cliente, enfatizando todos os pontos de destaque do meu produto, mas se meu cliente não tem orçamento, não controlo essa variável. Mas eu preciso ter a certeza de que o meu desempenho foi correto, pois novas oportunidades surgirão e se estiver confiante no meu método, o resultado virá.

O problema é que as pessoas, por focarem excessivamente no resultado, estão buscando as fórmulas mágicas, tão exploradas pelos gurus da motivação. Faça 15 minutos de exercício e perca 10 kg; fique rico trabalhando 4 horas por dias em qualquer lugar do mundo. E isso tem tido um efeito inverso nas pessoas, estamos criando um exército de frustrados. Em vez de se engajarem com suas trajetórias, as pessoas estão se comprometendo com as fórmulas dos outros.

Outro mito que você aborda no livro é sobre empreendedorismo e o lema de que se você não construir seu sonho, alguém vai contratá-lo para ajudar a construir o dele. Essa visão acaba não levando em conta as pessoas que não têm esse perfil e se encaixam mais na posição de empreendedor corporativo. Você acredita que ainda há muita glamourização sobre a figura do empresário?

A figura do empresário é extremamente supervalorizada. Se você quer se tornar um empresário, pois terá liberdade, não terá chefe e ganhará muito dinheiro, esqueça. Não é assim que funciona. Um empresário tem fortes obrigações nas costas, trabalha muito e tem um chefe implacável – o cliente. Além disso, para se chegar ao posto de um alto executivo dentro de uma grande organização você precisa ser muito competente, ou seja, ser empreendedor ou executivo tem seus ganhos e perdas. Essa frase é tendenciosa, pois coloca o empreendedor como um mito e a única pessoa que conseguiu realizar seus sonhos. Conheço muito executivo frustrado, assim como conheço muitas pessoas que se tornaram empresárias, pois não conseguiram ascender dentro de organizações. O importante é fazer aquilo que está dentro de suas aptidões e desejos, sem ser influenciado pelos empreendedores de palco.

No livro, você fala sobre o engajamento e sua influência em diversas áreas da vida, relatando questões da sua vida pessoal como exemplo. Você acredita que o engajamento em uma esfera da vida pode beneficiar a transformação positiva em outras? Como numa espécie de “engajamento em cadeia”?

Não tenho a menor dúvida e falo por experiência própria que quando mudamos positivamente uma área da nossa vida impactamos todas as outras. Já atendi executivos que bastou elevar o seu engajamento com a saúde e sua carreia decolou. E como isso aconteceu? Simples, a prática constante de atividade física atrelada a uma alimentação regrada, trouxe mais autoestima, energia e disposição. Isso melhorou o seu relacionamento, tornando-o mais realizado, desencadeando uma atmosfera positiva em sua liderança e em todo o seu time. Os resultados foram inevitáveis. O ser humano tem apenas uma energia, qualquer desequilíbrio tira a nossa capacidade de empenhar todo o nosso potencial.

Vivemos em um momento em que coaching está em alta, em que as pessoas adotam “gurus” como modelos… Existem muitos profissionais sérios, mas, como você destaca no livro, há também quem compre gato por lebre. Como ficar atento para não se deixar levar por falsas promessas?

O coaching é uma profissão séria, uma ciência amplamente testada e aplicada em todo o mundo. Infelizmente, as escolas de formação prestaram um desserviço grave ao mercado colocando verdadeiras multidões em sala com promessas de que em apenas 8 dias de imersão a pessoa estaria apta a trabalhar com vidas. Isso naturalmente criou um exército de pessoas motivadas, mas sem qualquer condição técnica para realizarem processos consistentes de coaching e isso causou um impacto muito negativo no mercado, denegrindo a reputação da profissão e muitos coaches sérios. É preciso separar o joio do trigo. E isso se faz com uma análise profunda que vai além de uma rede social recheada de seguidores (por vezes comprados) e frases de impacto. Um profissional sério tem uma ampla formação, experiência e horas de atuação. A maioria tem mais horas de postagem nas redes do que uma ampla dedicação ao desenvolvimento de pessoal.

Depois de muitos anos numa mesma posição, é comum que as pessoas se deixem levar pela rotina e aparentem estar menos engajadas, apesar de comprometidas. Como estimular esse engajamento para uma mudança de setor ou ressignificação do trabalho? E qual seria sua dica para quem quer mudar completamente o rumo da vida profissional?

A transição de carreira faz parte do engajamento de qualquer profissional, independente do seu estado atual. Em algum momento você passará por uma transição de carreira, mais cedo ou mais tarde. E isso pode ser planejado ou não, que é o que ocorre na maioria das vezes. Passar por isso é normal. Eu vejo muitos profissionais que ao decorrer dos anos, experimentam uma grande frustração e não veem mais sentido em fazer o que fazem todos os dias. E algumas pessoas, mesmo com esse incômodo, têm medo e não se arriscam, não saem da zona de conforto.

É preciso ter engajamento para planejar um caminho e para tomar decisões para conseguir ter a sua realização pessoal e profissional.

E quanto mais cedo você pensar e planejar a sua transição, melhor para a sua carreira. E isso vale para qualquer decisão:

– Diminuir a carga horária de trabalho sem prejudicar o faturamento;

– Mudar de profissão;

– Abrir um negócio;

– Curtir a sua aposentadoria viajando e estudando pelo mundo;

– Tornar-se um escritor;

– Enfim, viver da forma que lhe traga mais realizações.

A transição é parte do seu engajamento! Ou o profissional se engaja e planeja a sua transição ou o mercado fará isso. O problema é que pode não ser o que você deseja.

 

 

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