Entrevistas

Adolescência sem traumas

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O recente massacre na escola estadual Professor Raul Brasil em Suzano, no interior de São Paulo, reacendeu o debate sobre bullying, suicídio e a importância dos cuidados na adolescência. As transformações inerentes a essa fase da vida são justamente o mote do novo livro do médico Gustavo Teixeira.

Autor dos best-sellers “O reizinho da casa” e “Manual antibullying”, Gustavo explica em “Manual da adolescência” como funciona o cérebro adolescente e as principais intercorrências dessa época da vida, como alcoolismo, depressão, transtornos de ansiedade e outros temas que afligem pais, educadores e profissionais da área de saúde.

Na entrevista a seguir, o autor lembra que a preparação para uma adolescência saudável começa na infância e que a criança exposta a estressores tóxicos ambientais e privada de estimulação tem mais chances de desenvolver doenças psiquiátricas como depressão e ansiedade.

Os adolescentes de hoje em dia já nasceram em um mundo conectado. Como a internet e as redes sociais vêm influenciando as transformações inerentes a essa fase da vida?

 Estamos tentando aprender em tempo real sobre as consequências positivas e negativas do uso da internet e das redes sociais com o avanço da tecnologia. Particularmente, eu sou um grande entusiasta do avanço tecnológico, desde que tenhamos parcimônia e equilíbrio em seu uso.  Não podemos encaram o avanço tecnológico como um problema e sim como uma oportunidade do nosso crescimento como sociedade. Na minha época de infância, o “problema” era a televisão a cabo. Todos fascinados com a nova tecnologia. Nem por isso deixei de praticar esportes, estudar, socializar, pois a questão chave é equilibrar o tempo de telas. Tudo em excesso faz mal, logo descrever regras e limites aos filhos é fundamental e isso é uma questão atemporal, pois sempre teremos saltos tecnológicos ao longo do tempo.

Quais cuidados devem ser tomados na infância para que chegada à adolescência seja tranquila?

A atenção, o carinho e afeto são fundamentais para o desenvolvimento cerebral. Diversas pesquisas cientificas mostram que crianças inseridas em ambientes hostis, violentos, sem estimulo e sem carinho ou afeto, também chamados de estressores tóxicos ambientais, apresentam maiores chances de quadros comportamentais graves na adolescência como depressão, ansiedade, transtorno de conduta, esquizofrenia, uso de drogas, além de maior incidência de doenças clinicas como obesidade, hipertensão arterial, infarto agudo do miocárdio e diabetes.

Por outro lado, intervenções protetivas que estimulam e auxiliam essas crianças produzem um efeito protetor ao cérebro em desenvolvimento. Portanto, proteger e estimular nossas crianças é fundamental se desejamos criar jovens e adultos produtivos, éticos e competentes emocionalmente.

O livro é dedicado aos pais, professores e profissionais de saúde mental. Cada grupo deste exerce uma influência sobre os adolescentes. Como estimular uma sinergia entre a mensagem de casa, da escola e dos médicos e terapeutas?

A parceria entre pais, familiares, escola e profissionais de saúde mental infantil é fundamental para que ocorra uma troca de informações, troca de experiências e assim possamos traçar metas e planejar estratégias vencedoras para auxiliar nossas crianças e adolescentes. O primeiro passo para isso é oferecer material psicoeducacional de qualidade para orientar a todos e esse é a grande importância do livro MANUAL DA ADOLESCÊNCIA (Ed. Best Seller).

A série “Thirteen reasons why” recebeu muitas críticas pela forma como retratou o suicídio. No entanto, é um assunto importante mesmo entre os adolescentes, tendo em vista, por exemplo, o massacre em Suzano, que chocou todo o país. Como falar deste tema tão delicado com adolescentes?

Abordar o tema é fundamental. Enquanto não se fala sobre suicídio, uma tragédia ocorre todos os dias no Brasil e no mundo. Para se ter uma ideia da dimensão desse fenômeno, o suicídio está entre as dez principais causas de morte em todo o mundo e entre as três primeiras quando se considera a faixa etária de 10 a 19 anos, atrás apenas de acidentes e homicídios. Nas crianças entre 5 e 14 anos, o suicídio é a quinta causa de morte, depois de acidentes, câncer, anormalidades congênitas e homicídio. Recentes estudos epidemiológicos realizados com estudantes do ensino médio indicam que cerca de 14% dos jovens já pensaram em suicídio e cerca de metade deles realizou pelo menos uma tentativa nos últimos anos. Crianças com ideia suicida são três vezes mais propensas a executar atos suicidas na adolescência e aquelas que tentam o suicídio na infância apresentam seis vezes mais chances de tentar novamente durante a adolescência.

E qual a importância das atividades extracurriculares nesse período da vida?

Abrir o leque de oportunidades para nossas crianças e adolescentes é fundamental e o nosso cérebro é muito plástico, muito maleável e se cuidarmos devidamente da estimulação das nossas crianças e adolescentes podemos reverter muito os riscos e os prejuízos causados por negligência, violência e falta de estímulo.

A plasticidade neural é muito importante para o desenvolvimento do nosso cérebro, pois permite que vias de comunicação cerebral (vias sinápticas) muito utilizadas se fortaleçam, e isso favorece a construção de grandes vias de transmissão de informação. Enquanto vias sinápticas pouco utilizadas são desfeitas, neurônios defeituosos e conexões falhas podem ser destruídos. Trata-se de uma maneira econômica e inteligente de enriquecer o cérebro com conexões cerebrais ágeis, rápidas e importantes para que todo o organismo funcione de maneira mais harmônica e eficiente.

 

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