Entrevistas

Limites sem trauma

Nenhum Comentário

Com a linguagem direta e clara que caracteriza todos os trabalhos de Tania Zagury, Limites sem trauma tornou-se, logo depois de seu lançamento, em 2001, o mais importante “livro de cabeceira” para pais de todo o país, pois cobriu uma lacuna importantíssima na relação familiar: ensinou objetivamente como, quando e por que dizer “não” aos filhos. E também como, quando e por que dizer “sim”.

Os recursos utilizados pela autora, apresentando o texto por vezes sob a forma de tópicos, além de capítulos didáticos divididos por faixas etárias, indicando as necessidades das crianças em cada etapa do desenvolvimento relacionadas às respectivas tarefas dos pais em relação aos limites, tornaram a obra especialmente proveitosa e prática, descomplicando o dia a dia dos pais.

Na entrevista a seguir, a autora aborda os desafios de educar hoje em dia e mostra como seu livro continua atual.

Seu livro passa de geração para geração como um livro de cabeceira, apresentando objetivamente como dar limites aos filhos e até mesmo para os próprios pais. De sua primeira edição até os dias de hoje, o que mudou? Você acha que está mais difícil criar filhos?

Criar filhos nunca foi uma tarefa fácil… Talvez hoje a situação esteja realmente mais complexa, porque novos desafios vêm surgindo, e exatamente por serem novos, e até inesperados, deixam os pais perplexos, sem saber como agir para enfrenta-los. Às vezes, não fica claro nem mesmo os riscos que podem trazer. Então, deste ponto de vista sim, considero que esteja mais difícil, mas de qualquer modo, a base maior da educação dos filhos não mudou, por isso a questão dos limites, que abordo na obra, tornou-se ainda mais importante, exatamente dados os novos perigos que vêm surgindo.

As crianças de hoje em dia já crescem conectadas em tablets, celulares. Muitas vezes, os aparelhos são até uma forma de os pais distraí-los quando não podem dar a atenção devida. De que forma essas novas tecnologias interferem no desenvolvimento da criança? Como utilizá-las de forma equilibrada?

Na verdade as crianças não “nascem conectadas”. Mesmo metaforicamente é importante não repetir frases feitas, porque acabam fazendo parecer verdade o que não é… São os pais que permitem aos filhos se conectarem e, em alguns casos, até incentivam o uso precoce da web, sem se preocuparem com os riscos a que estão submetendo suas crianças. Boa parte dos pais das novas gerações não estão dispostos a deixar de lado o que gostam e querem fazer (incluindo aí, claro, uso de celulares e redes sociais), para educar suas crianças. De fato, educar é uma tarefa desgastante e repetitiva. Razão porque muitos acabam permitindo o uso precoce das telinhas, na medida em que os filhos ficam “comportados” e entretidos horas a fio. A meu ver, há aí uma crise de responsabilidade grave, porque a web é um mundo inesperado, atraente e sem fim, pleno de riscos para os quais crianças e mesmo boa parte dos adolescentes não estão preparados para enfrentar.

Que vantagens práticas “Limites sem trauma” oferece para os pais de hoje?

O livro será extremamente útil a todos os pais, porque deixa claro que as crianças precisam aprender, e cedo, a discernir o que podem e o que não podem fazer. É exatamente o que ensino no livro: como, quando e porquê dizer não. E como agir para alcançar este fundamental objetivo da educação. É um instrumental para a ação parental; além disso, dá muita segurança aos pais, tornando-os seguros quando precisam negar, proibir e mesmo sancionar a criança ou o jovem. Vejo com muita preocupação as consequências da ausência da autoridade paterna na sociedade: há um sensível aumento nos quadros de desequilíbrio emocional, depressão, suicídio e falta de perspectivas entre os jovens – e isso tem relação direta com a falta de limites na educação (entre outros fatores). Além disso, percebe-se que tais problemas emocionais são perceptivelmente mais frequentes entre os que crescem voltados apenas para seus próprios interesses. Por isso, a ação dos pais tem que ser imediata. O livro responde a essa necessidade de forma inequívoca: é ler e colocar em prática!

O que é a autoridade paterna em seu melhor sentido?

