Palavra do autor

Não passarão

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Por: Fabrício Carpinejar

Livros são feitos na solidão. Mas jamais estarão sozinhos.

O que se testemunhou na Bienal do Rio no final de semana (7 e 8/9) foi uma inacreditável união de escritores, livreiros e editores contra a censura. Autores que nunca se falavam se deram as mãos. Não houve briga para um selo vender mais do que o outro. A competição deu espaço a um levante de um setor inteiro da sociedade a favor da liberdade de expressão.

Não teve fofocas, barracos e intrigas por holofotes, não houve vaidades nos bastidores do maior evento livreiro do país, mas uma consciência política e democrática de que censurar um só livro é proibir todos os livros.

Manifestos, vídeos, adesivos e roupas pretas transformaram-se nas armas pacíficas em represália ao ato inconstitucional da Prefeitura do Rio de Janeiro de apreender gibis com um beijo gay.

Pairava uma eletricidade solidária no ar entre os corredores do Riocentro. Uma paixão pela pátria da escrita, pelo exercício soberano da língua portuguesa, pelo livre-arbítrio dos leitores. Era como se todos balbuciássemos em segredo, no sotaque do sangue, uma canção de protesto de Chico Buarque, um manifesto da diversidade de Caetano Veloso.

A injustiça foi o único escândalo presenciado na Bienal, porque o beijo que se tornou pivô da censura nada mais é do que um carinho
dentro de um contexto romântico, não pornográfico. Um beijo ingênuo, de primeiro amor, no HQ dos vingadores. Um beijo que não traria nenhuma polêmica se fosse entre pessoas de sexos opostos. Jamais Marcelo Crivella classificaria de libertinagem se fosse um selinho heterossexual.

Em nome da proteção das crianças, cria-se um terrorismo nos pais de que seus filhos estão sendo desvirtuados da sua educação. Forma-se uma epidemia de pânico, de alienação sentimental, insuflada pelas fake news no WhatsApp, de que o Estatuto da Criança e do Adolescente não vem sendo respeitado (o que é uma farsa).

Em nome dos bons costumes, funda-se uma completa distorção: crianças e adolescentes não podem ver um beijo gay porque significa dar o exemplo errado.

Exemplo de quê? De que pessoas do mesmo sexo podem namorar? Isso não é uma realidade? Alguém está mentindo?

Casal homoafetivo pode casar. Casal homoafetivo pode adotar. Casal homoafetivo tem os mesmos direitos de qualquer outro casal. Pode se beijar na rua, pode andar de mãos dadas na via pública, pode se abraçar quanto tempo quiser.

Qual o motivo de tamanha raiva? Segregação! Perseguição! Nazifascismo apontando que um grupo é inferior a outro e deve ser banido.

A atitude teve um caráter ilegal, de negligenciar o próximo. É uma onda de autoritarismo e de estado de exceção avançando sobre as estantes das livrarias. Em seguida, existirá um controle sobre o que se deve escrever. Logo mais, os diálogos e os pensamentos serão monitorados. No fim, ninguém mais vai ter autonomia para se expressar e viveremos apenas a partir de autorização dos altos escalões.

A censura começa aos poucos, constrangendo, fazendo mal-entendidos, coibindo, inibindo enfrentamentos, incentivando um equivocado bom senso, proibindo personalidades de participar de feiras e simpósios, inventando listas secretas de persona non grata, depois tirando nomes de circulação, inviabilizando carreiras, até escolher o que deve ser lido e o que não deve ser lido.

É aquele poema de Eduardo Alves da Costa:

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”

No sábado e domingo, os escritores, os livreiros e editores formaram uma corrente de proteção aos livros, um cercado de canetas, laptops, tablets e celulares guarnecendo o jardim do conhecimento, dizendo claramente para as tropas de fiscais da Prefeitura e possíveis novos batalhões desinformados da igualdade: «¡No pasarán!»

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