Entrevistas

“Sou alguém que encarna os demais”, declara Nélida Piñon

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No ano em que completa 30 anos de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, a primeira mulher a dirigir a casa de Machado de Assis, a escritora Nélida Piñon conversou com o blog da Editora Record sobre seu novo livro. Uma furtiva lágrima teve como ponto de partida um diagnóstico médico equivocado que despertou recordações sobre a vida e suas influências artísticas e literárias. A autora lembrou sua relação com o Rio de Janeiro e com Gravetinho, mascote que a acompanhou por onze anos, a quem dedica o livro. A conversa também aborda a influência em sua obra de temas como as viagens e a espiritualidade. Com incomparável lucidez e numa mensagem de esperança, Nélida comenta sobre a situação do país:

“Não podemos permitir que a história do Brasil, com seus fracassos, nos engolfe. Não nascemos para a pobreza, para a mediocridade. Estamos em período difícil, mas não vamos ficar nisso a vida inteira. Um país que deu Machado de Assis, grandes escritores, grandes músicos, grandes compositores, grandes artistas, grandes pensadores, Tobias Barreto, Gilberto Freire, Sérgio Buarque, tanta gente maravilhosa. Nós podemos aceitar que uns medíocres, uns políticos de terceira categoria nos sufoquem, nos asfixiem? Não”.

Confira abaixo outros trechos do depoimento:

A AUTORIA

“Não é uma ruptura porque eu venho me enunciando esteticamente ao longo dos últimos tempos. Eu assumi nesse livro como no Livro das horas, no Coração Andarilho, uma autoria plena, ou seja, sou eu falando. É Nélida Piñon quem fala, ou melhor de tudo, é Nélida. Eu prefiro Nélida. Nélida Piñon é a escritora que escreve seus romances, suas ficções e seus ensaios. Mas nesse último livro, sou eu assumindo uma autoria que conta a minha história a partir, no caso de Uma furtiva lágrima, de uma sentença de morte. Estou sempre escrevendo então a partir disso eu fui aprimorando meu repertório. Porque todos nós vamos acumulando ao longo da vida uma experiência positiva e negativa, uma experiência com várias camadas. É como se cada um de nós fosse uma arqueologia. Descobrindo a cidade de Tróia, por exemplo. O Schliemann sabe que Tróia existiu, mas não havia como provar. Ele vai escavando, escavando, descobre a primeira cidade, a segunda. Mas não é. Até que ele vai a Tróia de coração, a Tróia da grande batalha entre Aquiles e Heitor. Então, esse repertório é muito importante na vida de todos nós.

Fui pautada nesse livro por uma alta sensibilidade. Para uma sensibilidade, claro, que é capaz de reproduzir várias realidades que vivi, como também as circunstâncias da dor e as circunstâncias do prazer também. E eu gosto muito da ideia da Nélida autora falar de si porque eu acho ao falar de si ela sabe que está falando de todos. Eu não sou singular ao suficiente para me auto abastecer. Eu sou alguém que encarna os demais. Eu sou um ser coletivo. Agora, eu sou também um ser individual, como todos somos. E essa singularidade é muito importante para desvendar o coletivo, para entrar em conflito, quase em choque, como dizem, o famoso choque civilizatório. Eu fui contando mais do que a história da minha vida, a história dos meus pensamentos, a história do meu coração, como eu vejo o mundo e como o mundo me vê na medida em que eu penso nele. Se eu falo do mundo, o mundo me viu também. Há o encontro histórico entre o mundo de fora e o meu mundo, que sou eu.

Esse livro fala muito sobre o mistério da fé, fala sobre os sabores, os assombros amorosos. Fala das conjunturas políticas, no sentido assim quase grego, como nós nos comportamos em sociedade. O conceito da beleza, o conceito da imortalidade. E como é morrer, como é se despedir da vida. Que é o meu caso, como eu imaginei que eu iria me despedir. Como é que eu fiz as minhas disposições testamentárias. É um livro que oferece tantas perspectivas, que eu tenho a impressão que tem agradado muito.

