Entrevistas

“Se o humor pode ser útil para aproximar as pessoas da história, por que não?”

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Por Júlio Lubianco

Quem nunca leu pelo menos um trecho da carta de Pero Vaz de Caminha, o primeiro relato histórico do descobrimento do Brasil? E quem também não se entediou com as datadas construções do nosso mais antigo escriba, numa época em que storytelling estava longe de se tornar moda? É exatamente por isso que figuras como Diogo Dias passaram completamente despercebidas na história do país. Navegador da esquadra de Pedro Álvares Cabral, ele foi o mais, digamos, animado entre os primeiros portugueses que passaram por aqui, cuja empolgação ao confraternizar com os índios de Porto Seguro foi tanta que ganhou menção na carta oficial ao rei. “Por que falamos tanto nesses insuportáveis Pedro Álvares Cabral e Pero Vaz e tão pouco em Diogo Dias, inventor do flerte, pai do carnaval, forrozeiro, axezeiro e chicleteiro?”, questiona Ricardo Mioto em “Breve História bem-humorada do Brasil”.

Como jornalista, Mioto é treinado em enxergar o curioso, o diferente e, muitas vezes, o engraçado naquilo que para outros é banal e corriqueiro. E foi essa habilidade que usou para escrever o livro, uma releitura anedótica da história do Brasil, cheio de referências atuais.

O que é mais difícil na hora de escrever algo com o objetivo de ser engraçado?

Por mim, tinha piada até nos livros do Padre Marcelo. As pessoas são muito informais e engraçadinhas na hora de contar alguma coisa no bar, mas na hora de escrever viram uma espécie de Michel Temer, cheias de formalidades e construções gramaticais meio quadradas.

Um livro sobre história do Brasil deveria quase obrigatoriamente ser engraçado, porque somos um povo muito engraçado. Veja um exemplo: estou com o Twitter aberto aqui agora. Nos Estados Unidos, o trending topic é um escândalo do Trump alugando imóveis para governos estrangeiros. Aqui no Brasil, o assunto que está bombando é o Faustão porque alguém escreveu que sonha com um programa de moda apresentado por ele que se chame “O Look Meu”… É um país maravilhoso. Mesmo tendo tomada de três pinos.

Que fato histórico mais te surpreendeu na pesquisa para este livro?

Eu passei por certa desconstrução da imagem do Dom Pedro II. A gente acha que o barbudo era esse estadista tropical, uma espécie de Churchill de chinelo havaiana e cachaça Pitu. Os historiadores tendem a ser generosos com ele.

O cara realmente era culto, honesto, tinha uns amigos até espertos como o Victor Hugo ou o Charles Darwin. (Tô eu aqui chamando o Darwin de “até esperto”…)

Mas você começa a mergulhar na história e vê que ele acabou bem na foto mais porque a maior parte dos outros líderes da história deste país tinham o nível intelectual e o carisma de um desentupidor de pia. Considerando isso, é até difícil criticar o Dom Pedro II. Você se sente como naquela cena de Monty Python em que os judeus estão falando dos romanos: “Tirando o fato de o Dom Pedro II ser inteligente, justo, democrático, defender a liberdade de imprensa, conciliador e econômico no gasto de dinheiro público, o que é que ele tinha de tão especial para ficar sendo elogiado, hein?”

O ponto, porém, é que foi no reinado dele que ficamos para trás dos Estados Unidos. O crescimento foi pífio, ficamos estagnados em renda per capita. Isso porque os americanos fizeram um esforço muito grande de educação da população, enquanto o Pedrão II estava cagando e andando para isso. Como eu digo no livro, ao fim do reinado dele, apenas 17% da população brasileira era alfabetizada, contra 87% da americana. Ele também não criou nenhuma universidade. Não adianta nada ser amigo de Darwin e frequentar sarau de poesia contemporânea da Revista Piauí se for pra fazer uma pataquada dessas na hora de gerir o país.

Você escreve: “por que falamos tanto nesses insuportáveis Pedro Álvares Cabral e Pero Vaz e tão pouco em Diogo Dias, inventor do flerte, pai do carnaval, forrozeiro, axezeiro e chicleteiro?” Como dar a Diogo Dias a notoriedade histórica que ele merece?

Comprando e distribuindo meu livro, obviamente! Em lotes!

Qual o herói nacional mais engraçado na sua opinião: Tiradentes, Pedro I ou Marechal Deodoro? E por quê?

 Curioso você ter listado esses três pervertidos. Diz bastante sobre o entrevistador. Ainda bem que a entrevista é por email.

Do Tiradentes eu gosto menos porque é mau elemento. Rancoroso, reclamava que não tinha sido promovido no Exército porque era mais feio do que os outros. Enganou uma moça pobre e órfã dizendo que ia casar com ela, aí levou pra cama e deu um perdido. Era taradíssimo por viúva, não podia ver uma senhora mais de idade, parecia o Emmanuel Macron, e também vivia enganando as coitadas.

