Entrevistas

“Os personagens que criei passaram a ter cara e vozes”

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O premiado romance Se eu fechar os olhos agora (Ed. Record) completa dez anos de sua primeira edição em 2019, com a chegada de sua adaptação para a TV, assinada por Ricardo Linhares, à Globo. Estrelada por Antonio Fagundes, Mariana Ximenes, Murilo Benício e grande elenco e sob a direção de Carlos Manga Jr., a série ganhou tons noir, ambientada na cidade mineira de Catas Altas. Para celebrar este marco, o livro ganha nova capa: sai a foto clássica de Henri Cartier-Bresson e entra a imagem de dois meninos brincando num rio, que remete à trama do livro. Em Se eu fechar os olhos agora, Edney explora o impacto que o misterioso assassinato de uma bela mulher nos anos 1960 causa no resto da vida dos seus  personagens. “Quando Ricardo Linhares propôs a adaptação, foi logo sublinhando que precisaria dar àquelas memórias imagens palpáveis, reais”, recorda-se Edney em entrevista ao BLOG DA EDITORA RECORD. “É interessante como, desde que assisti à adaptação, os personagens de meu próprio romance, os personagens que eu mesmo havia criado, passaram a ter a cara e as vozes da minissérie”.

Vencedor do Prêmio Jabuti na categoria melhor romance e do Prêmio São Paulo de Literatura de autor estreante, Se eu fechar os olhos agora trilhou um caminhou de grande sucesso  junto à crítica e ao público no Brasil e no exterior, tendo sido traduzido para o inglês, italiano, francês, alemão e holandês, além de ganhar uma versão para os leitores portugueses. Estão a caminho as traduções para o hindu e o bengali, voltadas para o mercado da Índia.

Confira abaixo a entrevista completa com Edney Silvestre, que está trabalhando num novo romance ambientado nos anos 1960.

O romance Se eu fechar os olhos agora completa dez anos em 2019 com a chegada de sua adaptação à TV aberta. Como você avalia a trajetória do livro neste tempo?

 “Você está preparado para o turbilhão que esse romance vai causar em sua vida?”, me perguntou Luciana Villas-Boas, a então diretora editorial da Record. Eu achei que era uma lisonja gentil com o autor estreante. Não era. Luciana, com a experiência e o faro que tinha e tem, sabia o que viria . E foi mesmo o que aconteceu a partir da publicação de Se eu fechar os olhos agora, em outubro de 2009. Foram surpresas atrás de surpresas. Um mês depois de o romance chegar às livrarias, uma crítica na Folha classificou o livro como “excelente” (*) . Depois houve a acolhida dos leitores. E veio o Prêmio São Paulo de Literatura, seguido do Jabuti de Melhor Romance de 2010. Ao mesmo tempo, os contratos de tradução, as ofertas para compra dos direitos de adaptação para o cinema, os convites para festivais literários no Brasil e no exterior, até a conversa com Ricardo Linhares e a proposta de adaptação de SEFOA para a minissérie da TV Globo.

O livro foi traduzido para inglês, holandês, sérvio e outros idiomas e, em todos esses países, foi tema de inúmeras resenhas. Qual comentário mais te surpreendeu?

 Primeiro de tudo, me surpreendeu o interesse internacional por uma obra profundamente enraizada na história do Brasil. Se eu fechar os olhos agora também está traduzido para o italiano, francês e, breve, será vertido para hindu e bengali, na Índia, além de ter sido editado duas vezes em Portugal (pela Planeta e pela Compasso dos Ventos). A versão holandesa foi do mesmo tradutor de Fernando Pessoa e Saramago para aquela língua, Harrie Lemmens, uma honra e um sinal da atenção que dedicaram ao livro. A explicação para o interesse despertado em países de culturas tão diversas talvez esteja no comentário da editora Eleonore Delair-Flasskamp da versão alemã, publicada pela Blanvalet Verlag: “Pela primeira vez li um romance brasileiro que me fez entender a ligação entre a história do Brasil, a formação étnica da população, e seus efeitos sobre a vida contemporânea dos brasileiros”.