O DIAGNÓSTICO EQUIVOCADO

“Tenho percebido que realmente a minha intensidade, se me permitem dizer, não é por vaidade, mas para uma brasileira, a vida que eu tive, tanto a oficial quanto a íntima, foi uma vida muito rara, extremamente singular. Desde menina eu comecei a viajar, eu conheci pessoas muito interessantes. Não só intelectuais, as pessoas da vida. Para mim um escritor é igual uma pessoa da vida. Gosto de cotejar os dois e todos eles me abastecem. Então eu descobri que essa vida foi muito interessante. Só posso dizer que essa vida que aparentemente deixei para traz, de verdade eu não deixei porque ninguém deixa para traz nada do que viveu. Isso é uma coisa fundamental e eu deixo isso muito claro. Tudo que fez você, sendo você uma composição complexa, não desaparece. Você não tem como renunciar à sua própria vida, à sua própria história. Isso é muito interessante. Levantando a sua questão, não quer dizer que você viva no passado. Eu não vivo no passado, mas o passado está ao meu lado. Ele me ajuda a levar em conta o que eu estou vivendo. O passado assopra, ele tem um discurso indiscreto. Ele pergunta se você se lembra que você fez isso enquanto você está vivendo. De repente, eu faço uma analogia. Aquilo que ficou para traz eu comparo com o que está aqui na frente e me enriquece. Fecunda à minha maneira de viver o presente. Portanto, não se apaga o passado. E nem é necessário. Claro que há um certo passado que pode ser dolorido, mas a vida é isso. Você tem que buscar o equilíbrio. Eu sempre pus o passado em consideração, mas para não ficar entronizando o passando. Ele está ai e eu vou a ele quando preciso. É como um vestido do meu armário.”

A VIAJANTE A ESMO

“A minha primeira viagem, sabem quem fez? O meu avô Daniel. Herdei a viagem que ele fez aos 13 anos quando atravessou o Atlântico para chegar ao Brasil para fazer a América, para ganhar sobrevida. Eu sou muito perseguida por essa noção da luta desse menino bonito, olhos azuis, temperamento forte, que deixou a Galícia, talvez pelo porto de Vigo, isso eu nunca soube, mas imagino, e atravessou o Atlântico para me dar a majestade da língua portuguesa de presente. Essa terá sido a minha primeira viagem. Eu me apossei da viagem do meu avô e das outras viagens, e comecei a viajar muito cedo. A viagem para mim, mais do que representar um translado geográfico, é a descoberta das outras civilizações, e descobrir que nós brasileiros fazemos parte desse contexto mundial, universal. Nós somos herdeiros de todas as civilizações. Sem essa noção, você sofre fraturas terríveis.

Ter viajado fisicamente, geograficamente ou não, ajuda a minha imaginação. Desde menina me descobri uma criança, depois uma mulher de dupla cultura. E essa dupla cultura não me aprisionou, não me empobreceu. Ao contrário, me deu um Brasil pleno e fecundo, como me deu a Espanha, a Galícia, aqueles países antigos, os visigodos, Portugal, os suevos, os romanos. Eu incorporei essa gente toda à minha sensibilidade cultural. Fui ampliando o meu horizonte e não me limitei as paredes da minha casa, as paredes da minha cidade, do meu país, que eu amo acima de tudo. Eu ampliei as paredes. Aliás, eu derrubei as paredes. Eu vejo um horizonte enorme e que é propício a fomentar a minha imaginação. Portanto, as viagens físicas e as imaginárias permitem que eu possa vir a ser ou esteja sendo a escritora que sou. ”

O RIO ANTIGO

“É verdade. Tive a felicidade, porque esse avô Daniel, que eu falo tanto, junto com a minha vó amada me buscavam em casa cedo e me levavam para a cidade. O meu avô Daniel queria que eu conhecesse os restaurantes, o Rio antigo, me levava aos restaurantes espanhóis, portugueses, árabes, alemães. Eu frequentava o que é hoje o bar Luiz, naquela época era o bar Adolfo. Eles mudaram de nome por conta dos alemães, da guerra. Era uma maravilha. As pessoas acham engraçado eu usar essa imagem, mas tive a sensação que ele me educou como se eu pudesse vir a ser uma bela cortesã. Claro que não era assim, mas ele me ensinou bebidas, me ensinou a preparar o charuto dele, me ensinou a ir ao restaurante e dizer “escolha a mesa”, então eu escolhia a mesa, mas temerosa de errar. Ele dizia “não gostou da comida, devolve”, então eu vi que é importante devolver uma comida que não esteja à altura da sua expectativa. Vi, por exemplo, o García Márquez devolvendo duas para três garrafas de champanhe. Essa aprendizagem veio também dessa geografia do Rio de Janeiro que eu frequentei.

