Entrevistas

“Precisamos ocupar a política, nos envolvermos com ela e ir além dos jogos de poder”

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Por Júlio Lubianco

Da candidatura a governadora do Rio pelo PT, sem nunca ter enfrentado uma campanha eleitoral, a filósofa e escritora Marcia Tiburi faz de si mesma cobaia de um experimento, que apresenta ao leitor em “Delírio do poder – psicopoder e loucura coletiva na era da desinformação”, o terceiro livro da série de reflexões sobre a política contemporânea iniciada com “Como conversar com um fascista” e “Ridículo político”. Passada a eleição, na qual ficou em sétimo lugar com 447.376 votos, ela se despe da máscara de candidata que se obrigou a usar e reconhece o seu sentimento de inadequação, na tentativa de refletir sobre o processo eleitoral, suas práticas e os resultados. No livro, Tiburi revive criticamente episódios da sua campanha para compreender o momento político atual, marcado pela profusão de fake news, mentiras e manipulações.

 Você diz que “no delírio coletivo em que vivemos atualmente, as pessoas se tornam cada vez mais alienadas da linguagem. Falam a mesma língua, mas lhes falta uma dimensão. São incapazes de perceber figuras de linguagem”. E isso se aplica de uma forma ampla na sociedade, não apenas a pessoas com menor escolaridade, como se poderia supor. Qual a responsabilidade da educação nesse aspecto?

Essa é uma questão que eu já havia mencionado em “Ridículo Político”, publicado pela Record em 2017, em que analiso a capitalização do ridículo. Eu discutia a ascensão do ridículo tornada possível pelo rebaixamento da capacidade de ironia que implica um jogo complexo de inteligibilidade. Não é a toa que, em termos filosóficos, a ironia é método. Na contramão, as pessoas caíram com Bolsonaro e Trump em uma espécie de armadilha da graça, do que não parece sério, do que soa absurdo enquanto, ao mesmo tempo, se deixavam levar pelo literal. Mas isso tem história, Berlusconi na Itália e, antes, fascistas e nazistas sempre nos pareceram apenas figuras patéticas e que não tinham a menor chance de chegar ao poder.

A responsabilidade disso tudo está na educação e na formação cultural que precisam andar juntas. Se a educação, seja pública ou privada, não formar para o pensamento crítico e analítico, a sociedade corre sérios riscos. O ensino das chamadas humanidades leva as pessoas a um adensamento cognitivo que incide na formação subjetiva. Há muito tempo professores, intelectuais, artistas têm denunciado a falta de reflexão e de sensibilidade, algo que você alcança pela leitura da literatura, da filosofia e da poesia, pelo ensino de artes, de teatro, de música. Precisamos melhorar as condições da nossa sensibilidade. A educação e a cultura contribuem para isso. E é evidente que tudo isso é muito difícil em uma sociedade abusada pelos meios de comunicação de massa.

“No mundo da pós-verdade, a guerra será psíquica. Vencerá quem for mais manipulador”. Nesse cenário, qual o papel que cabe aos que caminham do lado da ponderação, da reflexão e dos princípios democráticos?

Precisamos estar atentos. Não devemos nos surpreender com mais nada. A cada vez que Bolsonaro se manifesta ele o faz com a intenção de perturbar as emoções e as ideias da população. Falo Bolsonaro, mas me refiro a um estereótipo como em geral são as personalidades que padecem da síndrome autoritária. Há muitos políticos e cidadãos comuns que o imitam fazendo uso dessa tecnologia política que deu certo no seu caso fazendo com que ele chegasse ao cargo máximo da nação. Falar de modo violento sobre violência é a nova metodologia do sucesso político. Ele descobriu que um significante vazio, que é a violência, se preenche com mais significante vazio até a implosão. Soluções para problemas produzidos pelo ódio não interessam. O discurso de ódio que estimula o ódio é o que interessa no projeto de dominar as massas. Muitos se sentem locupletados nesse processo, não se perguntam se estão sendo autênticos ou simplesmente se deixando levar pelas massas. A intenção desse projeto de poder é destruir tudo para dar terreno aos “salvadores da pátria” que virão vendendo o que puderem para pessoas que terão perdido tudo e aceitarão qualquer coisa entregando o pouco que tem. Tem sido assim em vários países em que o neoliberalismo tem sido implantado. Primeiro é preciso levar as pessoas a um estado de desespero e depois oferecer muito pouco por muito dinheiro e a total entrega subjetiva. É assim que as igrejas neopentecostais conseguem conquistar seus fiéis. Eles abordam pessoas que sofrem, que perderam tudo, que estão desesperadas. Esse é um tema para nossa reflexão. O desespero político foi implantado no Brasil e Bolsonaro se apresentou como o “mito”, o “salvador da pátria” para as massas sem noção dos jogos de poder da política. Pessoas que não tem a menor noção das encenações, dos ritos, do modo de aparecer, de falar, de fazer o teatro da política. Falta-lhes uma compreensão básica dos jogos estéticos da política. É evidente que se as pessoas tivessem uma visão de política como construção do comum e da coletividade com respeito aos direitos de todos, estaríamos em outro ambiente mental. Como professora de filosofia, como escritora que viajou o Brasil todo, eu buscava atuar nesse lugar, tentando construir um campo de comunidade reflexiva com as mais diversas pessoas, não só com os grupos acadêmicos. Hoje meu trabalho está inviabilizado por perseguições. Mas ainda há os livros. Precisamos, a meu ver, insistir nisso, na séria reflexão coletiva. E isso implica uma luta por ideias lúcidas e contra as mistificações que vemos nos atuais “gurus” nomeados pelos grupos de extrema-direita que pregam o ódio e a destruição.