Se eu fechar os olhos agora conquistou o Jabuti na categoria romance, em 2010. É, sem dúvidas, um ápice na carreira de todo o escritor. Acredito que seja motivo de grande orgulho, mas, ao mesmo tempo, eleva o nível de expectativa em relação aos seus livros. Como você encarou isso? 

 Eu já estava escrevendo meu segundo romance, A felicidade é fácil, quando Se eu fechar os olhos agora saiu vencedor do Prêmio São Paulo e, logo após, do Jabuti. Talvez por isso não percebi as premiações como limitadoras. Pelo contrário. Não esperava nem o Jabuti, nem o São Paulo de Literatura. Mas me alegraram enormemente. E foram ótimos em termos de mercado do livro brasileiro aqui mesmo no Brasil, porque os prêmios deram visibilidade a Se eu fechar os olhos agora, num mercado e mídia frequentemente sufocados por notícias sobre best-sellers estrangeiros. Funcionaram como incentivo para eu continuar a escrever, mesmo em meio ao intenso trabalho como repórter; ir em frente, com personagens cujas vidas são profundamente alteradas pelos acontecimentos à volta deles.

 É comum a comparação de um livro com um filho. Como foi acompanhar o processo de adaptação para a TV? 

 Já escrevi roteiros e peças de teatro, sei que é impossível passar de uma mídia para outra sem alterar linguagem e narrativa. Se eu fechar os olhos agora é, em grande parte, desenrolado na cabeça, na memória do narrador. Paulo, adulto e exilado na Europa, depois de preso e torturado durante a ditadura militar, se lembra dos acontecimentos e dos sentimentos de sua infância e adolescência, imagens trazidas pela memória que idealiza um tempo que acabou, uma cidade que nunca mais viu, um amigo fraternal de quem se perdeu para sempre. Nem sempre ele se lembra fielmente. Matéria de memória é fluida. Quando Ricardo Linhares propôs a adaptação, foi logo sublinhando que precisaria dar àquelas memórias imagens palpáveis, “reais”, digamos assim.

 O que achou das soluções propostas pelo Ricardo, autor da adaptação?

 Conforme ele criava, me enviava os episódios – por pura camaradagem, uma deferência que me encantava, pois não era exigência do nosso contrato – e  fascinava. Eu via a trama tomando forma, os “ganchos” dando solidez às reviravoltas, capítulo por capítulo. E ficava cada vez mais curioso para ver que soluções o Ricardo arranjaria para os episódios seguintes.  Foi imensamente prazeroso. É interessante como, desde que assisti à adaptação, os personagens de meu próprio romance, os personagens que eu mesmo havia criado, passaram a ter a cara e as vozes da minissérie. Ubiratan é Fagundes, Isabel é Debora Falabella, Murilo Benício é o prefeito Adriano Marques-Torres, e por aí vai. Outro aspecto extraordinário é o imenso talento dos dois jovens atores, que tinham 12 anos na época das gravações. João Paulo e Xande estavam em plena fase de crescimento. Tanto que as calças dos uniformes escolares deles tiveram que ser encompridadas em quase 20 centímetros, durante os dois meses e meio de gravações.

Na série há personagens que não existem no livro. Por que foi necessário criá-los?

 Um bom exemplo é a personagem Adalgisa Bastos, mulher do industrial que comanda a cidade. Não há uma “Adalgisa” no livro. No texto do romance, quando o ex-prisioneiro político Ubiratan (Antonio Fagundes na minissérie) e o industrial conservador Geraldo Bastos (Gabriel Braga Nunes) discutem e trocam palavras agressivas, Bastos cita como exemplos de decência e honradez sua própria família, o oposto da “devassidão” que atribui a Anita (interpretada por Thainá Duarte), a  mulher brutalmente assassinada, “uma porca aberta permanentemente à visitação pública”, em suas palavras. Ricardo então criou essa suposta família exemplar, um retrato hipócrita acentuado por machismo e pelo alcoolismo e traições conjugais da mulher de Bastos, magistral e comoventemente interpretada por Mariana Ximenes. É uma beleza, também, observar a homenagem que o Ricardo fez à veterana Ruth de Souza, de 95 anos, a primeira grande atriz negra do Brasil, criando para ela cenas como Madalena, a avó de Paulo, personagem citado apenas de passagem no meu romance.