Vila Isabel foi muito importante para mim, porque eu tinha a sensação que o mundo estava ali. Tanto que a minha família me prometia: “um dia você vai visitar a Espanha”. Era uma promessa, uma urbe sagrada, uma Shangri-La, que não deixa você a envelhecer, era uma coisa assim. Minha mãe e meu pai me levavam a Copacabana e eu dizia assim “mãe, logo depois ali do litoral, depois da praia, a Espanha está ali, não é?”. Minha mãe respondia “Não, meu bem. Para chegar a Espanha nós temos que atravessar dias e dias num barco”. Então, Vila Isabel me ensejou que eu desenvolvesse esse lado, assim como você falou, os meus mitos. Porque eu sou uma mulher cercada de mitos e por isso que eu gosto muito do mundo rural. Eu acho que o mundo urbano tem menos condições de criar mitos. Os mitos rurais são mais eternos, porque estão associados aos descampados, as cidades pequenas. Vila Isabel ficou sendo assim um lugar bonito, onde eu fui feliz. Tinha coleguinhas, comia as comidas galegas, comia também o feijão. Eu sabia dali para passear, minha mãe me levava para andar de cavalinhos no Jardim do Alá e depois nos mudamos para vários lugares. Eu me mudei muito, mas sempre voltávamos a Vila Isabel para visitar meus avós. Foi realmente o lugar do meu coração.”

GRAVETINHO

“Sempre tive uma atração pelos animais. O animal que eu mais amei até chegar a esse amor incondicional por cachorro, foi a vaca. Amei as vacas, porque quando  fui para a Espanha, particularmente a Galícia, fiquei nas aldeias. E lá na casa da minha vó tinham as vacas. Elas são a mãe da humanidade, tm um olhar triste, paciente, tolerante, um olhar milenar. A sensação que eu tenho olhando as vacas é que nós nascemos delas. Talvez o paraíso começou ali, e nós o perdemos quando as relegamos  a um segundo plano. Então, amei as vacas, depois adorei os cavalos. E assim foi sendo com os bichos, eles sempre tiveram uma força na minha vida. Já tinha tido outros cachorros, o Dom Quixote, mais dois ou três, mas eles tinham um lugar subalterno, ficavam no quintal. Já a partir do Gravetinho, que foi uma revelação da minha vida, ele entrou para se apossar da casa, ele era dono da casa. Quando resolvi ficar com ele, que foi uma decisão muito séria, o chamei e falei “Fique aqui Gravetinho, olha para mim, presta atenção no que estou lhe dizendo. Eu quero lhe dizer o seguinte, tomei uma decisão muito séria. A partir de hoje você vai ficar comigo para sempre, você é da família, a casa é sua, tão sua quanto minha”. E foi assim. Foram 11 anos de convívio maravilhoso. Eduquei o Gravetinho Piñon para ser mal-educado, e ele correspondeu. A Susy veio depois, uma maravilha na minha vida também. Agradeço as preciosidades que ambos me deram. Gravetinho, Susy e o mundo animal, os cachorros, me ajudam a crescer. Cresci com eles. ”

A ESPIRITUALIDADE

“É muito interessante. Quando eu invadi o universo grego e o universo hebreu, entre outras coisas eu me deparei com os Deuses gregos e o mundo monoteísta dos hebreus, por exemplo, e fui muito menos atraída pelas versões dos Deuses dos romanos. Eu me dei muito com os Deuses gregos e o monoteísmo da religiosidade das três grandes religiões do deserto, por assim dizer. Foram importantíssimas, mas não me condicionaram a uma escravidão teológica, absolutamente, ainda que tenha estudado em colégio alemão, colégio religioso. Li os místicos, o Meister Eckhart, San Juan, grandes místicos que eu conheci a obra. Mergulhei nos padres do deserto do séc. IV. Foi uma coisa extraordinária para mim esse convívio com o Deus deles, os Deuses, porque os Deuses traduziam o mundo para os gregos, e o Deus cristão, monoteísta, também ajudou a traduzir o mundo. Então, eu me beneficiei muitíssimo dessa noção de Deus. E o Deus que eu tenho em mim nunca me escravizou, nunca foi dono da minha consciência, mas me ajudou a respeitar a consciência, a minha e a dos demais. Portanto, tenho algumas admirações por filósofos da religião. São Paulo, por exemplo, acho extraordinário, as epÍstolas dele são brilhantes. A Tereza de Jesus, eu conheço a obra dela toda. Mas não sinto que fui confinada ao pensamento deles, ao ponto de abrir mão do meu. Todos eles me ajudaram a pensar o mundo, o cidadão e a cidadã da esquina. Qualquer documento humano me ajudou a pensar o mundo. Qualquer palavra dita, pronunciada, me ajudou a definir o mundo. ”