O delírio político floresce na incapacidade das pessoas de lidarem com a realidade e suas dores. Você escreve que embora o delírio seja coletivo, a cura deve ser individual. Como furar o bloqueio daqueles que não conseguem enxergar nada que desafie as suas próprias concepções?

Há muito para se fazer, mas às vezes também não há o que fazer. Há casos perdidos de pessoas emocionalmente muito perturbadas fazendo política de um jeito destrutivo e ruim. A meu ver, as pessoas em particular não podem esquecer de cuidar da alma nesse momento. De cuidar da sua vida interior, dos sentimentos, dos amigos, dos familiares, dos amores. Há nesse momento, a tentativa de deprimir e prostrar a todos incapacitando as pessoas para o pensamento e a ação transformadora. É preciso cuidar da alma e transformar esse cuidado de si em política. É preciso reconstruir a sensibilidade e a racionalidade reflexivas. É preciso fazer com que a ética como cuidado de si esteja na base dos coletivos políticos. Os casos perdidos deveriam ser encaminhados a psiquiatras, mas infelizmente eles tomaram o poder.

No livro, você admite sua inadequação como candidata e como política e descreve os seus adversários que encontrou nos debates como pessoas “abjetas”, de quem você tinha “muito preconceito, (…) cada vez mais confirmado”. Nesse sentido, o que configuraria um candidato adequado?

Então, não sei se você lembra de um livro chamado “Filosofia Prática: ética, vida cotidiana, vida virtual” que saiu pela Record em 2014. Naquela época eu dediquei o livro a todas as pessoas que conheciam o sentimento de “inadequação”. O que é essa inadequação? É a sensação que temos na vida de estarmos fora do lugar, de não encontrarmos um lugar no mundo. De estarmos como que atrapalhando alguma coisa. Eu falei bastante no livro dessa condição ao falar da “intrusa” que, a meu ver, serve para pensarmos o lugar das mulheres na política e o lugar de todas as minorias. Os homens brancos e capitalistas de fato tomaram o poder e deixaram muita gente de fora. Inclusive os homens de esquerda que muitas vezes agem como se fossem homens brancos autoritários, inclusive os personagens que, no nosso imaginário, seriam os mais improváveis. Nesse caso, essa reflexão foi feita para dizer que eu entendo por que as pessoas tem tanto nojo de política. Temos que entender com mais profundidade esse sentimento negativo em relação à política. O que será que a gente realmente detesta em política? E apesar disso, devemos entender que não podemos simplesmente nos afastar dela, pois o “nojo da política”  serve sempre aos que se acham seus donos. Por isso, nesse livro eu faço uma distinção entre política e jogo de poder. Então, precisamos ocupar a política, nos envolvermos com ela e ir além dos jogos de poder. Construir a política que queremos em vez de abandoná-la àqueles que se servem dela como bem entendem e com objetivos privados.

A franqueza com que você fala da sua candidatura, inclusive os seus aspectos negativos, é algo raro e talvez só possível justamente porque você não tem a pretensão de se tornar uma política profissional. O reconhecimento de aspectos negativos e complexos não cabe na campanha nem na vida de quem exerce o poder. Nesse sentido, alguém que genuinamente se julga plenamente capaz de exercer o poder não viveria uma espécie de delírio?

