Entrevistas

“A construção da memória é fundamental para que os descendentes tenham uma dupla identidade”

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Por Mariana Moreno

Baal é uma história familiar. O patriarca e personagem principal, Omar, narra um drama sempre atual: o da imigração. No final do século XIX, quando seu melhor amigo é capturado por uma milícia para servir no exército inimigo, Omar é forçado a sair do seu país no Oriente Médio. Ao fugir da aldeia, jura que voltará para buscar a família e a noiva.Embarca para os trópicos, atravessa o oceano e começa a vida na mascatagem, como os conterrâneos que emigraram para o Novo Mundo. Valendo-se da sua força física e da inteligência, vence as dificuldades, torna-se um próspero atacadista e constrói um palácio, Baal, “uma joia do Oriente no Ocidente”, para sua filha única, Aixa, e a família dela.

Só que, depois de falecer, os descendentes dilapidam a sua fortuna. O patriarca, que morreu sem poder descansar em paz por causa dos conflitos familiares, vê a guerra do país natal se repetir no país da imigração.Indignado com o comportamento dos netos, Omar os culpa por não se darem conta da sua luta e do alto custo do berço de ouro que lhes proporcionou. Associa a crueldade deles à vergonha das origens. Diz que, além de xenófobos, são desmemoriados, “sucumbiram no fundo negro do esquecimento”. Para se opor a isso, ele relembra a história.

A rememoração o obriga, no entanto, a reconhecer os seus erros. Não se empenhou em transmitir o que aprendeu na travessia e, por preconceito em relação às mulheres, não formou a filha para ser sua sucessora. Valeu-se dela para animar Baal, o seu pequeno império tropical, e não para que o palácio continuasse a existir depois da sua morte e se tornasse o que deveria ter sido, um memorial da imigração.

Por que a escolha do nome Baal?

Por que Baal foi o Deus dos fenícios, que são os ancestrais dos libaneses,  e o protagonista do romance é um imigrante que saiu do Oriente Médio no século XIX para se radicar no Brasil

O protagonista Omar lamenta que não tenha transmitido às gerações seguintes os esforços de sua trajetória e o valor de suas conquistas, sintetizadas na figura do palácio Baal.  E o personagem Henrique é a personificação da negação do passado e do descaso pela história familiar.

O imigrante sofre e quer esquecer o passado. Mas Omar também se entregou ao esquecimento por vaidade.  Um grande senhor não fala do seu sofrimento. O neto de Omar nega as origens por ter sido vítima da xenofobia alheia e da própria, do ódio de si.

 Qual a importância da construção da memória quando falamos de uma família de imigrantes?

A construção da memória é fundamental para que os descendentes tenham uma dupla identidade, a do país dos ancestrais e do novo país. Sou puro sangue árabe, descendente de libaneses do lado paterno e materno. O meu avô paterno me legou o pais dele porque contava histórias. O meu avô materno foi inteiramente omisso e não legou nada.

No livro, o personagem Omar afirma que ‘quem deixa o país onde nasceu está destinado a uma saudade sem fim’. Como essa frase se relaciona com sua própria história, considerando todo seu tempo de vida na França?

Sempre tive saudade do Brasil na França porque a minha pátria é a língua portuguesa. Mas, graças à distância, eu escrevo muito mais do que teria escrito no Brasil. Mato a saudade sem fim escrevendo na língua portuguesa. O resultado são 26 livros, dos quais a maioria publicada pela Record

Você acredita que as pessoas que emigram sempre vão passar por um conflito de identidade, considerando suas vivências em seu país de origem e suas novas referências no país em que escolheram viver? Como isso se deu para você, que é descendente de cristãos libaneses e tem raízes francesa e brasileira?

O maior drama, na minha opinião, é não saber  a língua do país da imigração. O primeiro passo para se integrar é o aprendizado da língua. Mas a língua aprendida é serve sobretudo para a gente se comunicar, ela não é a língua na qual a gente sonha. Trato deste tema nos dois romances em que focalizo a diáspora, em O Papagaio e o Doutor e Baal.  Alguns escritores conseguiram passar da língua materna para outra, eu  nunca fui capaz de escrever em francês, embora a França seja o meu país de adoção.

 A crise dos imigrantes é um dos maiores problemas globais da atualidade. Para além das questões burocráticas e financeiras, como acolher essas pessoas que saem de seus países em busca de uma vida melhor e precisam enfrentar preconceitos e desafios de adaptação, como a barreira da língua e as diferenças religiosas?

Se eu não estivesse no Líbano, neste momento, eu diria simplesmente que a guerra é inevitável e não existe civilização sem direito de asilo. Mas vejo a dificuldade que os libaneses estão enfrentando por causa dos refugiados sírios e palestinos. O acolhimento implica um esforço que não foi feito e talvez não possa ser porque o Líbano tem mil e um problemas. No caso dos países da América do Norte e do Sul que tem a tradição de acolher imigrantes, a situação é diferente.

 

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