Palavra da autora

O Diário de Anne Frank e Sonata em Auschwitz

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Por Luize Valente

 

O diário de Anne Frank foi um dos meus primeiros contatos com a literatura sobre a Segunda Guerra, sobre Holocausto. Tinha em torno de onze ou doze anos, quando o li. Sei disso porque nesta época fiz um desenho (preservado graças a minha mãe) de um vagão de carga chegando a um local onde pessoas usando uniformes listrados e soldados com cães esperavam os passageiros.  Muito provavelmente influenciada pelas leituras. O fato é que desde então eu, que não tinha pais ou avós judeus, me conectei com o tema.

 

Ouso afirmar que talvez tenha sido aí que nasceu em mim a vontade de um dia escrever sobre o Holocausto. Anne Frank tornou-se o símbolo de mais de seis milhões de vidas interrompidas sem motivo algum que não o preconceito e a intolerância. Como era possível? Nas páginas do diário havia crença no ser humano, na solidariedade, na bondade, no amor. Por mais cruel e assustadora que fosse a realidade em que ela vivia. Eu não a esqueceria.

 

“Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repetí-lo”, disse o filósofo George Santayana. Passaram-se décadas até que eu finalmente chegasse ao embrião de Sonata em Auschwitz. Um livro sobre a vida num campo de morte. A jovem judia Adele chega grávida ao campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, e lá tem uma filha, que sobrevive graças a ajuda de um soldado alemão.

 

Quando comecei a traçar o perfil da personagem Adele – criada a partir da comovente história de Maria Yefremov, sobrevivente do Holocausto – foi-me natural a lembrança de   Anne Frank.  Sonata em Auschwitz é construído em cima de idas e vindas no tempo. Na primeira volta ao passado, encontramos Adele com 14 anos, na Berlim de 1938, às vésperas da guerra. Anne inicia o diário, em 1942, no dia de seu aniversário de 13 anos. As duas nasceram na Alemanha e foram obrigadas a deixar a pátria fugindo do nazismo. Anne foi para Holanda, Adele para Romênia. As duas eram cheias de sonhos e planos para o futuro. As duas foram mandadas para Auschwitz em 1944. As duas marcharam até o campo de Bergen Belsen.

 

Anne deixou um diário para que soubéssemos de sua história.  Adele é uma personagem de ficção e coube a mim criar sua história. História que vem à tona com a chegada da jovem Amália que, metaforicamente, resgata a vida/diário de Adele.  Adele, aos 75 anos, narra o período sombrio da Segunda Guerra, com os anos que a antecederam e os que se seguiram. E, assim como a Anne que sobreviveu nas páginas do diário, Adele também acredita, apesar de tudo, na humanidade. Para encerrar, tomo emprestadas   as primeiras palavras do diário de Anne Frank: “Espero contar tudo a você, como nunca pude contar a ninguém, e espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda.”

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