Eu sou uma filósofa e o meu compromisso é com a verdade. Mesmo no meu trabalho literário sempre trabalho com a questão do que é verdadeiro e do que é falso. O que é a verdade em tempos de pós-verdade? A verdade foi simplesmente descartada? Que política deve existir com base na verdade? Eu, pessoalmente, não tenho interesse em nada diferente disso. Aí vem um problema novo. Se eu tivesse vencido a eleição, eu ainda falaria a verdade, mas será que eu continuaria sendo governadora? Seria deposta como Dilma? Seria morta como Marielle? Desde o começo do ano de 2018 eu venho sendo vítima de Fake News e isso é mais do que uma ironia do destino a ser elaborada por uma professora de filosofia que sempre trabalhou com a ideia de que a verdade deve ser buscada. Lula disse algo muito importante nesse sentido, ele disse que precisamos restaurar a verdade no Brasil. Nesse ponto eu estou de pleno acordo com ele. E é claro que quem se dedica à política apenas em nome do poder, está vivendo algo muito problemático que eu busquei analisar relendo a loucura e o delírio como categorias políticas. No fundo de todo poder há algo de delírio sim, mas a política não precisa se reduzir a isso.

Há várias menções a Graciliano Ramos e a “Memórias do Cárcere”, principalmente quando você se refere à campanha eleitoral. Sentiu como se estivesse num cárcere enquanto candidata?

“Memórias do Cárcere” foi o livro que eu escolhi para me acompanhar naqueles meses de campanha. A obra de Graciliano é das mais importantes que temos em nosso país. Graciliano foi o autor cuja sensibilidade me ajudou a atravessar o tempo da campanha, sua estranheza, sua luz e sua sombra, sem me perder.

Não era a sensação de uma prisão o que eu tinha, embora eu meditasse todo o tempo na prisão injusta do presidente Lula, a quem dedico o livro e quem me presenteou com uma linda apresentação. Você leu o capítulo em que falo de Lula e Dilma quando estive em visita a Lula em setembro do ano passado. Houve esse momento, em que nós três estivemos na cela. Para mim é uma imagem forte, dialética, que eu precisava elaborar.

Mesmo tendo exercido o papel de candidata, você não evita críticas ao processo eleitoral, à falta de profundidade, à necessidade de vender otimismo para empolgar e engajar o eleitor e que, de certa forma, operam no nível delírio. Em 2018, vimos um extremo, mas é possível pensar no desenho atual das campanhas e das eleições sem que haja um certo grau de delírio? Collor era o caçador de marajás, com Lula a esperança venceu o medo, etc.

Acho importante a gente separar a publicidade que torna as coisas conhecidas, o que é normal em um mundo livre, do abuso da propaganda que configura tentativas de capturar de qualquer forma a adesão psicológica e ideológica dos outros. Uma coisa é mostrar o que existe e sugerir uma possibilidade, outra coisa é tentar aprisionar por meio daquilo que se faz ver. Nesse caso, podemos dizer que o delírio não foi determinante nas campanhas que conhecemos no passado. A honestidade ou a desonestidade dos slogans não configura um delírio. O delírio está no ponto fora da curva entre honestidade e desonestidade. Não se trata mais disso quando se inventa uma mamadeira com um pênis no lugar da chupeta e se atribui sua invenção ao adversário. O delírio está no ponto em que já não podemos discutir nada na ordem ética porque se extrapolou do que era conhecido. O problema que eu estou apontando não é particular, mas de um sistema em que o cinismo se tornou a nova ordem e fez desabar parâmetros de compreensão da própria realidade. Hoje você vê o fascismo crescendo e as pessoas aderindo a ele com orgulho e isso extrapola do sentido democrático da sociedade baseada em um mínimo de respeito. Não se trata mais de uma simples publicidade o que estamos vendo ser feito hoje.

Você diz que conheceu Dilma pouco antes do golpe, e que as pessoas dizem que ela mudou desde que deixou a Presidência, parecendo mais leve uma vez livre do papel de presidenta que era obrigada a exercer diante dos seus algozes. No fim das contas, se sente pessoalmente aliviada por não ter chegado ao poder?

Não. Eu preferia ter vencido. No meu sonho, eu faria o melhor governo e criaria outros parâmetros para a reinvenção da política e da vida em geral no Rio de Janeiro. Mas isso era um sonho. A realidade que se está vivendo no Rio de Janeiro é mais parecida com um pesadelo em que personagens paranoicos transformam a vida em um inferno, em que o egoísmo e o assassinato passaram a ser elogiados. Eu adoraria ter vencido a eleição e construído outra história.

 

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