Curiosamente, o Marechal Deodoro também era cheio de rancor e chegado numa viúva. Ele era monarquista, mas proclamou a República só para prejudicar o primeiro-ministro de Dom Pedro II, o Gaspar da Silveira Martins, com quem tinha disputado e perdido o coração de uma jovem senhora gaúcha cujo marido tinha morrido. Felizmente Tiradentes e Deodoro viveram em épocas diferentes, imagina esses dois juntos no Baile da Saudade. Não ia sobrar dentadura no lugar.

Mas o meu favorito é o Dom Pedro I. Este sim era da filosofia “que seja eterno enquanto duro”, pinto-louco de tudo, teve uma porrada de amantes, teve quase vinte filhos de diversas mulheres e assumiu todos, numa época em que isso era muito raro, em que filho de casamento quase nunca era aceito. É um fato lamentável que ele tenha sacaneado tanto a imperatriz Leopoldina, que sabia de todas essas traições e era uma mulher muito correta. Mas, pelo menos, aparentemente Pedro I se arrependeu quando ela morreu, inclusive foi encontrado uma vez chorando feito um bebê abraçado com uma foto dela, chegou a escrever que “toda minha perversidade acabou, que não hei de novamente cair nos erros em que já caí”, percebeu que não valia a pena perder um grande amor em troca de aventuras sexuais. Meio tarde demais, mas a idade amolece o coração (e outras coisas), né?

A Era Vargas ensina que ““A gente bebe só uma”, “o problema não é você, sou eu” e “vou chamar uma constituinte em breve” são coisas nas quais você nunca deve acreditar muito”. O brasileiro é, no fim das contas, mulher de malandro?

 É um pouco. Mas você moraria na Suécia? No Brasil pelo menos o clima é bom. É meio que nem fazer xixi na piscina: você sabe que tá tudo errado, mas que quentinho gostoso aqui.

É um livro de humor e os leitores esperam ler muitas piadas. Mas num trecho sobre a Proclamação da República você faz questão de ressaltar que “parece piada, mas tudo que estou contando aqui, tirando obviamente algumas frases e um comentário absurdo ou outro (não, Deodoro não tinha uma Pampa nem Floriano tinha um Corcel…), é absolutamente verdade”. Por que você sentiu a necessidade de explicar isso?

 Porque a história parece boa demais para ser verdade. Um monarquista que não ia com a cara da República a proclamou em prejuízo de um rei que não ia com a cara da monarquia. Motivado por uma viúva. E pior: quando o Dom Pedro II recebeu a notícia, foi lá… ler um livro, que era o jeito dele de falar “tá bom, então fica com essa merda”.

A história da FEB tem várias passagens reais que são muito engraçadas, apesar de todo o drama dos pracinhas na Segunda Guerra Mundial. Que cuidados você tomou para equilibrar o humor e o respeito à memória daqueles que lutaram pelo país?

 Os pracinhas foram os que mais sabiam rir deles próprios. Eles que sofreram com o despreparo do governo e dos comandantes do Exército brasileiro. Como diz o Eduardo Bueno, foi uma parceria Caracu: o Getúlio –que resolveu entrar na guerra e ganhou uma siderúrgica dos americanos– entrou com a cara, e os pracinhas entraram com o… pois é.

Eu adoro um poema publicado por um pracinha num jornalzinho que a Força Expedicionária Brasileira tinha para motivar os soldados. O cara tava lá em pleno front e escrevendo isto:

“Eu quero apresentar os nossos rapazes/ Valentes bebedores de uma pinga/ São guerreiros também. Já faz um ano/ Ou, se não fez, deve faltar pouquinho/ Que, em patrulhas na casa do italiano/ Não achando o inimigo, prendem o vinho.”

O Brasil é o único lugar do mundo em que a principal metralhadora das alemães, a MG42, ficou por todo mundo conhecida como “Lurdinha”, porque um pracinha, logo no início da participação brasileira na guerra, um dia se deparou com ela, insensível ao tiroteio ou ao risco iminente de vida, achou que era um bom momento para dizer que o barulho da metralhadora, alto e muito veloz, lembrava bastante o tom de voz da sua ciumenta namorada, a Lurdinha… (E provavelmente ainda chegou em casa e capitalizou dizendo pro mozão que, na hora em que mais esteve perto de morrer, só conseguiu pensar nela, pra você ver que nesta vida o importante é sempre contar a história com jeitinho.)

Como o humor ajuda a entender melhor a história do país?

 O humor ajuda tudo. A puxar papo no bar, a enrolar o chefe e espero que a vender livro. Os livros de história muitas vezes são muito quadrados, o que é uma pena, porque a história do Brasil é inegavelmente muito divertida. Os historiadores não gostam muito de textos menos formais. Como escrevi, muitas vezes reagem a jornalistas escrevendo sobre sua área como pinscher em dia de visita: tremedeira, ódio e taquicardia. Mas a verdade é que fazer as pessoas entenderem como chegamos até aqui é fundamental para um país mesmo. Se o humor pode ser útil para aproximá-las da história, por que não?

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