Na TV o romance ganhou ares “noir”. Quando você escreveu Se eu fechar os olhos agora tinha imaginado um clima como o criado pelo Ricardo Linhares e pelo Carlos Manga Jr?

 A densa estética criada pelo Carlos Manga Jr para a minissérie foi inspirada nas corres terrosas das telas, eivadas de melancolia e solidão, do grande pintor Edward Hopper.  Ricardo já havia captado essa atmosfera numa frase que eu lhe disse, abarcando a vida naqueles tempos, em especial a vida das mulheres: “Era uma cidade de amores tristes”. Ricardo acabou utilizando a frase, dita em off por Paulo adulto (Milton Gonçalves), em suas recordações.

A quais ferramentas você recorreu para recriar no romance a atmosfera dos anos 1960? 

 O tempo presente do romance é 2002, na cidade de São Paulo. É ali que despertam as lembranças do narrador, em identidade não revelada no início. Através de suas lembranças, tendo como fio condutor o brutal assassinato de uma mulher belíssima (Anita, interpretada na minissérie por Thainá Duarte), a trama volta aos anos 1960, em pleno governo Jânio Quadros, seguido de ações durante a ditadura Vargas nos anos 1930/1940, e voltando ainda mais longe, cem anos antes, durante o período em que os antepassados dos personagens principais, nas fazendas e senzalas do Vale do Café, no Estado do Rio, cuidavam de produzir mais de 70% do café então consumido no mundo. Nos anos 1960, mais que em qualquer outra época da história contemporânea, havia grandes esperanças de um mundo melhor e mais democrático, após a derrota do nazi-fascismo na II Guerra Mundial. Aos sonhadores, John Kennedy por um lado, Fidel Castro e Nikita Krushev por outro, acenavam com promessas de um mundo livre da exploração e da injustiça social. No Vaticano, as encíclicas do Papa João XXIII abriam portas para uma Igreja voltada aos pobres.

No Brasil também havia esse sentimento de esperança, não é mesmo?

Aqui no Brasil havíamos tido o governo democrático de Juscelino Kubitschek, eleito por voto direto, seguido por Jânio, igualmente eleito democraticamente, algo inédito até então. A ciência jogava luz sobre a possibilidade de cura de doenças antes incuráveis e um cosmonauta russo, Iuri Gagárin, iniciara a conquista do espaço sideral. Esse extraordinário período de progresso foi o pano de fundo de minha infância, seguido das trevas do golpe militar, do assassinato de Kennedy, da sangrenta onda de tiranias na América Latina, do esmagamento da Primavera de Praga, enfim da sequência de decepções que derrubou os sonhos de minha geração. As lembranças desses sonhos e pesadelos foi a linha que percorri, na construção de Se eu fechar os olhos agora.

Na adaptação para a TV, a recriação de época foi extremamente cuidadosa. Como foi ver a materialização dos anos 60 na TV?

 Um dos muitos acertos da produção foi gravar a minissérie em Catas Altas, uma joia preservada no interior de Minas Gerais, que reúne beleza barroca e a dramaticidade de uma cadeia de montanhas escuras. Surpreendentemente para uma cidade de tanta beleza histórica, nenhuma obra de ficção tinha sido gravada ali até então. Houve um mínimo de intervenções nas fachadas das casas e lojas de Catas Altas, para onde a produção levou mais de 100 pessoas, entre técnicos e elenco. Quando visitei, durante as gravações, fiquei pasmo: aquele lugar era exatamente como eu imaginara a cidade onde se desenrolam os amores clandestinos, os sonhos, os crimes, as descobertas e as alegrias de meu romance Se eu fechar os olhos agora.

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