É ter equilíbrio, segurança e clareza dos objetivos da educação parental.  É preciso saber o que trabalhar com os filhos. A autoridade parental é decorrente da própria função. Pai e mãe são autoridades em si. As pessoas tendem a pensar na palavra autoridade como algo negativo. Esquecem-se, porém, que crianças não nascem com um código de ética. Não têm noção do que podem e do que não podem fazer – síntese bem simplificada do que seja a ética. A autoridade paterna existe e deve ser exercida para orientar, proteger e educar. Dar limites é difícil e é um exercício que tem que ser constante, razão porque muitos esmorecem ao longo do caminho, mas não podem e não devem desistir. Demora, mas compensa muitíssimo! Também percebo que os pais têm muita dificuldade em saber quando e como dar limites. Daí a importância da obra, que é direta e ajuda demais nesse sentido. Tenho muito orgulho em dizer que estou assistindo a terceira geração de pais educando os filhos seguindo as orientações de Limites sem Trauma…

A ideia de que, ao nascermos, não temos noção do certo e do errado confirma que somos, invariavelmente, um produto do meio?

Em termos éticos, com certeza somos produto do meio. A criança não sabe o que pode ou o que não pode fazer. Ela até intui algumas coisas, mas, por exemplo, se pegar besouro nas mãos é possível que comece a arrancar perninha por perninha, sem saber que está causando sofrimento, porque a infância é hedonista e ego centrada. É preciso que alguém, os pais no caso, lhe diga para não o fazer; são os pais os primeiros a despertar na criança a empatia, mostrando que dói, machuca – e, especialmente, que ela não tem direito de fazer isso com qualquer ser vivo. É a gênese da ética – ensinar no dia a dia o que é certo e o que é errado, de preferência pelo exemplo e com afeto. A criança não é boa nem má por natureza. Só não está socializada. Por isto, é produto do meio – ela será o que o meio, aliado às suas características inatas, fizerem dela.

Os pais precisam sentir-se culpados quando um filho se torna bandido, marginal ou desonesto?

A ideia genérica de culpa me parece perniciosa, porque leva os pais a ficarem com medo de agir, por se sentirem culpados por tudo que acontece com os filhos. É preciso que ajam educacionalmente desde cedo sim, mas conscientes de que existem outras variáveis, além da educação que interferem na formação de um indivíduo. Senão, como se explicaria que em uma família com cinco filhos, quatro sejam corretos, éticos e trabalhadores e um, apenas um, se transforme na ovelha negra da família? Além da ação parental existem características inatas que interferem; assim como fatores sociais. Todos, em conjunto, atuam na formação do ser humano. Seria uma simplificação inadequada atribuir aos pais tudo que acontece. Por outro lado, é impossível minimizar a importância afetiva e social do trabalho da família.

Nos países pobres como o nosso, pouquíssimos pais têm acesso a orientações tão preciosas quanto estas que você dá. Estamos condenados às distorções?

Conhecer, aprender e se aprofundar são fundamentais: compreender o porquê das coisas faz muita diferença, dá segurança. Existe, porém, algo que se chama intuição, assim como existe o amor. Pais que nunca estudaram podem ser incrivelmente bons pais, assim como pais que têm alto nível educacional podem ser “maus” pais, por exemplo, aprovando invariavelmente tudo que os filhos fazem, ou comprando tudo que lhes pedem. Cada caso é um caso.

Há casos em que os pais não agem adequadamente no desenvolvimento da criança durante as primeiras fases da vida e, quando surgem consequências negativas, verificam que erraram. O mau quadro a que a criança chegou pode ser revertido?

Enquanto há vida, há esperança! No entanto, é mais difícil um adulto mudar do que que uma criança. Então se pudermos, desde cedo, ensinar bons hábitos de estudo, higiene e organização, por exemplo, teremos mais chance de alcançar bons resultados em menor tempo do que se tentarmos reorganizar tudo quando a criança já está acostumada a fazer as coisas na hora e da forma que bem entende. Como afirmei, mudar um mau hábito exige mais esforço do que instalar desde logo bons hábitos. Se a criança aprendeu que pode dormir na hora em que bem entende, quando se tentar estabelecer um horário para ir para a cama, será mais trabalhoso, porque até o ciclo do sono já poderá se ter alterado. Mas é possível sim, desde que com persistência e determinação. Saber qual é o seu objetivo como pai é o melhor começo!

Comentários
Posts Populares

Este website usa cookies para melhorar a experiência do usuário. Navegando neste site você consente com a nossa Política de Privacidade.

Leia Mais