AMIZADE COM LYGIA FAGUNDES TELLES

“É uma mulher extraordinária, uma grande escritora, um ser com uma alta noção de dignidade. A ideia da dignidade pauta também a minha vida, que tem muito a ver com direitos humanos. Ter convivido com a Lygia durante tantos anos me fez muito bem. Como ter convivido com outros grandes escritores, que por acaso davam ênfase a humanidade deles. Não eram escritores, vamos dizer, alheios à bondade, à compaixão, à misericórdia. Lygia, por exemplo, Lya Luft também. Estou falando das mulheres, mas escritores homens também, todos me ajudaram a entender melhor a literatura como uma razão de vida. Deram e dão grandes exemplos e pertencem à minha esfera privada. Olho um escritor, de que qualidade estética seja, eu gosto. É meu companheiro de vida. Eu me emociono com meus companheiros de vida. O meu querido Andreazza diz sempre que ele acha, várias pessoas diziam, que eu era uma escritora muito apaixonada pelos seus companheiros de vida. Nunca senti inveja, mesmo dos talentosos, dos prêmios. sempre pensei “Meu Deus, é possível ser grande”.

O BRASIL

“Eu acho que, primeiro, você não pode falar da situação do Brasil de hoje. Você tem que falar dos últimos 30 anos, porque um período foi arrastando o outro. O chamado desastre, as grandes crises brasileiras de hoje provêm do passado, ninguém foi inocente. Todo mundo tem uma grande responsabilidade pelo o que nós estamos vivendo, portanto. A posição do escritor depende muito do temperamento dele. Há escritores que não falam, são recatados, com todo direito, que se expressam através da sua obra, através do seu testemunho escrito. E há outros que falam mais, que expressam quando é necessário. E há momentos também que você fica com certa cautela, não por medo, porque você precisa analisar a história. Não se pode ser frívolo analisando um país como o Brasil, por exemplo. Vivemos nos últimos anos períodos dificílimos, mas estou atenta. Eu me pronuncio em vários lugares, mas só não falo mais do Brasil no exterior. Aqui eu posso falar, lá não. Não aceito que falem mal do Brasil. Sabe por que não? Porque os outros países também não são nenhuma quimera. Passei algum tempo em Portugal. Quando vieram me entrevistar, falei: “Vocês portugueses, vocês espanhóis, vocês franceses, olha como está a França, olha como está a Europa”. Só eles é que podem estabelecer pautas meritórias? E nós? Somos vítimas das nossas debilidades, das nossas fraquezas, da indignidade de nossos políticos? É verdade, mas nós temos condições de dar o passo seguinte. Não podemos permitir que a história do Brasil, com seus fracassos, nos engolfe. Não nascemos para a pobreza, para a mediocridade. Estamos em período difícil, mas não vamos ficar nisso a vida inteira. Um país que deu Machado de Assis, grandes escritores, grandes músicos, grandes compositores, grandes artistas, grandes pensadores, Tobias Barreto, Gilberto Freire, Sérgio Buarque, tanta gente maravilhosa. Nós podemos aceitar que uns medíocres, uns políticos de terceira categoria nos sufoquem, nos asfixiem? Não. ”

PAPEL DO ESCRITOR

“Pode, mas um artista deve ter muito cuidado para não se engajar aos partidos. Os partidos brasileiros não merecem confiança. Eu acho que um artista, um escritor, um pensador tem que ser independente. Ele não pode filiar-se àqueles que de verdade querem usar a sua inteligência, o seu talento, a sua capacidade crítica para operar em seu favor. ”

ACESSO À LEITURA

“Porque o Brasil é um país muito inculto. O povo brasileiro não tem acesso ao livro. Ele não tem acesso a água, a parte sanitária. Ele não tem acesso a quase nada. Só que ele ri, nesse sentido é um povo dócil. Houve sempre um índice de violência, mas o brasileiro não tem recursos, como é que vai comprar livro? Música ele consome, mas a música é uma maravilha, de interpretação fácil. Você entende a música que você escuta, porque a música toca a sua emoção. O livro pode vir a tocar a sua emoção, mas primeiro tem que tocar na sua inteligência. Nas suas faculdades mentais. Então, só isso já explica. E além do mais, não é que seja caro ou não, mas acaba sendo caro para o povo, porque o povo não tem dinheiro.  E a elite não se empenha em ser generosa. Brasília não dá a menor importância à cultura. Eu nunca vi um país cujos os detentores do poder preocupam-se tão pouco com a educação e a cultura do seu povo. Vejam agora, todos os governos, os sucessores. ”

 

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